O primeiro 10 rebelde da Seleção

(ATENÇÃO: Nada neste post é verdadeiro. Do texto às imagens, feitas em um gerador fake de mídias sociais. Tudo não passa de um convite à imaginação e ao surreal)

Assim a notícia chegou ao feed dos brasileiros... (Imagem: simitator.com)

Assim a notícia chegou ao feed dos brasileiros… (Imagem: simitator.com)

Em segundos, a notícia já estava entre os trending topics globais do Twitter. E não precisou nem de meia hora para se tornasse meme em todas as outras redes sociais. O maior craque do futebol brasileiro, camisa 10 e capitão da Seleção, estava deixando o time pentacampeão mundial. Não por idade ou por lesão. Simplesmente pela vontade de ver, na entidade que comanda o futebol brasileiro, uma transformação. E pela consciência de que sua posição de maior ícone esportivo e cultural do país poderia ter um peso gigantesco na formação da opinião pública.

Referência absoluta, Neymar abria mão da Seleção em nome de seus valores  (Foto: Rafael Ribeiro)

Referência absoluta, Neymar abria mão da Seleção em nome de seus valores (Foto: Rafael Ribeiro)

Nos corredores da CBF, o tema foi recebido como assunto de menor importância. “Quem esse garoto acha que é? A fama deve ter subido à cabeça. Ele precisa aprender que não é maior que a Seleção. Nosso futebol é o melhor do mundo. Não fomos campeões cinco vezes à toa”, teria dito um dos vinte e três vice-presidentes da entidade. Era preciso dar uma resposta. Logo. A assessoria, então, age rápido. Menos de três horas depois, a instituição se pronuncia de forma sucinta, através de uma nota em seu site oficial.

“As opiniões do jogador Neymar não encontram eco dentro da Confederação Brasileira de Futebol. Aqui, estamos todos focados em fazer o melhor para o futebol brasileiro. Quaisquer opiniões individuais de atletas não serão levadas em conta.

A CBF espera e conta com Neymar para as próximas convocações. Caso ele se julgue importante demais para isso, a Seleção pentacampeã estará bem servida sem ele”.

Em meio a todo esse rolo, tudo o que a torcida (ou o que ainda restava dela) queria mesmo saber era: e agora? O que vai ser de Seleção sem o seu menino de ouro? Difícil imaginar o o que o futuro estava reservando. Até que chega, enfim, a hora da primeira convocação após o “basta” de Neymar. Os compromissos eram amistosos contra o Arzebaijão, em Baku, e Israel, em Londres. A primeira dúvida era saber se o craque tinha voltado atrás ou não. E nesse último caso, quem seria seu substituto. Mas não teve jeito: o jovem ignorou a ligação do comandante, dando um recado claro: “tô fora”. Para o seu lugar, então, Dunga resolveu dar oportunidade a um garoto que vinha de bela temporada no futebol russo.

Dunga teve vida fácil enquanto pôde contar com o craque. (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Dunga teve vida fácil enquanto pôde contar com o craque. (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Nas coletivas antes do primeiro jogo, o técnico evitou o assunto polêmico. “Só falo de jogadores que estão aqui”, disse, ríspido. Mas dava para perceber o “climão” que ficava no ar toda vez que se tocava no nome do ex-camisa 10. “Acho até que sou descendente de europeu porque essas perguntas insistentes não me abalam. Eu apenas mantenho minha serenidade”, brincou, tentando criar um momento de descontração.

Porém, difícil foi manter a serenidade quando o Arzebaijão abriu 1 a 0 aos 40 minutos do segundo tempo. Até porque o time já não criava nada desde meados da primeira etapa e, no intervalo, o treinador já tinha ido para os vestiários bufando. O time jogava sem criar qualquer perigo. Tudo bem que para os jogadores “europeus” do time, o amistoso era em início de temporada e, para os poucos que atuavam no Brasil, representava uma viagem em meio a rodadas decisivas do Brasileirão. Além do mais, a partida era uma daquelas missões diplomáticas da CBF a um país amigo. O que estava em primeiro plano, claro, era o lado humanitário. E só em segundo lugar, o futebol. Mas mesmo assim, aquela (inédita) derrota não tinha explicação. Era incompreensível para a torcida brasileira.

Saída do craque provocou "baque" técnico e psicológico na Seleção (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Saída do craque provocou “baque” técnico e psicológico na Seleção, mas foi minimizada pelo técnico (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Apesar desse sentimento predominar entre os brasileiros, apenas três torcedores apareceram no desembarque da Seleção no aeroporto de Heathrow, em Londres. A delegação seguiu para o hotel e, imediatamente, desceu para treinar na academia. A CBFtv, que fazia parte da comitiva, resolve então gravar um vídeo dos jogadores malhando ao som de “Eye of the Tiger”, trilha do filme “Rocky”. No dia seguinte, o grupo treinou no Emirates Stadium com direito a visita surpresa (com transmissão ao vivo) de Galvão Bueno e Ronaldo Fenômeno, além de brincadeiras com o auxiliar pontual Vampeta. Tudo para fazer o grupo se esquecer da ausência de Neymar – este, como de costume, em estado de graça a serviço do Barcelona.

A conversa motivacional com os ídolos até que deu resultado. A Seleção conseguiu ser segura defensivamente, conteve os perigosos avanços israelenses e até saiu na frente. Só que, mais uma vez, sentiu falta da individualidade de seu craque rebelde. Faltou gente para chamar a responsabilidade e resolver o jogo nos contra-ataques, se aproveitando da exposição do adversário. Que terminou arrancando um empate, num pênalti aos 25 minutos do 2º tempo. O resultado foi recebido de maneira otimista pelo técnico. “Evoluímos. Isso, não dá pra negar. Israel é uma equipe perigosa e nós seguramos bem. Dá confiança para as Eliminatórias”, disse então.

Dunga recebeu voto de confiança do presidente. Mas o que chamou atenção mesmo foi a falta de resultados e o mau futebol (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Dunga recebeu voto de confiança do presidente. Mas o que chamou atenção mesmo foi a falta de resultados e o mau futebol (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Palavra de fé
Enquanto Neymar disputava com seu colega Messi a artilharia do futebol espanhol, a Seleção se preparava para a disputa de uma vaga na próxima Copa do Mundo. Jornada que Dunga iniciava sob bastante pressão, após os fracos resultados que vinha acumulando. Seu desafio era mostrar que a Seleção podia seguir em frente sem o ex-capitão. Para isso, recebeu o voto de confiança do presidente Del Nero: se alguém levaria o Brasil para a Copa da Rússia, seria ele. Pelo menos foi o que falou o próprio dirigente, em entrevista à CBFtv.

Não foi o que se confirmou, no entanto, após a terceira derrota em três jogos ante Venezuela, Uruguai e (de novo!) Paraguai. Em nota de duas linhas emitida cerca de 30 minutos após a derrota para o time guarani, a CBF anunciou o desligamento do treinador e a efetivação do auxiliar Vampeta para o jogo contra a Argentina, além de prometer para breve a contratação de um novo comandante para o projeto. O empate no Monumental de Núñez e o “ficamos muito satisfeitos” do presidente, logo após o jogo, até deram a entender que o baiano seria o escolhido para o cargo. Mas na hora de fazer a aposta, a entidade optou pela experiência.

Com a carta de Dona Margô em mãos, Parreira garantiu que seu time não sentiria falta do craque (Foto: Reprodução/Youtube)

Com a carta de Dona Margô em mãos, Parreira garantiu que seu time não sentiria falta do craque (Foto: Reprodução/Youtube)

“Precisamos proteger esses garotos. E nada melhor para isso do que alguém que já venceu muitos trofeus com a Seleção”, disse Del Nero na coletiva de apresentação de Carlos Alberto Parreira. O técnico chegou rebatendo críticas de que seria um nome antiquado. E jurando que a verdadeira torcida brasileira não sentia falta de Neymar. “Recebemos uma carta da Dona Margô que falava justamente sobre esse assunto. ‘Aquele moleque não sabe a importância que tem vestir essa camisa amarela. E que bom que o nosso querido escrete agora está sob o comando de alguém que, com sua serenidade e astúcia, entende perfeitamente essa responsabilidade’, dizia ela. Esse tem que ser o espírito”, pontuou o treinador.

Talvez tenha faltado incluir Dona Margô na comissão técnica. Talvez tenha faltado um pouco de sorte. Mas o fato é que a experiência do professor Parreira não trouxe muitos ganhos à Seleção. Sob vaias, o time venceu a Bolívia em Maceió, antes de ser impiedosamente goleado pelo Chile em Santiago por 4 a 0. A essa altura, a Amarelinha era chacota nacional. Da vergonha internacional, se encarregava José Maria Marin. Enquanto o juiz apitava o fim da goleada, ele decolava com destino à sede do FBI, para (tentar) explicar aos ianques quem era esse tal de Zé das Medalhas que aparecia no relatório. O presidente em exercício da CBF, por sua vez, nem esperou o fim do jogo. Desligou logo a TV e sentou-se ao computador para dar entrada na renovação de seu passaporte europeu.

No limite
Na rodada final das Eliminatórias, o que antes parecia impossível estava em vias de acontecer: o Brasil estava perto, como nunca antes, de ficar fora de uma Copa pela primeira vez. Ocupando o 4º lugar na tabela, última vaga direta para o Mundial, a Seleção podia cair até para 6º se não vencesse e tivesse também uma certa dose de azar. O time ainda tinha bons talentos, mas vivia uma crise de confiança acentuada pela péssima campanha. Não havia mais espaço para erros. Mas eles aconteceram em abundância no jogo de volta contra o Paraguai: nova derrota por 1 a 0. Desta vez, em pleno Maracanã. Um verdadeiro choque para o torcedor que havia assistido, três dias antes, a mais um hat-trick de Neymar contra o Real Madrid, num épico duelo de Liga dos Campeões.

Em terras espanholas, só dava Neymar (Foto: Miguel Ruiz/FCB)

Em terras espanholas, só dava Neymar (Foto: Miguel Ruiz/FCB)

A derrota em casa foi a gota d’água para o técnico tetracampeão. Em uníssono, as arquibancadas do lendário estádio urraram pela demissão de Parreira. Mas não foi só isso. Em uma manifestação inédita na história do futebol brasileiro, cerca de 50 mil pessoas que estavam no jogo saíram em uma marcha de pouco mais de 20 km em direção à sede da CBF. Cantando gritos de ordem, os torcedores clamavam pelo fim da corrupção, por um novo processo eleitoral na entidade – e, claro, pela volta de Neymar.

Houve quebra-quebra, pneus incendiados. Cenas de violência. Dezenas de prisões feitas pela Polícia. Atos que davam o tom da revolta – e da obstinação – de pessoas que logo foram rotuladas como “vândalos” pela imprensa. E nem mesmo a tal combinação de três resultados que era necessária para mandar a Seleção a uma improvável repescagem serviu para conter os ânimos. Não havia mais volta.

Del Nero se despediu da Seleção mas não se furtou de mostrar todo seu carinho (Foto: Rafael Ribeiro)

Del Nero se despediu da Seleção mas não se furtou de mostrar todo seu carinho (Foto: Rafael Ribeiro)

Depois de assistir a tudo pela janela de seu escritório, cercado por forte aparato de segurança, Del Nero anunciou sua renúncia em pronunciamento rápido na manhã seguinte. Disse ter sofrido ameaças durante a noite e acrescentou que estava indo morar em um país onde se sentisse mais seguro. Prometeu ainda que, apesar de estar deixando a Seleção, continuaria levando-a em seu coração. Só não conseguiu levá-la para mais longe porque, no aeroporto, foi impedido de embarcar em seu voo com destino a Palermo, na Sicília.

E enquanto o ex-dirigente tentava escapar do país, Neymar acompanhava a todos os acontecimentos pelo seu Instagram, através de manifestantes que postavam fotos com as hashtags #VoltaNey e #SeleçãoÉNeymarMais10. Suspirava aliviado: afinal, seu ato de coragem não tinha provocado danos irreversíveis àquele grupo que ele costumava liderar, e que tanto havia apanhado nos últimos anos. Ele contava os dias para voltar a vestir a camisa amarela nas partidas decisivas contra o Iraque, em que o Brasil entrava como franco favorito a conquistar vaga em mais um Mundial. Sintetizou tudo isso no espaço de uma frase – ou pouco mais de 10 caracteres.

(Imagem: simitator.com)

(Imagem: simitator.com)

Comentários

Recifense, rubro-negro, apaixonado por música e estudante de Jornalismo. Sócio-diretor do Doentes por Futebol, com passagens por Seleção do Rádio e SuperesportesPE. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.