O meio-campista Ibrahimovic

Vamos partir de uma suposição: Zlatan Ibrahimovic é uma figura desconhecida do futebol. Poucas pessoas o viram jogar e, portanto, ele não faz parte do principal escalão de jogadores do mundo. Dito isso, se sua figura fosse mesmo anônima, vê-lo jogar nesta temporada, no auge de seus 34 anos, muito mais lento do que outrora, é emocionante. É a constatação de que Ibra nasceu para jogar futebol. Por dentro de seu acrobático corpo, o talento transborda. Todas as suas ações são frias e inteligentemente calculadas.

Cabe deixar claro que Zlatan segue fazendo a mesma coisa desde que chegou ao PSG: marcando gols e vencendo partidas todo final de semana em âmbito doméstico. Mas há uma diferença primordial: taticamente, o camisa 10 influencia muito mais no modo de jogar de sua equipe. Desde sua passagem pela Itália, Ibra adquiriu essa peculiaridade de, mesmo sendo centroavante, participar do jogo com relativa frequência em zonas mais recuadas do campo. No entanto, no PSG 2015/2016, esse recuo não se trata somente de característica: faz parte do planejamento de Laurent Blanc.

Foto: Reprodução Youtube | O recuo de Ibra é total. Na imagem, o sueco se posiciona atrás do trivote de meio-campo do PSG

Foto: Reprodução Youtube | O recuo de Ibra é total. Na imagem, o sueco se posiciona atrás do trivote de meio-campo do PSG

Desde que o francês assumiu o comando técnico do clube de Paris, a equipe passou a ganhar um novo estilo de jogar. A serenidade da época de Ancelotti continua, mas a ordem e o controle são primordiais. O PSG impõe um ritmo baixo, lento, controlado por Tiago Motta (primeiro volante) e sobretudo Verratti (interior direito), que não se cansam de trocar passes em campo defensivo a fim de, mentalmente, enfraquecer o adversário e abrir espaços para os jogadores à frente. Nessas linhas de passes, sempre foi fundamental a presença de David Luiz e Thiago Silva, pois Blanc gosta de começar o jogo desde a primeira peça do seu tabuleiro.

Na atual temporada, Blanc ganhou mais um (e definitivo) trunfo para a construção: seu melhor jogador. Ibra continua partindo da posição de centroavante, mas não tarda a recuar e a se comportar como um “falso interior esquerdo”. O deslocamento de Matuidi, o original interior esquerdo, ao lado esquerdo, cumprindo funções de extremos (parecido com o Di María de Carlo Ancelotti em 2013/2014) sempre existiu, mas agora faz muito mais sentido. E quem ocupa o lugar de Ibra? Cavani. Até por isso, ter o uruguaio aberto à esquerda – até então acostumado a atuar como segundo atacante – não é tão desagradável. Dessa maneira, o PSG mantém sua estrutura com coerência quando seu craque sai de sua posição original (foto abaixo).

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A importância de um Ibra mais meio-campista fica em evidência contra equipes que avançam a marcação contra os Les Rouge-et-Bleu. Por quê? Primeiramente, porque força o auxílio de Motta e Verratti à dupla de zaga, deixando um vácuo na medular que, tecnicamente, só pode ser compreendido por Ibra. Quando isso acontece, o sueco não só tem a missão de construir o jogo ofensivo de sua equipe, como também de iniciar uma transição e/ou um possível contra-ataque. Não seria exagero afirmar que Zlatan se relaciona com maior intensidade com o tema “criatividade”.

O mecanismo de Ibrahimovic não só condiciona Matuidi e Cavani. Di María, o extremo direito, também se aproveita. Assim como o uruguaio, Fideo também tem que romper em diagonal para aproveitar o vazio no centro da área (foto abaixo). É verdade que, para Cavani, cumprir esse papel não é tão difícil. Para o argentino, a dificuldade inicial foi ser um “vice-goleador”, já que esse não é seu principal atributo. Por outro lado, o fato de poder se mover lhe é favorável, já que, na teoria, jogar em uma equipe que tem média de 60% da posse de bola pode deixar seu trabalho mais estático. Di María soma em profundidade, quando parte da ponta, e em agressividade, por dentro.

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Ao longo de sua carreira, Ibrahimovic sempre teve um ponto fraco: a Liga dos Campeões da UEFA. De fato, ele coleciona momentos decepcionantes no mata-mata da competição, a ponto de ficar de 2003 até 2010 sem marcar um golzinho na fase final. O que mais impressiona negativamente não são as consecutivas falhas, mas o fato de o sueco simplesmente desaparecer de campo. Não é notado. É como se suas equipes tivessem um jogador a menos. O choque de realidade foi fincado quando os parienses eliminaram o Chelsea de Mourinho no ano passado sem Ibra, expulso em Stamford Bridge.

A nova “versão” de Ibrahimovic obriga a sua participação em demasia. O sorteio da Champions colocou frente a frente, mais uma vez, PSG e Chelsea. Ibra pode voltar a decepcionar. Mas não será por omissão.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.