Hablando grego

Foto: OM.net

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Craque como jogador, nem tanto como técnico. Essa talvez seja a melhor definição para Míchel. Com praticamente cinco meses de comando no Olympique de Marseille, o espanhol está distante de encontrar a melhor formação e, para piorar, ainda vê a torcida do próprio time gritar por Marcelo El Loco Bielsa, seu antecessor que pediu demissão logo após a primeira rodada do Campeonato Francês.

É fato que Míchel chegou sob olhares desconfiados a Marseille. O espanhol, que ficou em quarto lugar no prêmio Bola de Ouro em 1987 e foi ídolo do Real Madrid por mais de uma década, não teve desempenho constante e de bom nível como treinador. Na Espanha, teve passagens fracassadas pelo Real Madrid Castilla (rebaixou o time para a terceira divisão) e Sevilla (onde ficou menos de um ano). Nos trabalhos mais duradouros que teve, evitou o rebaixamento do Getafe em 2008/2009 e levou o time ao sexto posto no Espanhol da temporada seguinte, além de ter sido bicampeão grego com o Olympiakos, em 2012/2013 e 2013/2014 – o que não é grande feito, se levarmos em conta que os vermelhos venceram o campeonato nacional 13 vezes neste século.

No OM, até o momento, apenas resultados que deixam o tradicional time francês longe de qualquer luta na parte de cima da tabela. Foram 28 jogos, contando todas as competições, com 12 vitórias, nove empates e sete derrotas, tendo o modesto desempenho de 53,5%. Essa performance mediana para os padrões do Marseille deixa a equipe na 11ª colocação no Campeonato Francês. Além disso, o time penou para avançar tanto na Copa da França, quanto na Liga Europa. Na Copa da Liga, caiu para o Toulouse, que estaria sendo rebaixado na Ligue 2.

O que preocupa ainda mais é o comportamento em casa. Por qualquer competição, a última vitória no Vélodrome foi em 26 de novembro, no 2×1 sobre o Groningen, pela Liga Europa. Mas no Campeonato Francês, a seca é muito maior. O último triunfo doméstico em casa foi em 13 de setembro, na goleada por 4×1 sobre o Bastia. Já são oito jogos sem vencer diante dos torcedores, números que deixam o OM com a quinta pior campanha em casa na Ligue 1, com míseras duas vitórias em 11 jogos.

Quem joga?

Foto: OM.net

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Ao chegar em Marseille, Míchel decidiu apostar no 4-3-3, tendo pelas extremas homens com capacidade de driblar por dentro e finalizar. A opção durou apenas o primeiro mês. Em seguida, partiu para o 4-2-3-1, esquema que vem adotando até este momento.

Porém, chama a atenção como o espanhol mexeu em quase todas as funções do time. Fazendo um uma análise de suas escalações, pode-se dizer que Míchel só têm quatro jogadores realmente intocáveis: o goleiro Mandanda, o zagueiro N’Koulou, o volante Lass Diarra e o atacante Michy Batshuayi. O restante do time não tem garantia de que jogará na partida seguinte.

O que poderia ser um bom sinal, de rodízio do elenco para tornar a equipe mais competitiva, tendo todos seus jogadores com bom ritmo de jogo e obtendo uma espinha dorsal, é apenas uma amostra de pura falta de convicção do espanhol. E o pior: é justamente no meio-campo, setor primordial de um time, que ele mais mexe. Lass já teve como companheiros na cabeça de área Lucas Silva, Zambo Anguissa, Romao e até mesmo o lateral Isla. Na linha de três meias ofensivos, Alessandrini, Cabella, Barrada, Ocampos e N’koudou rodam constantemente e ninguém se firma.

A bomba explode no belga Batshuayi, que sem a sombra de Gignac, vem despontando. É o artilheiro do time com 11 gols e deve ser o próximo do OM a ser mirado pela Premier League nos meses seguintes.

Outro setor do time em que o treinador espanhol vem mexendo muito é nas laterais. Manquillo vem sendo o titular na direita, mas já chegou a jogar no lado oposto, que, em contrapartida, vive intensa disputa entre De Ceglie e Mendy.

Mexidas prejudiciais

Um ponto chave e que demonstra a carência de ideias do Marseille de Míchel é o posicionamento dos wingers e dos laterais. Na saída de bola, os extremos abrem para as beiradas e os laterais adiantam. Ou seja, os volantes possuem escassas opções de jogo ofensivo. Ou saem driblando tresloucadamente até encontrar um homem próximo ou fazem uso da bola longa, opção que é mais corriqueira.

O print abaixo é do empate em 1×1 contra o Lyon e retrata bem como a equipe se distribuía em campo quando articulava uma saída de bola.

4-3-3 bem desenhado do OM, com um tripé no meio-campo e extremos rente a linha de lado

4-3-3 bem desenhado do OM, com um tripé no meio-campo e extremos rente a linha de lado

Neste mesmo jogo, um detalhe interessante quanto ao posicionamento sem a bola do OM: em vez do 4-1-4-1, que chegou a ser utilizado pelo espanhol nos primeiros jogos à frente da equipe francesa, o time se fechava com duas linhas de quatro – que não eram tão compactas quanto o ideal. Esse é o padrão do time quando está sem a bola.

Apesar do 4-3-3, o OM se fechava no 4-4-2. Neste momento, Barrada se desfixou da faixa central e se alinhou a Batshuayi. Cabella fechou o flanco esquerdo

Apesar do 4-3-3, o OM se fechava no 4-4-2. Neste momento, Barrada se desfixou da faixa central e se alinhou a Batshuayi. Cabella fechou o flanco esquerdo

Visto o pouco sucesso com o 4-3-3, Míchel passou a adotar o 4-2-3-1, tentando explorar ao máximo a movimentação do trio Remy Cabella, Romain Alessandrini e Abdelaziz Barrada. Porém, o que poderia uma opção interessante de deslocamento e de confusão de marcação, se tornou apenas mais uma fórmula para extinguir qualquer espécie de vida no meio-campo do Marseille. Os três se confundem nas próprias funções e desguarnecem a faixa central de criação, focando todo o jogo pelas pontas.

O retrato abaixo é da derrota por 1×0 diante do Nice. Observe bem como Alaixys Romao simplesmente não tem opções de jogo por perto. Onde está a trinca de meias? Escancarada nas pontas.

Note como Romao não possui opção de passe e, para piorar, vê o adversário em maioria

Note como Romao não possui opção de passe e, para piorar, vê o adversário em maioria

Alguns acertos (como pode ser visto abaixo), não podem mascarar as fragilidades de um time pessimamente distribuído em campo e que depende quase que exclusivamente de bolas longas e cruzamentos para Batshuayi.

Nessa jogada, acabou saindo o gol após cruzamento de Barrada para Batshuayi. Porém, esta era a única opção, já que Alessandrini e Cabella estavam no mesmo lugar e deixaram o meio vazio

Nessa jogada, acabou saindo o gol após cruzamento de Barrada para Batshuayi. Porém, esta era a única opção, já que Alessandrini e Cabella estavam no mesmo lugar e deixaram o meio vazio

Só mais um capítulo

Mas culpar Míchel por toda desgraça que está sendo a temporada do Marseille é injusto. O OM entrou em uma fase negra onde tudo vai dando errado. A começar pelas contratações. O argentino Lucas Ocampos, que estava por empréstimo no clube, foi contratado em definitivo por mais de 7 milhões de euros e não conseguiu fazer mais do que quatro gols e uma assistência em 23 jogos. Até mesmo Remy Cabella, que apresentava potencial para fazer sucesso no estádio Vélodrome, tem números discretos e carrega em sua conta três gols e duas assistências em 22 jogos.

O OM ainda trouxe alguns nomes que acrescentaram menos ainda, como o português Rolando, o chileno Maurício Isla e até mesmo o brasileiro Lucas Silva – que é cogitado a deixar o clube. As contratações somaram muito pouco a um elenco que perdeu nomes de peso, como Giannelli Imbula (transferido para o Porto), Florian Thauvin (Newcastle), Payet (West Ham), André Ayew (Swansea) e André-Pierre Gignac (Tigres).

É fato que o elenco foi mal montado, e isso se deve também a Marcelo Bielsa. O argentino que escolheu alguns dos jogadores contratados, principalmente por seguirem sua filosofia de jogo. Porém, ao largar o barco logo após a primeira rodada, ele atirou o pepino para a direção e para o próprio Míchel segurarem.

Honrando o apelido de “El Loco”, Bielsa foi extremamente irresponsável ao se despedir do Marseille logo após a primeira rodada. Apesar de a história nunca ter sido esclarecida de forma completa, é sabido por todos que a saída se deu por desencontros entre o técnico e a direção com relação à renovação de contrato de Bielsa. O argentino disse que o OM quis mudar o contrato e que não possuía confiança, enquanto a direção marselhesa alegava que o argentino fazia demandas demais e que colocava interesses pessoais acima do clube.

Que se acertassem os ponteiros ou que o ponto final da história fosse colocado antes. Trocar de técnico logo na rodada inicial é começar tudo do zero com algo mal-acabado e o campeonato já em curso. Míchel, por mais erros que venha cometendo, também é vítima disso tudo. Ele não montou esse time. Ele não estava no clube quando a espinha dorsal do time foi toda vendida. Ele simplesmente pegou um time em fase de construção, mas em estágio inicial. Míchel, na verdade, é um erro, como tem sido toda essa temporada do Marseille.

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.

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