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Angers e Caen: as boas novas da Ligue 1

Só há uma chance de o Paris Saint-Germain perder o título da temporada 2015/2016 do Campeonato Francês: um novo Big Bang acontecer e o mundo começar do zero. Ao término da 17ª rodada, a distância do time parisiense para o vice-líder já é de 15 pontos. Mas essa gritante diferença antes mesmo da metade do torneio não significa que não tenhamos coisas interessantes na competição.

Entre os destaques dessa metade do torneio não estão times badalados como Lyon, Monaco e Olympique de Marseille, mas, sim, equipes modestas como Angers e Caen. Os dois times ocupam, respectivamente, a segunda e a terceira colocação. Desde a nona rodada, ambos se encontram entre os cinco primeiros colocados da competição.

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Foto: L'Equipe

Foto: L’Equipe

O desempenho mais surpreendente é, sem dúvidas, do Angers. Com quase 100 anos de existência, o time do oeste francês não disputava a primeira divisão francesa desde a temporada 1993/1994. Neste hiato superior a duas décadas, o SCO ficou boa parte do tempo na segunda divisão, passou alguns curtos períodos na terceirona e chegou ainda a viver no amadorismo. Hoje, tem 30 pontos em 17 jogos na Ligue 1 – 58,8% de aproveitamento.

Apesar de um ataque pouco produtivo – apenas 16 gols marcados – a equipe comandada por Stéphane Moulin tem na defesa o ponto forte. Foram apenas nove gols sofridos até agora, segunda defesa menos vazada, atrás apenas do PSG. Foram 11 jogos sem sofrer gols no torneio. Esta característica é trazida da temporada anterior na segunda divisão, onde teve a terceira melhor defesa, com 30 gols sofridos e 19 jogos sem ver sua rede ser balançada. Daquele time, a base defensiva foi mantida, caso do experiente goleiro Ludovic Butelle (com passagem pelo Valencia) e dos zagueiros Kalifa Traoré e Romain Thomas.

Uma das jogadas mais fortes da equipe é a bola parada. Dados do WhoScored apontam que nove gols foram oriundos de jogadas assim, incluindo os da última vitória – 2×0 sobre o Lyon, no Gerland.

O ponto baixo da campanha do Angers é o alto número de empates: seis até o momento. Claro que alguns são compreensíveis, como os 0x0 com o PSG, na 16ª rodada, e com o Caen, fora de casa, na 14ª, mas alguns jogos poderiam ter sido convertidos em vitórias, caso dos 0x0 com o Nantes, na 2ª rodada, com o Stade de Reims, na 7ª, e com o Guingamp, na 11ª, todas as vezes em casa.

Apesar da solidez defensiva, estes resultados acabam colocando em destaque a fragilidade ofensiva da equipe e dando a entender que esta participação na parte de cima da tabela é momentânea.

Da lanterna à glória

Foto: SM Caen

Foto: SM Caen

O Caen tinha tudo para começar esta temporada na segunda divisão. O time da Normandia terminou 2014 na lanterna do Campeonato Francês, com apenas 15 pontos em todo o primeiro turno. Na parte final do torneio, porém, a equipe cresceu de rendimento, fez mais que o dobro de pontos – 32 ao todo –, teve a quinta melhor campanha do segundo turno e encerrou o campeonato na honrosa 13ª colocação, com 46 pontos, longe de qualquer chance de rebaixamento.

Importante citar: em nenhum momento o Caen mexeu na sua comissão técnica. Patrick Garande, que está desde 2012 no clube, continuou no comando da equipe e foi um dos grandes condutores da reação na temporada passada. Hoje, ocupam a terceira colocação, com 29 pontos.

Continuidade: talvez seja essa a palavra-chave para descrever este momento do time vermelho e azul. Para esta temporada, foram feitas mudanças pontuais no elenco, mas com a base do ano anterior mantida. Um dos destaques da equipe, aliás, o zagueiro Damien da Silva, já está na sua segunda temporada pelo clube. O WhoScored o coloca na seleção do campeonato até o momento.

Foto: SM Caen

Foto: SM Caen

Mas o grande nome do momento do Caen está no lado oposto do campo e atende pelo nome de Andy Delort. O centroavante de 24 anos é o artilheiro da equipe com seis gols e vem provocando comparações a André-Pierre Gignac. E, convenhamos, eles possuem estilos parecidos. Mais jovem, Delort, assim como Gignac, tem potente chute de pé direito, boa finta de corpo e bastante inteligência dentro das quatro linhas.

O avante do Caen tem, segundo o WhoScored, a segunda maior média de chutes a gol por jogo (4,4), atrás apenas do sueco Zlatan Ibrahimovic, do PSG (4,8). Gignac, hoje no Tigres do México, teve a terceira melhor média da temporada passada, com 3,3.

Ainda nesta comparação, o Squawka aponta que Delort já finalizou 34 vezes na direção da meta nesta temporada, tendo ainda 21 chutes para fora e 19 bloqueados, tendo 62% de aproveitamento. Gignac teve aproveitamento de 52%.

Aí você pode dizer: “você está levando em conta dados de 17 jogos de um atleta comparados com os de uma temporada inteira de outro, é desigual”. Realmente, é verdade e faz sentido especialmente nos chutes a gol por jogo. Mas quero salientar que o mesmo Squawka aponta que o ex-atacante do Marseille acertou 56 finalizações no campeonato passado. Ou seja, Delort precisa acertar mais 22 chutes para igualar a marca. Se levar em conta que a média dele é de dois tiros certos por jogo, o atacante do Caen precisará de 11 jogos para ter os mesmos 56 chutes de acertos.

É cedo para cravar que Delort será, de fato, um centroavante de ponta ou que vai superar Gignac, mas que os números e o estilo de jogo semelhante chamam a atenção, isso é inegável.

Segunda metade

O desafio maior para Angers e Caen é o segundo turno. Não é muito incomum observarmos times de menor investimento dando o ar da graça na parte de cima da tabela do Campeonato Francês no primeiro turno. Incomum é vê-los mantendo este pique.

A pausa de inverno (verão para nós) é cruel para estes times. Surgem sondagens de alguns clubes e fica difícil segurar todos os principais jogadores. Além do mais, à medida em que os jogos vão passando, as fragilidades do plantel se alastram em função de suspensões e contusões. O melhor agora é manter os pés firmes no chão. O máximo de pontos que um time rebaixado somou na última temporada foi 37. Angers e Caen estão quase ultrapassando esta marca e é nisso que devem focar para os próximos jogos.

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Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.