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O desserviço de Benfica e Porto ao futebol português

Se não bastassem as sempre acirradas disputas dentro de campo entre os dois maiores clubes do futebol português, o noticiário fora das quatro linhas também deu um tempero a mais a essa rivalidade nas últimas semanas. No dia 10 de dezembro, o Benfica surpreendeu assinando um contrato multimilionário com a NOS, operadora de TV por assinatura portuguesa, no qual a empresa pagará cerca de 400 milhões de euros para o clube em dez anos. O acordo envolve os direitos de transmissão dos jogos dos Encarnados e de veiculação da BTV (ex-Benfica TV), emissora pertencente ao atual campeão nacional.

Entretanto, o atual líder do campeonato não ficou atrás. Duas semanas depois, no último dia 23, anunciou um contrato com a MEO – concorrente da NOS – por 457,5 milhões de euros, também por dez anos. Nesse caso, o acordo envolve, além da transmissão dos jogos dos Dragões, a veiculação do Porto Canal (emissora do clube), patrocínio master na camisa e o direito de explorar as placas de publicidade do Estádio do Dragão.

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A primeira dúvida que se viu entre torcedores e imprensa foi sobre quem sai ganhando nessa disputa. A princípio, o acordo benfiquista parece financeiramente mais vantajoso, pois apesar de receber um valor menor, poderá negociar valores de patrocínio e publicidade separadamente, provavelmente superando a diferença recebida em relação ao rival. Porém, a discussão vai muito além da rivalidade.

Com os acordos assinados, Benfica e Porto mostram que não estão nem aí para o futebol português e o desenvolvimento da liga nacional. Se antes a diferença de receitas televisivas entre eles e o restante já era enorme, agora ela fica assombrosa. Para se ter uma ideia, os clubes menores da primeira divisão do futebol lusitano recebem, em média, de dois a cinco milhões de euros anuais.

Foto: FC Porto/Oficial - O acordo portista envolve anúncio na camisa, ainda sem patrocinador em 2015/16

No meio desse caminho, por enquanto, fica o Sporting, que ainda segue com o contrato antigo, pelo qual recebe aproximadamente 20 milhões de euros por temporada. O fato de os dois rivais terem assinado um novo acordo pode motivar os Leões a fazerem o mesmo e a também elevarem suas receitas com as cotas de TV caso não queira ficar para trás e tornar mais difícil sua recuperação dentro do cenário nacional.

O fato é que, de qualquer forma, quem perde com tudo isso é o futebol português. Enquanto Benfica e Porto receberão um belo montante todos os anos, as equipes menores continuarão com os mesmos problemas financeiros de sempre, sofrendo para manter seus salários em dia e montarem elencos minimamente competitivos – além de, é claro, inviabilizar qualquer tipo de equilíbrio nas competições internas. Casos como o Braga de 2009 a 2012 (para não falar do Boavista campeão em 2001) ficarão ainda mais raros.

Além disso, Águias e Dragões também poderão “sofrer” com uma liga pouco atrativa para jogadores do exterior. Se o Campeonato Português hoje já não serve de parâmetro para medir o nível de seus times para as competições europeias, servirá menos ainda com tamanho abismo.

O Campeonato Português fica cada vez mais distante de um modelo justo de distribuição das cotas televisivas, como o da Premier League e o da Bundesliga. E promete ficar cada vez mais previsível e menos interessante.

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Estudante de Jornalismo e redator no Placar UOL Esporte, belo-horizontino, apaixonado por esportes e Doente por Futebol. Chega ao ponto de assistir a jogos dos campeonatos mais diversos e até de partidas bem antigas, de décadas atrás.