Meia hora de Lucas Lima

Apesar de ter jogado apenas trinta minutos, Lucas Lima foi a grande notícia do Brasil na vitória por 3×1 contra a Venezuela. Ao meio-campo do Santos, bastou dar pinceladas de seu arsenal para impactar logo de cara todo o sistema ofensivo da Seleção. Não foi coincidência sua entrada ter melhorado individualmente Douglas Costa e Ricardo Oliveira, assistente e goleador, respectivamente, no gol que definiu o jogo. As sensações foram as melhores possíveis.

A verdade é que ainda há quem fique desconfiado da titularidade de um jogador que atue em solo brasileiro. Jogar semanalmente em um território não europeu condiciona a visão de uma realidade inquestionável: Lucas Lima é diferenciado. Se é em nível de elite europeia, isso é uma questão que será respondida somente quando ele for transferido para o Velho Continente.

Em meia hora, Lucas Lima, mesmo sem mostrar nada de outro mundo, impactou o sistema ofensivo da Seleção || Créditos: Rafael Ribeiro / CBF

Em meia hora, Lucas Lima, mesmo sem mostrar nada de outro mundo, impactou o sistema ofensivo da Seleção || Créditos: Rafael Ribeiro/CBF

Por característica, Lucas Lima é um jogador necessário para o Brasil competir na América do Sul, pelo menos em um cenário onde Oscar não consegue desempenhar eficientemente seu papel e Phillipe Coutinho seja ausência. Explicar a sua importância ao sistema de Dunga e a consequência no crescimento de desempenho dos companheiros de ataque é simples.

Primeiro, a movimentação. Como camisa 10, o santista gosta de “lateralizar” sua posição. Ou seja, ele sempre vai se aproximar dos pontas. Antes de sua entrada em campo, não foi difícil ver Willian e Douglas Costa, os extremos, isolados pelos lados. Conservador, Dunga preza por volantes estáticos, que garantam a organização defensiva, preterindo as subidas ao ataque. Por somar mais quando se desloca por dentro, o jogador do Chelsea não estranha tanto e segue se destacando. Pior para o novo pupilo de Guardiola, que viu a marcação dobrar na esquerda e perdeu eficiência na costumeira jogada de linha de fundo.

Lucas em cena habitual: bola no pé e olho no jogo || Foto: Ricardo Saibun/Santos FC

Lucas em cena habitual no Santos: bola no pé e olho no jogo || Foto: Ricardo Saibun/Santos FC

Segundo, a aura de organizador. O meia é o típico enganche sul-americano. Ou, como bem definiu um amigo em uma conversa no twitter, um típico enganche clássico sul-americano. Por quê? Pela simples vontade de estar em contato com a bola a todo momento. Constante, Lucas quer mandar no jogo desde trás, visitando a zona dos volantes, com quem sempre dialoga. Ao contrário de Oscar, o camisa 20 santista sempre vai baixar uns metros para armar um ataque. Pelo Santos de Dorival, é possível ver o meia buscar a bola próximo dos zagueiros.

Oscar vive um momento de desacerto técnico, ratificado contra Chile e Venezuela. Talvez, seja o momento de Dunga dar a oportunidade de titularidade a Lucas Lima, que visivelmente interpretou melhor o (difícil) papel de ser organizador de uma seleção carente de criatividade, que vive muito das individualidades e segue pecando pelo senso coletivo. A Vinotinto não é um teste de maior nível, claro, mas foi possível ver que o habilidoso meia de 26 anos consertou, por meia hora, todos os defeitos táticos da seleção.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.