Pela memória de Barbosa, David Luiz não pode se safar do 7×1

O torcedor brasileiro não consegue encarar um fracasso sem apontar um culpado. Faz parte do processo de superação do trauma, para um povo que, em geral, sente a necessidade de assistir à história através de uma perspectiva dramática: há quase sempre um herói e um vilão, um protagonista e um antagonista. Diversos episódios na história do Brasil são narrados dentro dessa dicotomia, e no futebol, esporte mais popular no país, não é diferente.

A Seleção Brasileira é a única a disputar todas as vinte edições da Copa do Mundo. E por conta da paixão à primeira vista de seu povo pelo futebol, sempre houve uma grande cobrança por títulos. O que significa que em grande parte das vezes em que os brasileiros voltaram pra casa de mãos vazias, uma pessoa ou uma circunstância foi apontada como bode expiatório. Frequentemente, uma carga de culpa injusta, em cima de algum jogador com mais currículo ou de alguém que tenha cometido uma falha crucial. Mas um deles escapou do rótulo. Provavelmente, um dos que mais o merecia.

Ídolo do "Expresso da Vitória" vascaíno nas décadas de 40 e 50, Barbosa deixou de ser "o goleiro perfeito" para ficar marcado como culpado por um vexame da Seleção (Foto: Reprodução/Arquivo)

Ídolo do “Expresso da Vitória” vascaíno nas décadas de 40 e 50, Barbosa deixou de ser “o goleiro perfeito” para ficar marcado como culpado por um vexame da Seleção (Foto: Reprodução/Arquivo)

Primeiro, aconteceu com Barbosa, o goleiro que levou toda a responsabilidade pela derrota para os uruguaios no “Maracanaço”.

Aconteceu com Zico, que se aposentou com a pecha de “amarelão” pela Seleção por não ter conquistado títulos em 82 e 86.

Com Dunga, que enfrentou um verdadeiro massacre após a derrota em 90.

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Também com Roberto Carlos e seu meião, em 2006, e até com Felipe Melo, que havia sido crucial para o encaixe do time no pré-Copa da África do Sul, mas nunca mais foi convocado após sua expulsão contra a Holanda. O único – talvez, o primeiro – a escapar ileso de um fiasco foi David Luiz.

HYPE DAVID LUIZ

Isso ficou provado quando, após a eliminação na última Copa América, o zagueiro foi recebido pela torcida no aeroporto com aplausos, enquanto jogadores como Roberto Firmino, com menos de 10 partidas pela Seleção, ouviram vaias e gritos de “mercenário”. Vale lembrar que David foi protagonista do lance mais bizarro do time no torneio, entregando um gol aos peruanos logo nos minutos iniciais da estreia. Erro que o fez ir para o banco e não mais voltar a ser titular, mas que não foi suficiente para arranhar sua imagem com os torcedores. O que não foi de espantar, já que ele havia saído impune de falhas mais graves.

David Luiz avança decidido ao ataque: atitudes desesperadas do grande líder em campo (Foto: Rafael Ribeiro//CBF)

David Luiz avança decidido ao ataque: atitudes desesperadas do grande líder em campo (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

É por isso que, no aniversário do maior vexame que uma equipe já passou em qualquer esporte, é dia de relembrar algo que nem todos os torcedores conseguiram perceber no calor do jogo: a horrível atuação daquele que foi nosso capitão na oportunidade. Em todos os sentidos, uma partida para esquecer, justamente no dia em que sua responsabilidade era de liderar uma equipe sem seu principal craque. Uma tarefa que ele parecia ignorar. Muito porque não conseguia sequer cumprir com as suas próprias atribuições defensivas, o que foi determinante para que a Seleção sofresse pelo menos cinco dos sete gols.

Erros demais

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Falando apenas da atuação individual do zagueiro, ele deixou bastante a desejar. Quase não fez oposição às investidas dos alemães, tendo terminado o jogo com apenas quatro desarmes e três interceptações. Na maioria dos gols do adversário, David Luiz aparece trotando enquanto acompanha os lances. Quando teve a bola nos pés, tudo o que fez foi tentar, sem sucesso, ser o articulador que o Brasil não tinha naquela partida. Abusou dos chutões, entregando a pelota ao adversário. Terminou a partida com um aproveitamento de passes bem mais baixo que Dante, seu parceiro de zaga (88% x 81%), e inferior também ao de Maicon, com 89%. Entre os defensores, que geralmente dão passes mais simples, só superou Marcelo (77%) no quesito.

Em vermelho, as vezes em que David Luiz entregou a bola ao adversário (Imagem: Squawka)

Em vermelho, as vezes em que David Luiz entregou a bola ao adversário (Imagem: Squawka)

Os quatro desarmes do zagueiro na partida - um deles, com falta (Imagem:  Squawka)

Os quatro desarmes do zagueiro na partida – um deles, com falta (Imagem: Squawka)

Desastre tático

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Só que David Luiz não se vê como um simples defensor. Talvez por se sentir mais responsável por “fazer seu povo feliz” do que por defender, ele sempre demonstrou ao longo de sua carreira uma grande dificuldade para guardar posição. Tanto que José Mourinho, que foi seu técnico no Chelsea, praticamente desistiu de usá-lo como zagueiro, dando-lhe um lugar no rodízio do meio-campo. Contra a Alemanha, não foi diferente. Ele avançou excessivamente para o ataque, e facilitou demais a vida dos rivais. Que, por sua vez, aniquilaram a Seleção se aproveitando da fragilidade que essas subidas, muitas vezes tresloucadas, deixavam na defesa brasileira.

Mapa de calor de David contra a Alemanha: David perambulou por todo o campo e ocupou mais o lado do seu parceiro de zaga do que o seu próprio (Imagem: Squawka)

Mapa de calor de David contra a Alemanha: David perambulou por todo o campo e ocupou mais o lado do seu parceiro de zaga do que o seu próprio (Imagem: Squawka)

Líder instável

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No papel de capitão do time na ausência de Thiago Silva, David tinha a obrigação de controlar ao máximo os instintos e as emoções de seus companheiros. Mas ele não foi capaz de domar sequer as suas próprias. Nitidamente afobado, parecia ansioso para tentar resolver o jogo e ainda entrou em diversas disputas de bola de forma demasiadamente brusca, chegando perto de atingir o atacante Miroslav Klose com o cotovelo em um lance e dando uma entrada forte em Thomas Müller em outro. Por conta dessa incapacidade de fazer a leitura correta do jogo, o zagueiro não conseguiu orientar nem aos seus colegas de time, nem a si mesmo, colaborando de maneira decisiva para que a Seleção se apresentasse extremamente bagunçada naquela tarde trágica.

Difícil é encontrar uma foto de David Luiz desarmando alguém no 7 a 1 (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

David Luiz tenta driblar Thomas Müller: Difícil é encontrar uma foto dele desarmando algum alemão (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Em respeito à memória de todos aqueles jogadores que foram achincalhados pela opinião pública após fiascos da Seleção, essa atuação precisa vir à tona. Porque não é justo que, com tantos grandes nomes do futebol brasileiro sendo associados a “amareladas”, possivelmente o que mais mereceu o carimbo de culpado seja o único a conseguir driblá-lo. O ideal seria que o brasileiro aprendesse a enxergar a história de forma mais sóbria, menos dramática. Mas enquanto isso não é possível, é preciso aprender a respeitar os verdadeiros ídolos e, principalmente, a não se iludir com fenômenos de marketing pessoal que acrescentam muito pouco dentro de campo.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.