Di María para correr e agredir

Em apenas 306 minutos pelo PSG, Ángel Di María já mostrou que será importantíssimo para as pretensões da equipe treinada por Laurent Blanc na temporada. Isso porque El Fideo marcou dois gols e deu duas assistências, além de firmar atuações mais do que positivas contra Malmo na Champions e Guingamp na Ligue One. Depois de decepcionar na Premier League, o argentino está no caminho certo para voltar ao nível de 2013/2014, quando, pelo Real Madrid, terminou a campanha em alta e chegou à Copa do Mundo em plena forma física e técnica.

Nasser Al-Khelaifi comprou o PSG em 2011. Em sua apresentação, o empresário e ex-jogador de tênis do Qatar prometeu colocar o clube de Paris no mais alto escalão do futebol europeu. Quatro anos depois, os Les Rouge-et-Bleus estão quase lá. A equipe começou uma hegemonia na França, com três títulos nacionais consecutivos, e pararam nas quartas de final UCL nas últimas três edições.

As últimas duas eliminações, para Chelsea e Barcelona, deixaram um gosto amargo na boca dos torcedores e uma sensação de que o projeto ainda está verde na tentativa de alcançar o grande sonho: ganhar o título europeu. O PSG deu mais um ótimo passo rumo à orelhuda quando comprou Di María. Essencial na conquista da “Décima” do Real Madrid, o argentino é aquele tipo de jogador que eleva a competitividade de um time ao máximo.

O sistema de Blanc é baseado em três mecanismos: saída de bola, liberdade total de Ibrahimovic e Matuidi entre linhas. Expliquemos.

Saída de bola: com Blanc, o PSG ganhou uma identidade. Apesar de ter um lançador como David Luiz na zaga, a equipe raramente opta pela ligação direta. A saída é sempre terrestre, feita por um dos zagueiros e passando por Thiago Motta e/ou Verratti. A paciência para girar a bola no campo de defesa e entregá-la a Matuidi ou um dos três atacantes de maneira limpa é tão grande, que, por muitas vezes, quando as opções são bloqueadas, Thiago e Marco exageram na pausa e tornam o jogo pariense muito lento.

Foto: Site Oficial do PSG | Zlatan Ibrahimovic: mais do que um simples centroavante

Foto: Site Oficial do PSG | Zlatan Ibrahimovic: mais do que um simples centroavante

A liberdade total de Ibrahimovic: desde os tempos de futebol italiano, Ibra adquiriu uma qualidade única de sair de sua zona de atuação para baixar uns metros e buscar a bola. No PSG, especialmente na atual temporada, esse deslocamento é total. Na Supercopa da França, Blanc chamou a atenção de muitos especialistas ao encarregar o sueco de, em alguns casos, começar uma “saída lavolpiana”. Ibra prioridade na hierarquia e seus companheiros de ataques ficam condicionados pelo o que o sueco irá fazer.

Matuidi entre linhas: o meio-campo do 4-3-3 de Blanc tem muita qualidade, mas peca por um fator primordial: a pouca presença entre linhas. Embora o trio seja importante no jogo de passes, apenas um homem conduz a bola até a frente: Matuidi. O excelente meia francês, principalmente quando abre à esquerda, aterroriza com a pelota nos pés. Taticamente, Blaise é uma mistura de Di María do Ancelotti com Iniesta do Guardiola: leitura de alto nível e desmarques sempre inteligentes, seja ao centro ou ao lado.

ibra-na-defesa-dpfAqui, um exemplo de Ibra descendo à defesa para buscar bola. Cavani se move à posição de 9 e Rabiot, primeiro volante, pula uma linha, para receber do sueco.

A soma desses três pontos torna o PSG uma equipe altamente associativa. Em 2014/2015, a média da posse de bola foi de 63,4%, a terceira maior da Europa, atrás somente de Barça e Bayern de Munich. Até quando enfrentaram os blaugranas na Champions, os franceses tiveram personalidade para, ao menos, tentar a iniciativa. Com Ancelotti, a equipe gostava de ter a bola, mas também não tinha vergonha de entregá-la ao adversário.

Essa evolução, no ponto de vista estético, tornou-se agradável para quem gosta de um futebol mais coletivo, mas também transformou o melhor time francês uma equipe muito horizontal. Se tem uma coisa que Di María não é, é calmo. Fideo é elétrico e vertical por natureza. Gosta de arrancar quando domina a bola. Sua melhor versão é encontrada quando tem espaços para correr (Argentina de Sabella, Real Madrid de Mourinho e Ancelotti).

Foto: Site Oficial do PSG | Com Di María, PSG pode alçar voos maiores na Liga dos Campeões

Foto: Site Oficial do PSG | Com Di María, PSG pode alçar voos maiores na Liga dos Campeões

Blanc não mudou sua característica, mas está conseguindo introduzir Ángel ao time (sem subutilizá-lo) com uma simples ação: quando Ibra sai da área para dialogar com os volantes, Di María tem todo o espaço que quer para fluir seu jogo. Bingo. O argentino serve como um veneno para PSG, porque transforma a lenta posse em algo agressivo. Ele ainda se mostra desacertado tecnicamente, mas está se adaptando e certamente irá produzir mais. Blanc tem no plantel um jogador que pode mesclar seu estilo com um mais ortodoxo (mais contra-ataque, garra e recuos coerentes) para jogos grandes na Europa. Consequentemente, defender em sua própria área resgataria a versão perdida de Thiago Silva, aquela magnífica e dominante de 12/13.

Os primeiros testes de elite se aproximam. Já na fase de grupos, os parisienses enfrentam o Real Madrid. Uma coisa é verdade: o PSG enfim dá medo de verdade no cenário continental graças a sua agressividade, caráter, profundidade e produtividade. Di María era seu nome.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.