Relato de uma paixão

  • por Alexandre Reis
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A atmosfera de um (pré) jogo do São Bento no estádio Maria Pena

Chuva pela manhã, trégua à tarde e à noite. Seria outro 28 de novembro, como qualquer outro na história, de Itapecerica, cidade do centro-oeste de Minas Gerais, se a centelha divina que rege o mistério do futebol não me levasse a viver e escutar boas histórias. Comecei o dia, um sábado, decidido que presentearia Dona Dica e Dona Dalva, torcedoras-símbolo do São Bento Esporte Clube, um dos times de Itapecerica, com uma fotografia, feita por mim. O registro, impresso de modo simples em uma folha comum, era mais do que suficiente para eternizar anos e anos de devoção e entrega desta dupla que tanto encanta o futebol amador itapecericano. Juntas, acompanham o time desde que entendem por gente.

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Fotografia de Dona Dica e Dona Dalva, torcedoras-símbolo do São Bento Esporte Clube

 

Não haveria mãos melhores que fizessem a foto chegar a ambas a não ser pelas do filho de Dona Dalva, Jonas, técnico da equipe titular do São Bento. Procurei-o à tarde. Não o encontrei. Tentei por três vezes, sem sucesso. Na quarta, descobri que estava no Estádio Maria Pena, cuidando do gramado para o jogo do dia seguinte, domingo, entre São Bento e Lamounier, válido pela semifinal do campeonato da cidade. No jogo de ida, o alviverde da Barra, o Lamounier, havia levado a melhor sobre o Leão da Colina, por 2×1.

Eram 19 horas quando passei pelos portões parcialmente abertos do velho Maria Pena. O sol já estava sem forças. Jonas e seu ajudante, Cesário, não. Entro em campo com a foto dentro de um envelope e me dirijo a ambos. Um, de botinas, conduzia o cortador de grama. O outro, de chinelos, carregava a fiação. Papo vai, papo vem, entrego o retrato. “Está aqui, um presente para sua mãe. Uma foto de Dona Dica e Dona Dalva, inseparáveis na vida e, agora, na fotografia”.

Recebi de Jonas um “Que coisa linda!” que poucas pessoas no mundo conseguiriam dizer. Palavras de alguém que, pela manhã, acabara de cumprir seu difícil trabalho como pedreiro. De alguém que foi capaz de trocar o almoço e o zelo para com os filhos pelo cuidado do campo. O tão sagrado almoço de um pai de família trabalhador, humilde e exausto de tanto serviço. A tão fundamental atenção às crias.

O filho de Jonas, Isac, levou a foto embora. Depois, foram duas horas de conversa. Uma aula sobre como amar um time de futebol. Prática e teórica. Cesário, ponta-esquerda do passado, fazia o mesmo. Segurava a fiação com uma mão e, com a outra, me explicava o porquê de ainda ajudar o São Bento a troco de um reconhecimento mais insignificante do que o pedaço de grama cortado. Jonas se debruçava no cortador de grama com a mesma vontade para contar sua vida de acordo com a grata interferência do futebol.

Do meio-dia às 21 horas de sábado, Jonas e Cesário só arredaram o pé do gramado para irem embora. Mais ou menos. Casos e causos contados, e outros bons metros de grama podados, o sereno da noite forçava a nos retirar. Cesário ficou. Decidiu dormir no bar do estádio, a ponto de ir em casa para buscar o colchão e o travesseiro. Não bastou ter trabalhado o dia todo gratuitamente, no anonimato. Precisou abrir mão de uma noite da vida a fim de garantir, sozinho, a segurança das cervejas, dos refrigerantes e das ótimas condições que o campo, ao fim do dia, se encontrava.

Despedimo-nos com o trato de acordar no domingo pela manhã, às 9 horas, para que a marcação do gramado com a cal fosse feita. Sim, me prestei a ajudar. Afinal, era véspera de jogo. Cesário, então, ficou no bar. Jonas, sua esposa, seu filho e eu, como se fôssemos os únicos humanos acordados no mundo, saímos. E o dia terminou. A torcida ficou em casa, não aplaudiu. Também não vaiou. Afinal, o que é desconhecido continua não sendo reconhecido. Mas ela, a torcida, sabe o que fazer quando a pelota rolar. O problema, no entanto, será grande se um dia, quando Jonas e Cesário se forem para sempre, a bola não rolar.

Floresce o domingo e, com ele, uma paixão pelo futebol que, dia após dia, só aumenta. E não havia como crescer mais. Como combinado, nos encontramos no Maria Pena para que fosse feita a marcação do campo com a cal. Cesário já estava nos esperando. Imaginei que não havia tomado um café da manhã, então tratei de levar em uma sacola o que tinha em casa: seis pães-de-queijo. Troquei-os por um “muito obrigado”, seguido de um “bom dia”, e rumamos ao trabalho. Antes do meio-dia, tudo já estava pronto para o tão comentado confronto, assunto corriqueiro em qualquer mesa de boteco de Itapecerica.

Cesário e Jonas preparando o gramado para a tarde de domingo

Cesário e Jonas preparando o gramado para a tarde de domingo

 

Antes de ir embora, Jonas me pediu que fizesse um vídeo motivacional, para que fosse exibido no vestiário minutos antes do jogo. Gravei depoimentos de torcedores, juntei imagens e o fiz. Quando o acabei, o relógio marcava 16 horas e o Maria Pena, completamente lotado, pulsava fanatismo. De mochila, com notebook, caixas de som e tudo, corri para a cancha. Mais prazeroso do que ter feito o vídeo foi ganhar o reconhecimento de pessoas que, aos trancos e barrancos, fizeram com que o São Bento entrasse no campeonato. Com orçamento bem inferior aos rivais União e Lamounier, o Leão da Colina escalou jovens do time aspirante e contou com a boa vontade de outros tantos jogadores para manter, sem ganhar um real, um amor quase centenário.

Ao fim da exibição, não havia jogador ou membro da comissão técnica que não se encontrasse nas lágrimas. Aplaudiram durante alguns segundos e reuniram-se no meio do vestiário, como de praxe, para a reza do Pai Nosso e da Ave Maria. Sempre em honra a São Bento, a Nossa Senhora Aparecida e a Nossa Senhora do Rosário (padroeira do bairro), buscaram forças para derrotar o Lamounier que tanto o suplantara nos últimos anos. Em 2013 e 2014, o São Bento foi vice-campeão do certame municipal ante o Verdão da Barra.

Um por todos, todos por um - grito de guerra alvirrubro

Um por todos, todos por um – grito de guerra alvirrubro

 

Feita a oração, entoado o grito de guerra, o alvirrubro adentrou ao campo. Ao contrário do ritual de outros jogos, dessa vez entraram todos de mãos dadas, de modo que gesticulassem juntos um abraço à torcida vermelha e branca. É como se Cesário e Jonas, em um misto de humildade e orgulho, saíssem no meio da multidão para abraçar e agradecer a cada torcedor pela presença. Já não bastasse tudo, o pai do autor deste texto fora escolhido para dar o chute inicial antes da partida.

Jogadores de mãos dadas rumo à torcida

Jogadores de mãos dadas rumo à torcida

 

Começa o jogo, termina o sonho da classificação para a final. Logo no início, o volante Zé Lucas, de 16 anos, foi expulso sem levar cartão amarelo. Entrara em André, lateral do Lamounier, com força desproporcional. Saiu de campo chorando, inconsolável. Nunca havia jogado diante de tanta pressão. Retirou-se para a torcida, colocou-se ao meu lado no alambrado, do lado de fora, e observou o passeio verde e branco sendo construído aos poucos.

Quis o destino que o São Bento jogasse todo o segundo tempo com 10 em campo, a exemplo do primeiro jogo da semifinal, o de duas semanas antes, no estádio José Sabino Filho, casa do Lamounier. Antes do fim do primeiro tempo, o volante Charles já abrira o marcador para os visitantes, após finalização dentro da área. No início da etapa final, Paraíba e Gabriel marcaram os outros dois tentos e decretaram o fim de mais um ano vermelho e branco. Mas não o término de uma identidade que só deixará de existir quando o último grão de terra do chão desaparecer. O 4 de dezembro de 2015, na semana passada, foi prova disso: é data em que o São Bento Esporte Clube completou 97 anos de glórias e muitos Jonas e Cesários ao longo de sua imensa história.

Elenco do São Bento - 2015 Em pé, da esq. p/ dir.: Jáder, Haroldo, Jonathan, Diego, Zé Lucas, Samuel, Quico, David, Danilo, Marquinhos, Jonas (técnico), Rodolfo e Rodrigues. Agachados: Caio, Daniel, Juninho, Elvis, Vitinho, Canela (blusa preta), Gabriel, Wallace, Otávio, João Paulo e Mantena.

Elenco do São Bento – 2015 Em pé, da esq. p/ dir.: Jáder, Haroldo, Jonathan, Diego, Zé Lucas, Samuel, Quico, David, Danilo, Marquinhos, Jonas (técnico), Rodolfo e Rodrigues. Agachados: Caio, Daniel, Juninho, Elvis, Vitinho, Canela (blusa preta), Gabriel, Wallace, Otávio, João Paulo e Mantena.

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Estudante de Jornalismo, apaixonado por futebol. Seja a final da Copa do Mundo, as semifinais de uma Copa Rural, um jogo da Liga dos Campeões ou eliminatória da 4° divisão de algum campeonato amador do interior.

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