O temido Furacão de 2004

  • por Rogério Júnior
  • 2 Anos atrás

Engana-se quem pensa que os esquadrões rubro-negros de 2001 e de 2005 foram os principais times do Atlético-PR neste século. Nem o escrete campeão brasileiro, liderado por Alex Mineiro, e tampouco a equipe vice-campeã da Libertadores, regida por uma notável força de conjunto, jogaram metade da bola que o Furacão de 2004, vice-campeão brasileiro, jogou.

A máquina de Levir Culpi, o burro com sorte, gastou a bola e a tratou com carinho durante todo o Campeonato Brasileiro de 2004. Fernandinho, JádsonMarcão, Alan Bahia, Washington, Dênis Marques, Dagoberto e companhia ilimitada tinham a missão de deixar os adversários um tanto quanto atordoados a cada rodada. Um verdadeiro vulcão vestido de vermelho e preto e que, por um capricho do destino, deixou escapar o bicampeonato nacional num sombrio e arrepiante domingo na cidade de Erechim.

Foto: Montagem DPF - Para abastecer o Coração Valente, um quarteto mágico disposto a fazer história: Jádson, Dagoberto, Dênis Marques e Fernandinho.

Foto: Montagem DPF – Para abastecer o Coração Valente, um quarteto mágico disposto a fazer história: Jádson, Dagoberto, Dênis Marques e Fernandinho.

A orquestra de Levir Culpi

O Atlético iniciou o Campeonato Brasileiro daquele ano de maneira conturbada. Depois de perder a final do Campeonato Paranaense para o arquirrival Coritiba, o treinador Mário Sérgio acabou sendo demitido pela diretoria. A missão de treinar o time nas primeiras rodadas do campeonato ficou a cargo do interino Julio Piza.

A derrota na estreia para o São Paulo e o vexame diante do Figueirense na Arena da Baixada na segunda rodada serviram para que a cúpula atleticana se apressasse na procura do novo treinador. Por sorte dos atleticanos e de todos os amantes do futebol bem jogado, a escolha atendeu pelo nome de Levir Culpi.

Na estreia, uma vitória acachapante sobre o Paysandu, em Belém. Os gols de Jádson, Ilan e Ramalho, no triunfo por 3 a 0 sobre os paraenses, foram somente um prenúncio do que viria pela frente. No quinto jogo de Levir Culpi à frente do clube, um verdadeiro massacre: 5 a 0 no poderoso Corinthians, em pleno Pacaembu.

É possível dizer que os cinco gols daquela noite diante do Timão representavam todos os atributos que a equipe poderia oferecer. Todo o panorama tático que Levir Culpi desenhava para o time esteve exposto no Pacaembu e cada um dos gols demonstrava alguma característica peculiar da esquadra atleticana.

  • 1. Transição e infiltração de Marcão. O guerreiro, lutador, coringa e símbolo daquele time ocupava a lateral esquerda do campo na partida e logo a 1 minuto de jogo partiu para cima de Rogério, lateral corintiano. Em seguida deu a Ilan, a parede atleticana, que serviu Jádson, que só teve o trabalho de fuzilar a rede de Fábio Costa. Estava aberto o placar.
  • 2. Um minuto depois, mais uma demonstração do poder de fogo do 11 de Levir Culpi. Raulen, personagem secundário daquele time, mergulhou no campo de defesa do Corinthians e enxergou a infiltração da válvula de escape Fernandinho. O inteligente meio campista, que também atuava de ala no 3-5-2 de Levir, passou para o inesgotável Jádson colocar mais uma bola atleticana na rede da Fiel. 2 a 0 em 2 minutos de jogo.
  • 3. A marcação sob pressão no campo de defesa do inimigo era a marca do time de Levir Culpi. Mesmo com o 2 a 0 no placar, o Atlético tinha fome de gol, o que fez Bruno Lança subir a marcação para que Jádson roubasse a bola e desse a Dagoberto, livre de marcação, anotar o terceiro gol. Uma máquina de jogar de futebol, na essência da expressão.
  • 4. A bola parada também era carta na manga da equipe atleticana. Com Jádson, faltas ao redor da grande área eram um prato cheio para o Furacão mexer no placar dos jogos. Foi desta forma que o menino de 20 anos colocou a quarta bola atleticana na rede de Fábio Costa.
  • 5. Mais uma vez, Fernandinho. Dentro da área, como quase um atacante, mergulhou e serviu Dagoberto, a joia atleticana, que só teve a o trabalho de empurrar a pelota para o fundo da rede. Eram números finais: 5 a 0, atuação de gala, esperança.

Dali em diante, o Furacão foi se impondo no campeonato. Mais cascudo a cada rodada, o time passava a travar uma luta ferrenha com o Santos, de Vanderlei Luxemburgo, em busca do caneco do Campeonato Brasileiro.

Goleadas como o 6 a 0 diante do Goiás, o 4 a 1 sobre o Fluminense, o 4 a 0 diante da Ponte Preta e o 5 a 0 sobre o Galo eram algumas das peripécias do mágico time, ilustrado na garra de Marcão, na impetuosidade de Alan Bahia, na desenvoltura de Fernandinho, no talento magistral de Jádson, no brilhantismo de Dagoberto, na aparição meteórica de Dênis Marques e nos intermináveis gols de Washington, o Coração Valente – maior artilheiro de uma única edição de Campeonato Brasileiro, com 34 gols anotados naquela competição.

Foto: Divulgação Atlético - Com 34 gols anotados, Washington é o maior artilheiro de uma única edição na história do Campeonato Brasileiro.

Foto: Divulgação Atlético – Com 34 gols anotados, Washington é o maior artilheiro de uma única edição na história do Campeonato Brasileiro.

A tragédia de Erechim

Rio Grande do Sul, Erechim, Colosso da Lagoa, 28 de novembro de 2004. Este era cenário reservado para o confronto entre o líder isolado do certamente e o praticamente rebaixado Grêmio de Porto Alegre. Aos 13 minutos do segundo tempo, Dênis Marques e Fernandinho, duas vezes, já desenhavam o placar de 3 a 0 para o Atlético que, àquela altura, caminhava a passos largos rumo à segunda estrela nacional.

Entretanto, estamos falando de futebol. Inacreditavelmente, o Grêmio foi buscar forças de onde já não se imaginava e, numa história repleta de emoções afloradas, agonia, comoção e reviravoltas, conseguiu um inimaginável empate, fruto dos tentos assinalados por Roberto Santos, aos 25 minutos da segunda etapa, Baloy, no minuto 44, e Cláudio Pitbull, aos 46 – no apagar das luzes e, por que não, da esperança atleticana.

Foto: José Doval/RBS - O rubro-negro chegou a abrir 3 a 0 sobre o Grêmio, em  Erechim. Tudo foi por água baixo em poucos minutos.

Foto: José Doval/RBS – O rubro-negro chegou a abrir 3 a 0 sobre o Grêmio, em Erechim, mas tudo foi por água baixo em poucos minutos.

Nem mesmo a mágica atuação frente ao São Caetano na rodada seguinte fez com que o Atlético conquistasse a estrela dourada. A sequela provocada pelo Grêmio tornou-se exposta na derrota para o Vasco, pela penúltima rodada, e no empate diante do Botafogo, na última jornada do certame, no Joaquim Américo – que acabaram por sacramentar o vice-campeonato da equipe.

Washington, em entrevista ao Globo Esporte no final do ano passado, referindo-se ao melancólico 3 a 3 em Erechim, disse: “Senti que ali iríamos perder o campeonato. No fim das contas, todos saíram derrotados do jogo”.

Por mais que o Atlético tenha falhado num momento fatal, o balanço é extremamente positivo. Ao todo, foram 25 vitórias, 93 gols marcados, além da artilharia isolada do Coração Valente. Além disso, fica registrada na memória do amante do futebol toda a sutileza, a fineza e o charme daquele esquadrão montado e arquitetado pelo professor Levir Culpi.

Foto: LineUp11 - O time base atleticano, orquestrado por Lebir Culpi.

Foto: LineUp11 – O time base atleticano, orquestrado por Levir Culpi.

Comentários

Curitibano, jornalista, 24 anos. Apaixonado pela bola, apegado pelas canchas e admirador do povão que as frequentam. Apreciador do futebol, seja ele jogado na final da Copa do Mundo ou numa singela rodada da terceirona gaúcha.