Bernardo Silva, o príncipe luso

Quem se acostumou com o Benfica de Jorge Jesus pode pensar que os Encarnados não produzem bons jogadores em suas categorias de base. Todavia, a despeito do fato de que o ex-treinador benfiquista raramente aproveitava algum atleta formado na outrora famosa “fábrica do Benfica”, há de fato bons nomes sendo produzidos pelas Águias. Um deles é Bernardo Silva, o atual camisa 10 e grande destaque da Seleção sub-21 portuguesa.

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Torcedor do clube, Bernardo é uma daquelas pessoas que podem dizer que conhecem a equipe lisboeta como poucos, afinal o Benfica foi sua casa desde os oito anos. Baixinho, habilidoso, rápido e – o mais importante – inteligente, o garoto de 20 anos viveu a atmosfera encarnada intensamente, mas nada disso bastou para que o clube lhe concedesse a oportunidade de representar, profissionalmente, as cores que sempre amou.

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Perguntado sobre a possibilidade de algum dia vestir as camisas de Porto e Sporting, em reportagem veiculada pelo portal Maisfutebol, foi enfático:

“Acabaram de dizer os dois únicos clubes em que me recuso a jogar em toda a minha vida por mais dinheiro que ofereçam.

Seguindo uma “tradição” recente pouco apreciada pela torcida benfiquista, o clube não pensou duas vezes quando o Monaco, treinado pelo português Leonardo Jardim, abriu suas portas para o jovem, no início da temporada 2014-2015. A princípio, Bernardo seguiu por empréstimo, mas, no decorrer da campanha monegasca, foi contratado em definitivo, tendo o Benfica recebido em torno de €16 Milhões.

Foto: SLBenfica.pt

Foto: SLBenfica.pt

Você deve estar se perguntando o que levou o Monaco a dispender tamanha quantia em um jogador que mal ascendeu ao futebol profissional. A explicação vai além de seu bom desempenho no semestre que passou emprestado ao clube francês. Na temporada 2013-2014, Bernardo representou o Benfica B com grande classe. Nas 38 partidas em que entrou em campo pela Segunda Liga, marcou sete gols e proveu sete assistências.

Com o Benfica B fazendo boa campanha (terminou em quinto lugar, nove pontos atrás do campeão Moreirense), Bernardo até conseguiu três míseras oportunidades com a camisa do time principal do Benfica, mas em nenhuma delas chegou a atuar por sequer 15 minutos. Em 2013-2014, foi eleito ainda a revelação da segunda divisão portuguesa e conquistou, por três vezes, o prêmio de melhor jogador do mês, em outubro e dezembro de 2013, e janeiro de 2014.

Curiosamente, os responsáveis pelas categorias de base do Benfica chegaram a temer pela evolução de seu jovem talento, uma vez que, no início de sua adolescência, o jogador era muito pequeno, fraco fisicamente e mostrava muita timidez em campo, não demonstrando ter toda a qualidade que hoje apresenta. Não obstante, seguiu sendo aproveitado, ganhou o apelido de “Príncipe Bernardo” e hoje prova que o clube acertou ao insistir em sua evolução e errou ao vendê-lo sem antes dar-lhe verdadeiras oportunidades no time principal. Nas palavras do jovem:

“Os jogadores devem jogar com a mesma alegria de que quando éramos apenas nós, uma bola e a rua. Pessoalmente, é isso que tento sempre fazer.”

Além disso, desde 2013 o garoto vem representando as equipes de base de Portugal, sempre com destaque. Após a Euro sub-19 de 2013, da qual Portugal foi semifinalista, o jogador chegou a integrar uma lista de 10 nomes de destaque feita pela UEFA. No momento, Bernardo tem representado o escalão sub-21, sendo, novamente, um jogador de grande evidência. Além disso, em março deste ano, estreou pela Seleção Portuguesa principal.

“Gostávamos de ver o Bernardo jogar no Benfica e espero que um dia possa voltar, pois é também um sonho dele”, revelou recentemente Nuno Gomes, ídolo do Benfica, ao Sapodesporto.

Foto: AS Monaco/ Stéphane Senaux

Foto: AS Monaco/ Stéphane Senaux

Atualmente, o “miúdo” vem sendo comparado a outros craques portugueses que também tratavam muito bem a bola: Deco e Rui Costa. A alegoria deixa o jovem orgulhoso: “claro que é um orgulho – ainda que sendo exagero – ser associado a esses nomes. Foram dois dos melhores jogadores do futebol português”.

Ex-ídolo benfiquista, Rui Costa é também o grande ídolo de Bernardo, como o garoto revelou ao site oficial da UEFA.

“Talvez Rui Costa (seja meu maior ídolo), porque representou o Benfica. Foi um símbolo do Benfica e da seleção durante muitos anos. Por isso sim, diria que Rui Costa foi o meu jogador português favorito. A nível internacional, escolheria (Zinédine) Zidane. Para mim, ele foi o melhor jogador do Mundo durante a minha infância, e também porque jogou na mesma posição que eu. Esses foram os meus dois ídolos no futebol e que eu mais gostava de ver jogar”.

Em franca evolução, Bernardo é sem dúvidas o “produto” mais talentoso revelado pelo Benfica nos últimos anos e, embora tenha as características de um camisa 10 clássico, pode também atuar em qualquer das faixas do meio-campo ofensivo. Na temporada recém-finda, o jovem entrou em campo 45 vezes, marcou 10 gols e assistiu seus companheiros quatro vezes, uma marca e tanto para temporada de estreia na primeira divisão e, sobretudo, em uma equipe de qualidade, como é o Monaco.

Assessorado pela experiência dos portugueses Ricardo Carvalho, João Moutinho e do treinador Jardim, Bernardo adaptou-se rapidamente ao Monaco e foi um dos melhores jogadores do clube na última temporada.

“O Bernardo de agosto de 2014 não é o mesmo de hoje. Bernardo Silva passou de um jogador jovem para um jogador importante para a equipa, um jogador decisivo. Não irá progredir tanto no próximo ano. Se conseguir manter este nível, vai ficar bem”, disse Leonardo Jardim no início de junho ao periódico francês L’Equipe.

Foto: FPF

Foto: FPF

Tudo leva a crer que o futebol português ganhou mais um talentosíssimo camisa 10, alguém à altura de seus maiores ídolos. Por essa razão, vale a pena continuar seguindo seus passos, que têm sido muito largos nos últimos dois anos. Da segunda divisão portuguesa à Seleção das Quinas, Bernardo mostra uma ascensão impressionante e deixa claro que é um jogador para ser observado com carinho, um diamante bruto em rápido processo de lapidação.

Olho Nele!

 

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo, no Chelsea Brasil e na Corner.