História do futebol colombiano: a Era dos Narcos (cont.)

  • por Doentes por Futebol
  • 3 Anos atrás

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Parte 1: Do nascimento à Era de Ouro
Parte 2: A Era dos Narcos
Parte 4: A reconstrução 

Por Ivan Alves Pereira

Escobar e Atlético Nacional

Enquanto os Irmãos Orejuela se envolviam com o América de Cáli e Gacha com Millonarios (de Bogotá), na capital da Antioquia ocorria um caso muito curioso. Até então, absolutamente nada prova a ligação entre Pablo Escobar e o Atlético Nacional. Pablo nunca possuiu um cargo de diretoria, conselho ou foi patrocinador do clube (pelo menos oficialmente). O que existia era uma suspeita ligação do traficante com o presidente e maior acionista do clube, Hernán Botero Moreno. Moreno foi o primeiro narcotraficante extraditado aos Estados Unidos graças à investigação que comprovou que o colombiano utilizava sua casa de câmbio em Miami para lavar dinheiro e comercializar drogas.

Com a queda de Moreno, a vaga de presidente passou para as mãos de Hernán Mesa, cuja gestão desastrosa quase rebaixou o Atlético. Neste momento, Octavio Piedrahita, contrabandista de couro na cidade de Pereira, passou a utilizar o clube para lavar dinheiro até ser assassinado em 1986, quando El Verde passou a ser vinculado a Pablo Escobar.

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Escobar em um dos campos de futebol criados por ele em Medellín (foto: Difusión)

Pablo, ao contrário dos já citados, tinha uma ânsia incontrolável em se mostrar poderoso. Para ele, o poder era mais importante do que o dinheiro em si. Na opinião de muitos, ele só resolveu investir no futebol ao ver outros chefes do crime ganhando fama – inclusive, muitos pesquisadores defendem que, ao contrário do se acredita, Escobar nunca foi um apaixonado pelo Nacional, sendo, na verdade, torcedor do Independiente.

Escobar não tinha medo de ser violento, se mostrar violento e de chamar atenção por sua violência. Um grande exemplo disso foi o assassinato de Álvaro Ortega após um jogo do Atlético Nacional contra o América em que a atuação do árbitro não o agradou. O crime chamou atenção não somente na Colômbia, mas em todo o mundo, e marcou o início do império da cultura do medo no futebol local.

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Trecho de jornal colombiano retrata a onda de temor no futebol após o assassinato de Ortega (foto arquivo)

O feito mais relevante do Atlético nestes anos de influência de Escobar foi a conquista da Libertadores da América em 1989. O Nacional, ao contrário do América, não procurou investir em grandes nomes do exterior, montando um time competente com os destaques locais, entre eles Leonel Álvares, Rene Higuita e Andrés Escobar. A conquista é recheada de acusações de ameaças contra árbitros.

Ainda no final dos anos 1980, a liga finalmente permitiu patrocínio de empresas privadas e limitou o número de estrangeiros em quatro por time. Assim, através de empresas de fachada, Pablo Escobar injetou muito dinheiro no Nacional; em contrapartida, tinha direito a renda das partidas da equipe (uma verdadeira máquina de lavar dinheiro).

Atlético Nacional Campeão da Libertadores em 1989

Atlético Nacional campeão da Libertadores em 1989

Na virada da década, o cerco contra o narcotraficante se apertou, e teve início uma grande pressão internacional contra a presença de Pablo no futebol. Antes da final do intercontinental de 1989, Silvio Berlusconi (não podemos deixar de rir agora) chegou a declarar que o “Milan iria lutar contra o Nacional para derrotar a parte suja do mundo”.

No início dos anos 1990, o Cartel de Medellín já vivia um grande processo de desmonte e o Estado endureceu na guerra contra Pablo. Investir no Nacional foi uma forma de mostrar poder frente o governo federal, deixando claro que a partir da violência tudo era possível e ajudando a disseminar a sensação de medo em toda Colômbia.

A Copa e a queda

Essa fase do futebol e da política colombiana acabou nas Copas de 1990 e 1994, respectivamente. Compelidos a sempre visitar Pablo em sua prisão, atletas do Nacional, principalmente o goleiro René Higuita, acabaram estabelecendo relações próximas com o narcotraficante. Higuita, inclusive, foi privado de disputar a Copa do Mundo dos Estados Unidos por ter passado quatro meses entre a virada de 1993 e 1994 na prisão acusado de intermediar um sequestro para Escobar, fato que não foi comprovado posteriormente.

A seleção da Colômbia, mesmo com todos os problemas internos, vinha para aquele Mundial com sua melhor geração, tendo como base o Nacional campeão de 1989 e embalada por uma vitória de 5×0 sobre a Argentina em Buenos Aires.

O triste fim dessa história vem junto com o assassinato do capitão do time do mundial, Andrés Escobar, em Medellín, duas semanas após a eliminação. Embora nunca sido comprovada, a versão mais aceita é que o crime decorreu de perda de dinheiro de traficantes com apostas, sendo Andrés responsabilizado pela eliminação da equipe (ele foi autor de um gol contra na derrota para os Estados Unidos em 1994).

Assim, de forma melancólica, acaba esse triste período do futebol, não só na Colômbia mas em todo continente.

Continue lendo:

Parte 4- História do futebol colombiano: a reconstrução

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