DPF Entrevista: Digão, zagueiro do Al-Hilal

Foto: Alhilal.com

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Zagueiro revelado no Fluminense, Rodrigo Junior Paula Silva, o Digão, já viveu de tudo em sua carreira. Revelado em 2009, fez parte da equipe tricolor que conseguiu uma impensável fuga da zona de rebaixamento e posteriormente integrou os vitoriosos elencos de 2010 e 2012, anos em que o Flu conquistou o Brasileirão. Atleta do Al-Hilal, da Arábia Saudita, desde 2014, o jogador de 27 anos vem vivendo novas e diferentes experiências, algumas delas divididas, com exclusividade, com o Doentes por Futebol.

Wladimir Dias (DpF): Desde sua ascensão ao elenco principal do Fluminense, você se tornou peça importante para a equipe e querida por boa parte da torcida. No entanto, seu primeiro ano foi marcado pela difícil luta contra o rebaixamento. Houve algum divisor de águas para a recuperação da equipe? Como foi essa luta?

Digão: Para um atleta jovem, é difícil subir ao profissional com o time em situação ruim como era a nossa. 60% dos jogadores do elenco eram jovens. Acho que o divisor de águas foi o fato do Cuca ter assumido a responsabilidade de nos colocar para jogar. Ele viu que, naquele momento, a equipe precisava passar por mudanças. Graças a Deus, demos conta do recado e, no fim, as coisas deram certo.

DpF: Curiosamente, já em 2010 o clube encontrou-se em uma situação muito melhor e conquistou o título brasileiro. Qual foi o fator primordial para essa rápida mudança de ares? Há alguma figura que se possa responsabilizar por esse sucesso? Se sim, quem?

Digão: A manutenção do elenco, a contratação de jogadores experientes e a chegada do Muricy Ramalho – um treinador que gosta de conquistar títulos – foram primordiais para que chegássemos àquela conquista. O Muricy conseguiu motivar o grupo inteiro.

DpF: Em 2012, após outra campanha sólida em 2011, o Flu voltou a ser campeão brasileiro. O que você poderia apontar como as grandes diferenças entre as vitoriosas equipes de 2010 e 2012?

Digão: O legal era a vontade de ganhar cada jogo. Não importava se era em casa ou fora, o time sempre entrava firme para vencer. As duas equipes tinham espírito vitorioso. Tanto é que, em 2012, fomos campeões com três rodadas de antecedência.

Foto: Fluminense.com.br

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DpF: Em seu período no clube carioca você jogou com alguns jogadores de grande categoria. Para você quem foi o melhor companheiro de time? E adversário?

Digão: Neste período, atuei ao lado de muitos jogadores de qualidade, que faziam a diferença dentro de campo. Posso citar Fred, Deco, Felipe, Thiago Neves, Sóbis, Cavalieri e outros. Mas o mais importante era a união que tínhamos fora de campo. Acho que isso contribuiu para que as coisas dessem certo dentro das quatro linhas.

DpF: Em sua trajetória no Fluminense, qual você considera ter sido o jogo mais marcante para a sua carreira? Por quê?

Digão: Há quatro jogos que não me saem da cabeça. Contra o Boca, na Bombonera, pela Libertadoes de 2012; Cruzeiro no Mineirão, pelo Brasileirão de 2009; Palmeiras no Maracanã, também pelo Brasileirão de 2009; e Palmeiras em Presidente Prudente, pelo Brasileirão de 2012. Jamais me esquecerei destas partidas!

DpF: Qual foi a principal motivação para a sua saída do Flu e ida para a Arábia Saudita?

Digão: Melhor qualidade de vida para minha família e, óbvio, a independência financeira.

DpF: Desde que chegou a seu novo clube, quais foram as maiores diferenças culturais que você percebeu entre Brasil e Arábia Saudita? Como são os costumes, a culinária e as tradições do país?

Digão: A diferença é enorme. O clima quente e seco, o idioma, a comida, a religião… Os costumes são muito diferentes, mas quando você tem um objetivo na vida, tem que se adaptar a tudo. O começo foi bastante difícil, mas hoje estou bem adaptado a tudo isso.

Foto: Fluminense.com.br

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DpF: No Al-Hilal, você está sendo treinado por seu quarto treinador (incluindo o interino Marius Ciprian). Em termos de treinamentos e táticas, em que se diferencia a abordagem proposta por eles em relação àquela aplicada pelos brasileiros?

Digão: Aqui, o jogo é um pouco mais rápido. Trabalham muito em velocidade e como a maioria dos treinadores daqui são europeus, é implantado esse estilo de jogo. Diferentemente do futebol brasileiro, que é mais cadenciado.

DpF: Muito se questiona sobre a qualidade do futebol nos países árabes, qual a sua impressão sobre esse assunto?

Digão: Quem não conhece, com certeza vai dizer que o futebol daqui é fraco. Mas tenho certeza que se procurarem conhecê-lo melhor, a opinião vai mudar. Por não ser tão divulgado, as pessoas taxam o nível do futebol como baixo, mas não é bem assim. É óbvio que tem os times fracos, como em todo lugar. Mas o futebol tem crescido bastante no país, a começar pela média de público, que é muito maior que a do Brasil.

DpF: Como é o tratamento do torcedor saudita em relação ao clube e aos jogadores? Quais as semelhanças e diferenças com relação ao torcedor brasileiro?

Digão: Aqui, o tratamento é uma coisa absurda. Pelo fato de o time ser da família Real, a cobrança é maior. Mas o carinho e admiração também são enormes. A principal diferença, em relação ao Brasil, é o respeito. Quando eles querem cobrar, vão ao treino ou estádio, cobram e vaiam.

Foto: Alhilal.com

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DpF: Apesar de absurdas, ainda nos dias atuais vivemos situações de racismo no esporte. Alguma vez em sua carreira você ou algum de seus companheiros chegou a lidar com esse tipo de ofensa?

Digão: É muito complicado falar sobre esse assunto. Eu, graças a Deus, nunca vivenciei e espero não vivenciar. Mas, na maioria das vezes, isso vem de pessoas que não conseguiram ser alguém na vida. Elas se sentem incomodadas ao verem o negro, o gordo ou o pobre conquistando alguma coisa. Querem atacar de alguma forma, até mesmo para terem um minuto de fama. Mas tenho fé e acredito que um dia isso vai acabar!

DpF: Como está sendo sua trajetória no Al-Hilal? Você tem planos de permanecer no clube por mais tempo ou visa um retorno ao Brasil em breve?

Digão: A experiência está sendo fantástica. Em janeiro, vou completar dois anos aqui e espero permanecer por mais tempo. Já tenho 27 anos, sei que a carreira é curta, por isso pretendo ficar quietinho na Arábia. Minha família está bem adaptada e feliz. E isso, com certeza, influencia minhas decisões.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 25 anos.

Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo e na Revista Relvado.