DOENTES POR FUTEBOL

O mais alemão de todos os alemães

O Bayern não ganhava a Liga dos Campeões há mais de dez anos. O resto da Bundesliga, há mais de 15. Por último, a grande mancha: a Alemanha não vencia a Copa do Mundo há 24 anos. No fundo, a sensação dos alemães era de impotência e que faziam parte da pré-história. Portanto, não haviam mais dúvidas: na primeira oportunidade que tivessem, seria o momento de iniciar a revolução. E ela veio, graças a pessoas como Jürgen Klinsmann. Modernizar era necessário e perigoso. Poderia colocar em risco a competitividade da liga nacional. A Seleção Alemã era a segunda mais premiada do mundo e liderava a parte ocidental da Europa. Prescindir de suas virtudes era perder argumentos. O processo terminou e sabemos como sucedeu. A proposta do texto é analisar por que Thomas Müller o fez possível.

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ODD Shark

Müller nasceu em 13 de setembro de 1989, em Weilheim-Schongau, distrito da Alemanha na região administrativa de Oberbayern, estado da Baviera. Isso segundo os documentos oficiais, porque o futebol o desmente com segurança: Müller nasceu e viveu antes de 1989. Veio do passado, e essa informação pode ser comprovada inclusive sem vê-lo tocar em uma bola. Hoje, um jogador é uma pessoa sem “direito” de dizer o que pensa. Só é permitido três frases: “daremos tudo pela torcida”, “não há adversário fácil”, “sou o que sou graças a meus companheiros”. Falam assim desde a categoria juvenil porque são programados para discursar dessa maneira robotizada. Então aparece Thomas Müller, o cara que diz e faz o que pensa que é correto. Não pensa na consequência porque suas frases talvez não terão consequência. Tal qual os futebolistas da década de 60, 70 e 80, como os “futebolistas livres”. Thomas é Thomas até no momento mais midiático do esporte: a final da Copa do Mundo.

“Eu não ligo para essa merda. Nós somos campeões do mundo! Conseguimos o troféu! Você pode colocar a Chuteira de Ouro em outro lugar“, disparou a uma jornalista que o perguntou se ele estava triste por não receber o troféu que premia o artilheiro da Copa do Mundo.

O Bayern vencedor sempre foi um clube orgulhoso e até déspota em certo ponto. Beckenbauer e Gerd Müller partiam do argumento de que eles eram os melhores e nada mais importava. Tal coragem e autoestima permitiram o time competir até quando era inferior a um outro adversário. A rígida base de jogo do Gigante da Baviera sempre refletiu na Seleção. A confiança no histórico estilo mais físico era enorme. E quando os jogadores do velho Bayern olhavam para o ciclo de canteranos do século XXI, como Phillip Lahm, Holger Badstuber ou até mesmo Toni Kroos, não sentiam a alma do antigo ogro da Europa. São jogadores imprescindíveis para fazer funcionar os sistemas que pedem o futebol moderno. Mas que não conectavam com a história da entidade.

Por isso, esse Bayern só é o verdadeiro Bayern quando joga Thomas Müller e ele tem permissão para ser o líder.

Quando a equipe se parece mais com ele do que com qualquer outro jogador do onze inicial. Do contrário, ocorre algo bem raro. As últimas duas eliminações sofríveis na Liga dos Campeões, para Real Madrid e Barcelona, deixam isso evidente. Futebolisticamente, no que consiste uma equipe que se pareça com Müller? O estilo de Thomas é pragmático e austero, com esforço múltiplo, e que visa um único objetivo: a vitória.

De certo modo, isso gerou uma dúvida no começo. Este viajante do tempo aterrizou na Terra na era da geração germana-mestiça, o que o fez coincidir com Özil, Reus, Gundogan e Götze.

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Visualmente,Mesut, Marco, İlkay e Mario se destacavam mais. Os críticos perguntavam se Müller possuía as qualidades de seus companheiros. Porém, simultaneamente, ocorria algo tão curioso quanto maravilhoso, um paradoxo que responde a essa questão: não havia dúvida de ninguém que ele deveria ser titular. Tampouco de seus primeiros treinadores. Que o diga o sempre polêmico Louis van Gaal, responsável por lançar Thomas ao time A do Bayern.

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Para começar, há uma confusão que certamente é injusta com nosso protagonista: confundir habilidade com técnica. O fato de Müller não pedalar, dar caneta ou lençol em nada anula seu notável repertório técnico. Afinal, para que serve um pistoleiro que não abusa da pistola? Para apertar o gatilho na hora certa, você tem de ser frio, calculista e especial. Thomas sabe manejar a arma desse esporte e se descreve como “aproveitador de espaços”. Nós sentimos isso. Seus desmarques são sempre inteligentes, largos e fatais.

Müller se apresentou como uma estrela do movimento no verão de 2010, na Copa do Mundo da África do Sul. Ali, foi um dos protagonistas da seleção de Joaquin Löw, construída a partir de dois mecanismos: Bastian Schweinsteiger de volante e a sociedade Mesut Özil e Thomas Müller. A química entre os dois jovens foi tremenda. A dupla tornou-se extremamente carismática principalmente entre os brasileiros, que enxergavam naqueles meninos de 22 e 21 anos, respectivamente, suas promessas do momento, a dupla santista Neymar e Ganso. O país clamava e cobrava ao técnico Dunga mais talento jovem no elenco. O treinador não atendeu aos pedidos. Özil de enganche e Müller de extremo-direito cruzavam-se até três ou quatro vezes por jogada e brilhavam. A cada tabela entre dois, os brasileiros se perguntavam: o que seria da Canarinho com Ney e Ganso?

A diagonal do flanco até o centro do meia-atacante do Bayern foi o sistema da Alemanha do princípio até o fim do Mundial de 2010. Inglaterra e Argentina sofreram com um futebol primoroso.

A fluidez e a harmonia ofensiva do ataque daquele time encantaram. A Espanha a esperava na semifinal. “A final antecipada”, opinava a imprensa mundial à época. Por hierarquia e experiência, a seleção de Xavi, Iniesta e Casillas era favorita. Mas havia a sensação de que os alemães poderiam eliminá-los. Por dois motivos: o mata-mata do time de Löw era, até então, infinitamente superior aos comandados de Vicente Del Bosque, que sofreram contra Portugal e Paraguai; e o estilo de jogo germânico era o ideal para machucar a Roja. A Alemanha possuía o melhor contra-ataque do torneio.

Mas, dentro de campo, a Espanha resolveu ser a Espanha. Casillas estava preparado para encarar o ataque mais frenético, intenso e agressivo daquele mês de junho. No entanto, sua meta recebeu menos chutes a gol do que em qualquer outro jogo. Tudo bem que a Roja jogou uma partida adulta, de campeã, se impondo de maneira absoluta. Mas a verdade é que a Alemanha não foi a Alemanha. Na coletiva pós-jogo, Vicente Del Bosque foi claro ao explicar a fraca partida do adversário: a baixa de Müller, suspenso nas quartas de final devido ao acúmulo de cartões amarelos, foi muito sentida por seus companheiros e pelo sistema alemão.

O movimento de Thomas ganhava partidas até de maneira indireta, como foi na final da Liga dos Campeões da UEFA de 2013. O Bayern entrou em campo naquele dia 25 de maio disposto a acabar com um pesadelo recente: triunfar contra o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp. Os Aurinegros vinham de dois anos ganhando a Bundesliga e afirmando uma superioridade contra o Bayern nos confrontos diretos. Klopp havia desenhado um esquema quase que intransponível para batalhar contra Robben e Ribery. Até aquele dia. Depois de um início de personalidade de Gundogan, Reus e Lewandosvki, Müller ameaçou duas vezes e recolocou seu time no jogo. Nas duas vezes, dois desmarques rotineiros.

O primeiro, desde sua posição de segundo atacante, um pequeno recuo em diagonal até à direita para receber entre Lahm e Robben. Um movimento simples, mas carregado de veneno. Lahm se posicionava quase como um extremo e Müller conduzia a bola, até que o lateral saltou uma linha e deixou Robben sozinho. E deixar Robben só é uma ameaça real de gol. Por causa disso, Hummels foi obrigado a sair de sua posição e ir até ao holandês. Tal deslocamento forçado do zagueiro permitia ao Bayern ter espaços no centro da defesa do Borussia. Na segunda vez, um desmarque mais comum, desde a direita até o centro, como na Alemanha de 2010. Essas duas oportunidades quebraram a confiança do Borussia Dortmund, principalmente no aspecto psicológico: Klopp e seus guerreiros sabiam que o cenário de superioridade não existia mais. Xeque mate.

A impressão era de que essas jogadas iriam fabricar ao menos um gol do Bayern. Mas não foi assim. O tento decisivo chegou de outra maneira, via ligação direta de Boateng até Ribery. Müller rompeu em velocidade à meia lua, o que obrigou Subotic a abandonar seu setor e persegui-lo. Desorganizada, a primeira linha defensiva do Dortmund deixou Robben se infiltrar em sua área. Aberto o caminho, o holandês não desperdiçou a chance e marcou o gol do título.

Sem o desmarque de Thomas, o careca muito provavelmente não entraria na história naquela noite (não naquele momento), porque Subotić teria melhores condições de detê-lo. São esses pequenos detalhes que aumentam mais ainda a grandeza de Müller, apesarem de passarem despercebidos com frequência.

E o que dizer de seus gols, sempre em contextos de muita emoção?

Os dois contra a Inglaterra, logo após o “gol fantasma” de Lampard; o primeiro contra a Argentina, no último dia de Maradona no comando técnico da Albiceleste; a cabeçada contra Cech na final de 2012, contra o Chelsea, antes de Drogba empatar e dar vida aos ingleses. Ou o hat-trick em duas noites contra o Barcelona de Busquets, Xavi e Iniesta, que sentenciou a queda do tiki-taka catalão como estilo de jogo perfeito. Müller já era decisivo. Estava pronto para dar um salto lendário. Viajou ao Brasil em 2014 com uma ideia em mente: ganhar a Copa do Mundo.

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A Alemanha ficou encarregada de se classificar em um grupo duríssimo, com Portugal de Cristiano Ronaldo, os promissores Estados Unidos e a sempre complicada Gana. Mas a dificuldade se dissipou logo de cara, na estreia, contra o Bola de Ouro da FIFA. Müller marcou três gols.

Não celebrou efusivamente nenhum deles. Limitou-se somente a erguer os punhos, como se fosse um Rei. Dava medo. De início, Löw encarregou Thomas de ser o falso nove do seu 4-3-3. Desistiu a partir das oitavas de final, contra a Argélia. Até o gol de Schürrle na prorrogação, a Nationalelf sofreu com os africanos. Veio a França, que voltou para a casa depois de um cabeceio de Hummels. A semifinal seria um dos episódios mais icônicos da história do esporte.

Sessenta e quatro anos depois do Maracanazo, o povo mais importante do futebol queria vingança. O Brasil morria por tentar ganhar a Copa do Mundo. Mas não tinha armas suficientes, o que foi ratificado no primeiro dia. Assim, teve que utilizar seu coração para ser escudo e espada. Esforço muito forte para um país acostumado sempre com o talento e a técnica. Aquilo não era o Brasil. Müller demorou dez minutos para abrir o placar no Mineirão e converter Belo Horizonte em um vulcão que, de loucura, entrou erupção e sepultou a região por completo. A Alemanha venceu por 7 a 1 e converteu em lenda aquele, 8 de julho de 2014, uma terça-feira.

A Alemanha alcançou a final para enfrentar a Argentina de Lionel Messi, em jogo resolvido por Mario Götze. Até o momento, Müller esteve presente, manipulando o tempo de acordo com sua vontade. Quando Schürrle carrega a bola pela esquerda, Müller caminhava lentamente para trás. Inocentemente, Demichelis o perseguia e deixava Götze entrar na área, ato não acompanhado por Garay.

Sem querer, Müller liberou o caminho para o tetra. Aquele “voleio” de Götze deu a glória à Alemanha e a Joaquin Löw, o homem que mais confiou na figura de Thomas. Que sempre o viu como a grande estrela, não como um complemento.

Müller só perdeu sua condição de divino quando passou a conviver com outra divindade: Josep Guardiola. Em todo esse texto, falamos muito de movimentos, espaços e desmarques. Pep era uma ameaça à continuidade disso. Trata-se de um treinador radicalmente fiel à sua filosofia, cuja base tática contrastava com as virtudes do protagonista em questão. Guardiola é um maestro que nenhuma outra pessoa pode ensinar nada. Todavia, o futebol é um aprendizado dia após dia. Em Munique, o catalão tentou aplicar seus ideais sem se “interessar” pelo perfil de seu novo plantel. A falta de competitividade real no dia a dia, na Bundesliga, confundiu o trabalho de Pep. Ele detectava os problemas, claro, mas não soube calibrá-los na medida do possível. Até que um adversário de elite expôs todos os seus defeitos sem margem para reação.

A eliminação pelo Real Madrid, na semifinal da Champions de 2013/2014, foi esclarecedora e gerou um ponto de inflexão. Um jogador faz o que lhe pede quando se pede o que tem. O contrário não funciona. Se deixa de funcionar, entra em colapso, e a relação de Müller com Guardiola era exemplo. O espanhol testou seu pupilo de centroavante, segundo atacante, ponta direita, camisa 10 e inclusive interior. Müller queria se mover, mas estava enclausurado em um sistema que o pedia para ficar quieto. Em Guardiola, sobra conhecimento e inteligência. Não obstante, aos poucos, o Mister foi se adaptando às necessidades. Hoje, é mais visível identificar uma “germanização” em seu sistema e estilo.

Naquela primeira temporada, o Bayern se vestiu de Barcelona no ponto de vista estético. Muito passe curto, ritmo baixo às vezes, jogo interior comandando por um volante (Toni Kroos), mas pouca técnica para aplicar o estilo com precisão. Na segunda campanha, o professor começou a dar espaços às mudanças. Müller já era titular, mas ainda não podia ser ele, já que estava preso por pendências sistemáticas. Somente nesta terceira temporada que a união Bayern de Guardiola e Bayern de Müller pôde ser vista. E, finalmente, o Predador de três anos atrás parece estar de volta. Com um adendo: Thomas Müller está voando.

O atual Bayern de Munique mescla os princípios do futebol catalão-barcelonista com o do alemão. Pratica o jogo de posição para se posicionar em campo contrário, com uma destacável ordem do típico Barcelona, e logo ataca com uma agressividade característica do Bayern. Há muitos cruzamentos, jogo exterior, ritmo alto, chegada desde trás e paixão. Um jogo que conecta verdadeiramente com a Allianz Arena e com Müller, um futebolista anacrônico.

Thomas não nasceu para nos convencer, mas convenceu. Por quê? Porque, à sua maneira, joga um futebol de cinema. Müller é Müller porque derruba qualquer barreira de qualquer percusso que aparece pela frente. É alemão de corpo e alma, na rua, no Olimpo e na Alemanha que passou por uma revolução sem esquecer do que já fora. Atua como se fosse no Bayern dos anos 70 e conquistou fãs no século XXI.

Quando vemos aquele número 25 de Munique jogar, estamos diante do mais alemão de todos os alemães: Thomas Müller.

O conteúdo acima é de responsabilidade expressa de seu autor. O Doentes por Futebol respeita todas as opiniões discordantes e tem por missão promover o debate saudável entre ideias.

Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.