DOENTES POR FUTEBOL

A Seleção das possibilidades

(Por Luis Felipe Zaguini)

Você sabia que Gonzalo Higuaín poderia não ter jogado pela seleção Argentina?

Que o Marrocos poderia ter Marouane Fellaini em seu elenco. Que Zinedine Zidane poderia ter jogado pela seleção Argelina e que Yacine Brahimi poderia ter representado a seleção da França?

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Quais são os critérios?

Eles são simples. Os jogadores que nasceram num país, mas jogam por outro, no qual cresceram e se desenvolveram como futebolistas, estão inclusos na lista. Além disso, os atletas que têm pais de outras nacionalidades e, por isso, possuem duas – ou mais – cidadanias, também estão disponíveis como critério para hipotética troca de nacionalidade.

Os curiosos casos de Kevin Kurányi e Adnan Januzaj

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Nascido no Rio de Janeiro, filho de um alemão e de uma panamenha, Kurányi obteve tripla nacionalidade. Poderia ter representado tanto a Seleção do Panamá quanto a do Brasil, mas escolheu jogar pela Seleção Alemã. Certamente, feita outra escolha, seria um dos pilares da Seleção do Panamá e faria dupla de ataque com Luis Tejada, ícone panamenho.

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Januzaj tem situação parecida. O “belga” nasceu em Bruxelas, mas tem uma família mestiça de origem kosovar-albanesa e também poderia ter optado pela Seleção Turca, em razão da deportação de sua mãe para a Turquia. Ademais, em razão do período em que residiu na Inglaterra, passado mais um tempo de vivência no país, Januzaj poderia pleitear defender o English Team.

Entenda a situação jurídica da(s) nacionalidade(s) do Januzaj

Gareth Bale representando a Inglaterra?

Nascido no País de Gales e com pais galeses, Bale não pode ser considerado exatamente uma opção para o English Team.

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O jogador morou de 1999 a 2013 na Inglaterra, e inclusive tem dupla-cidadania, obtida em 2005. Apesar disso, por ter atuado nos níveis juniores do País de Gales e atuar desde 2006 pelo time principal, está impedido de atuar pela seleção dirigida por Roy Hodgson.

Não obstante, a ideia fica na imaginação. Como seria o time inglês caso Bale resolvesse atuar por ele? Teríamos Sterling de um lado, Bale de outro e, atualmente, Vardy como camisa 9?

Como sabemos, a história não rumou por esse caminho. Sorte dos galeses, que pela primeira vez na história jogarão uma Eurocopa e têm chances reais de se qualificarem para a Copa do Mundo de 2018.

Radja Nainggolan na remota Seleção da Indonésia

Filho de uma belga e um indonésio, Nainggolan tem dupla-cidadania e poderia ter atuado pela Seleção da Indonésia assim que adentrou ao futebol profissional. Dificilmente o jogador aceitaria a convocação, tanto que passou por todos os níveis juniores possíveis até chegar à Seleção Principal Belga e se firmar, defendendo-a desde 2009.

Mas… e se ele cogitasse?

Com certeza seria a estrela do time, substituindo qualquer jogador da mesma posição. A Seleção da Indonésia nunca conseguiu um resultado expressivo contra seleções europeias ou sul-americanas, com exceção da Ucrânia, que é “freguesa”, com quatro vitórias dos indonésios e apenas um empate. É curioso o caso. Se Nainggolan tivesse optado pela Indonésia, poderia alavancar uma grande evolução para o futebol do país.

A Seleção Suiça poderia ter mais um grande nome no elenco

Suíço de nascimento, Ivan Rakitić é um grande nome no futebol mundial. Ex-jogador do Sevilla e atual meio-campista do vencedor da Champions League, Barcelona, o jogador tornou-se um dos pilares do time de Luís Enrique. Por que ele joga pela seleção croata? Ascendência é a resposta. Embora tenha nascido e crescido em Möhlin, na Suíça, é filho de croatas.

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Obviamente a opção é do jogador e ele joga por qual seleção quiser, mas, ao menos para o amante do futebol, seria interessante uma Seleção Suíça com Gokham Inler, Granit Xhaka, Valon Behrami e Rakitić dando consistência à defesa e auxiliando no ataque, criado por jogadores como Xherdan Shaqiri, Valentin Stocker e Pajtim Kasami.

Ótimas seleções emergiriam

Além dos casos acima, algumas equipes nacionais poderiam ser mais fortes ou ter algum lampejo de qualidade acima do normal. São os casos do Kosovo (nação não reconhecida pela ONU), da República Democrática do Congo e da Bósnia, por exemplo. Além disso, pasmem, as seleções de Curaçao e Suriname poderiam ser competitivas em nível minimamente razoável.

“Ibrahimobósnia” e Herzegovina

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Sim. Ele mesmo. Zlatan Ibrahimovic é um dos jogadores que poderia representar a Seleção da Bósnia e Herzegovina. Seu pai é bósnio e sua mãe croata, o que daria a possibilidade de Ibrahimovic escolher qualquer uma das três (incluindo a Suécia, onde nasceu) seleções para jogar.

Além de Zlatan, Vedran Ćorluka, Dejan Lovren, Nikica Jelavić, Marko Marin, os goleiros Samir e Jasmin Handanovič poderiam fazer parte da mesma seleção, mas há figuras do outro lado da moeda também…

Asmir Begović, que nasceu na Bósnia e se mudou para o Canadá com 10 anos de idade, poderia jogar pela Seleção Canadense – e o fez, no escalão sub-20. O atual goleiro do Chelsea tem dupla cidadania e poderia fazer parte do elenco canadense, onde poderia ser acompanhado por Jonathan de Guzmán, que até nasceu no Canadá, mas escolheu representar a Seleção da Holanda.

O Kosovo daria um salto significativo

Imagine se Lorik Cana, Xherdan Shaqiri e Adnan Januzaj jogassem no mesmo time? Isso seria perfeitamente possível se os três pensassem da mesma maneira e escolhessem representar o Kosovo, país recém-independente.

Nós somos Kosovo!

Valon Behrami, atual jogador do Watford e da Seleção Suíça, também poderia atuar pelo Kosovo, país que atualmente contém em seu elenco jogadores como o goleiro Samir Ujkani, do Genoa, e Bersant Celina, jovem jogador – e grande promessa – do Manchester City.

Um trio daria o que falar em Marrocos

Dentre outros, a modesta Seleção Marroquina poderia ter contado com três ótimos jogadores, que dariam muito combustível para o time alcançar novos horizontes.

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Atualmente jogador da Seleção Belga, Marouane Fellaini poderia ter representado o país do Mar Mediterrâneo. Algumas das outras possibilidades são os jogadores Nacer Chadli, do Tottenham, e o meio-campista Mohamed Elyounoussi, promessa do Molde, da Noruega, que preferiu atuar pela seleção do país nórdico.

Esses três jogadores fariam toda a diferença e atuariam em conjunto com Hachim Mastour, promessa do Milan que preferiu a Seleção Marroquina à Italiana; Marouane Chamakh, ex-Arsenal; o zagueiro Mehdi Benatia, do Bayern; os meio-campistas Adel Taarabt, Sofiane Boufal, Younès Belhanda, Oussama Assaidi e os atacantes Abdessalam Benjelloun e Mounir el Hamdaoui.

A Argélia poderia ter ido mais longe

Se a atual seleção da Argélia já deu um grande trabalho na Copa do Mundo de 2014, imagina o que ela poderia fazer caso alguns jogadores, citando casos como Samir Nasri e Karim Benzema, atuassem pelo país africano ao invés de representarem pela França? A Seleção Argelina poderia contar com esses dois, Brahimi, Feghouli, Slimani, Ghoulam e…

Former French national team soccer player Zidane holds the Algerian flag during a friendly soccer match in Algeria

Zinédine Zidane. Você não leu errado. A lenda francesa tem ascendência argelina e poderia ter representado o país, mas preferiu – assim como vários outros jogadores – apoiar o país colonizador europeu. Imaginem o nível da Seleção Argelina caso Zizou jogasse lá? Seria coisa de outro mundo.

A Seleção Polaca teria um dos melhores ataques da sua história

Se hoje já é forte a Seleção Polonesa, com Robert Lewandowski e a promessa Arkadiusz Milik, imagina se Miroslav Klose, Piotr TrochowskiTim Borowski e Lukas Podolski escolhessem defender o país vizinho e não a Seleção Alemã?

Provavelmente os treinadores da Seleção da Polônia teriam que alterar para um sistema tático de dois atacantes e um armador de jogo, e isso seria complicado, porque haveriam nomes muito bons para a mesma posição. O curioso é que Klose, Trochowski e Podolski até nasceram na Polônia.

A Turquia seria muito mais forte

Com a grande migração de turcos para Alemanha e Suíça, o país que divide-se em dois continentes acaba perdendo alguns jogadores para estas nações. Por exemplo, os parceiros de Bayer Leverkusen Karim Bellarabi e Hakan Çalhanoğlu poderiam seguir juntos na Seleção Turca, mas Bellarabi preferiu a Alemã.

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Além deste, Mesut Özil, Gokhän Inler e İlkay Gündoğan poderiam parte do elenco do país transcontinental e Murat Yakin poderia ter sido zagueiro da Turquia, e não da Suíça. Arda Turan teria muito mais opções para trabalhar o jogo, e Burak Yilmaz faria muito mais gols — ou ao menos teria muito mais chances para fazê-los.

O Suriname teria uma Seleção muito interessante

Ex-colônia holandesa, o Suriname teria a possibilidade de ter uma seleção com nomes de peso, como Jimmy Floyd Hasselbaink, ídolo do Chelsea; o defensor da Lazio, Edson Braafheid; o lateral Dwight Tiendalli, também ex-jogador do Twente e do Swansea; o meio-campista do Feyenoord, Eljero Elia; o ótimo Romeo Castelen, ex-Feyenoord; além de… Clarence Seedorf, um dos maiores jogadores dos últimos anos, junto com o lendário Edgar Davids, que rodou a Europa nos maiores clubes do mundo.

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O Congo seria uma das melhores Seleções da atualidade

Sejamos sinceros: nenhum de nós põe fé na Seleção da República Democrática do Congo. Porém, o país africano sofreu com processos de colonização através do tempo, sendo o mais forte proveniente da Bélgica – com influência francesa. Não é de se assustar que vários jogadores da atual Seleção Belga sejam descendentes de africanos.

Caso as escolhas de alguns atletas tivessem sido diferentes, a RDC teria uma seleção com um ataque ótimo e uma defesa segura. Alguns nomes como Anthony Vanden Borre, Claude Makélélé, Romelu Lukaku, Michy Batshuayi, Christian Benteke, Steve Mandanda e o capitão belga Vincent Kompany liderariam a equipe.

Grandes seleções seriam quase imbatíveis

Se as seleções de alguns países já são extremamente fortes, alguns jogadores poderiam torná-las ainda mais impossíveis de lidar.

A França poderia ser facilmente a seleção mais temida do planeta atualmente.

A Seleção da França já dá medo em alguns e, apesar de ter apenas um troféu de Copa do Mundo, a equipe nacional botaria terror em qualquer um caso certos jogadores apoiassem a Federação Francesa de Futebol.

Os argelinos Sofiane Feghouli, Yacine Brahimi seriam apenas duas das caras novas. A equipe ainda poderia contar com a colaboração dos atacantes Gonzalo Higuaín, Demba Ba, André e Jordan Ayew, que trariam uma linha ofensiva muito interessante.

Em 2006, o técnico Raymond Domenech convocou o (então) jovem – e promissor – atacante do River para um amistoso contra a seleção grega. Gonzalo nasceu em Brest, em 1987, durante a passagem de seu pai pelo clube local.

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Porém, Higuaín recusou a convocação, para espanto de Domenech:

“Teria compreendido e respeitado a decisão de Gonzalo Higuaín se ele tivesse anunciado que queria jogar pela Argentina. Estou surpreso. Ele é francês e, como todo jogador, deve responder quando é convocado para a seleção, seja qual for seu clube.”

Dois anos depois,  o atacante seguiria sua vida defendendo a seleção olímpica da Argentina e o resto é história.

Além disso, a bola seria muito bem conduzida pelo franco-gabonês Pierre-Emerick Aubameyang, atual jogador do Borussia Dortmund, que também nasceu na França, mas tem ascendência gabonesa.

Entretanto, não só de ataque vive uma seleção e Serge Aurier e Mehdi Benatia com certeza garantiriam ainda mais consistência à retaguarda da Seleção Francesa.

A Seleção brasileira também poderia ter ótimos nomes a mais

A Canarinho é outra equipe que poderia ter mais opções de qualidade se não tivesse fechado seus olhos para algumas possibilidades. Jogadores como os ítalo-brasileiros Thiago Motta e Jorginho, os luso-brasileiros Deco e Pepe e os hispano-brasileiros Diego Costa e Thiago Alcântara provavelmente teriam espaço em qualquer equipe do mundo, mas falamos do Brasil…

Esses jogadores seriam ótimas opções na Seleção do Brasil, e certamente resolveriam alguns problemas de criatividade, finalização, e de consistência na defesa e no meio-campo. É uma pena que nossa Confederação não proporcione as melhores condições para segurar jogadores que não têm tanto apoio e nome no Brasil.

Uma nova seleção competitiva surgiria

É o caso do Curaçao, uma ilha caribenha na América do Norte. Outra ex-colônia holandesa, viu vários jogadores que lá nasceram tentarem a sorte na Holanda e se naturalizarem como jogadores do país europeu. O que aconteceria estes atletas não o fizessem?

Patrick Kluivert com certeza teria sido um nome lendário na Seleção. Apesar de a comandar hoje como técnico, seria impressionante ver um grande jogador como Kluivert deixar a Oranje de lado e apoiar a ilha caribenha.

Além de Kluivert, vários jogadores da atualidade – com algumas promessas – certamente dariam mais competitividade: Patrick van Aanholt, do Sunderland; Vurnon Anita, do Newcastle; Leandro Bacuna, do Aston Villa; Riechedly Bazoer, meio-campista do Ajax; Leroy Fer, do Queens Park Rangers; Hedwiges Maduro, ex-Ajax, Valência, Sevilla e PAOK, que joga atualmente pelo Groningen; Cuco Martina, lateral do Southampton; Ricardo van Rhijn, do Ajax; Gregory van der Wiel, lateral do Paris Saint-Germain; Jetro Willems, promessa do PSV e Richairo Živković, grande promessa do Ajax. A lista é extensa.

É inegável que vários fatores influenciam na escolha da seleção que certo jogador faz e não cabe a ninguém julgá-los. Alguns sequer pensam em servir outro país, mesmo diante da possibilidade. Afinal o que faz de um cidadão alguém identificado com determinada nação? Muitas são as razões possíveis.

A despeito disso, imaginar não é pecado e seria muito interessante se alguns desses exemplos pudesse se tornar realidade. Já pensou?

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