O Napoli de Sarri que encanta um povo

  • por Doentes por Futebol
  • 2 Anos atrás
(por Lucas Martins)

O nome de Diego Armando Maradona faz qualquer napolitano suspirar, trazer um par de lágrimas aos olhos e lembrar de épocas incríveis.

Não é para menos, afinal o ídolo argentino ajudou de forma totalmente direta na construção do clube vencedor que hoje é o Napoli. Dito isso, é natural que qualquer frase de Dieguito a respeito da equipe mereça tempo e atenção. A opinião do Deus de Nápoles faz qualquer fã refletir – mas às vezes ele se engana. Foi o que ocorreu quando Maradona deixou o seguinte comentário:

“Com (Maurizio) Sarri não teremos um Napoli vitorioso”.

Dois meses depois, um pedido de desculpas foi arrancado de sua garganta pelo poder dos fantásticos resultados.

Sarri deve ter pensado naquela famosa frase que diz que ”o tempo cura tudo”, mas preferiu manter o foco no seu trabalho e tratou de evoluir ainda mais um time cujo potencial coletivo é enorme. Se o conjunto funciona, o individual tende a seguir o mesmo caminho, e assim podem provar Higuaín, Hamsik, Jorginho e tantos outros jogadores do grupo. Porém, voltando a Maradona, o craque baixinho até tinha razão em alguns pontos de sua crítica veemente.

 

O início complicado que desgostou Diego Armando

Ao pisar na parte sul da Bota, Maurizio Sarri buscou segurança e quis repetir alguns detalhes de sua ótima passagem pelo Empoli, a começar pela implantação do esquema 4-3-1-2. Contudo, Empoli não é Nápoles, a Toscana não é a Campânia e as características de cada elenco definitivamente eram diferentes: Sarri demorou a pré-temporada e mais três jogos oficiais para perceber, mas vamos com calma. Um dos grandes problemas da “era Benítez” concentrou-se no miolo de zaga, mais precisamente em Raúl Albiol, Kalidou Koulibaly e Miguel Britos, um trio inseguro por natureza. Britos saiu, mas os outros dois continuaram para marcar o mau começo de temporada 2015/16, não 100% por culpa deles.

O fato é que, nas três aparições oficiais antes da mudança, os partenopei adotaram uma postura nada favorável ao dueto, algo negativamente potencializado por ter apenas três atletas no meio-campo e muitas vezes não contar com um bom auxílio defensivo do trio mais adiantado, o que gerava várias situações de mano-a-mano ou saídas de posição dos zagueiros para cobrir buracos. Foram seis gols sofridos em três exibições, coisa que nem o já poderoso ataque (cinco tentos anotados e inúmeras chances criadas no período) foi capaz de compensar. Assim o 4-3-1-2 de Sarri, com Insigne como trequartista, o velho “10”, dava seu tchau ao estádio San Paolo – o descontrole iria embora no mesmo barco.

 

A mudança de esquema que acabou alterando a alma e a defesa

No futebol, ninguém precisa marcar 10 gols para ganhar, só é preciso balançar mais as redes que o adversário. Uma regra óbvia, inútil para quem acompanha esse esporte semanalmente – entretanto, como a maioria reconhece, a beleza está nos pequenos detalhes (às vezes, nos mais evidentes). A partir do duelo contra o Club Brugge, pela Liga Europa, Sarri amarrou-se ao 4-3-3, destruiu seu esquema antigo e reconheceu isso. Os ataques azuis seguiam verticais, ‘kloppistas’, mas agora haveria controle quando necessário, uma série de passes horizontais no campo de defesa antes de acionar os jogadores ofensivos. Basicamente, o técnico nascido no caos de Nápoles resolveu ser frio.

6c138e75-3449-4a5d-a247-3f5acdf432b6

Guardiola diz que “quanto mais rápido a bola vai ao ataque, mais rápido ela volta aos zagueiros”, e qual é a forma mais direta de impedir uma falha defensiva? Impedir que a pelota chegue lá atrás. Por isso os passes para o lado antes de uma jogada, para pensar, para não colocar uma dupla desconfiável em apuros frequentes. Também para tal, e isso já sem a posse, o Napoli exerce muita pressão no meio-campo, não muito recuado nem tão adiantado – assim o time segue junto e qualquer erro é minimizado, mas sem dar um terreno excessivo aos rivais. Assim, Maurizio deu em média 61% de posse ao time e 14 partidas sem levar gol em quatro meses. Pois foi frio e calculista.

91ebfc77-f4d3-4551-a338-37c1f54ab0a3

 

Leia mais: O ótimo momento de Jorginho

Se há frieza para não sofrer, há um Vesúvio para marcar gols

Quando a redonda cumpre sua trajetória de passes de controle atrás, que dura uns 10 ou 13 toques na bola, vem a parte divertida deste conjunto que, a partir daí, recebe o DNA de Jürgen Klopp: jogadas velocíssimas, lances verticais, inversões de posição (na esquerda) e gols, muitos e belíssimos gols. Em geral é Hamsik quem busca a pelota atrás, já que Jorginho, a princípio o cara da saída de bola, tende a se afastar dela por ordens superiores (permanece atrás como uma opção de retorno e para comandar os movimentos se a esfera for perdida). Porém, Insigne também pode recuar e até Allan, mais vital quando a bola não está em seus pés, às vezes dá início ao jogo ofensivo coletivo.

e1a75787-e1b3-4ed5-a2f7-8294ba19ac77

A questão é que tudo costuma acontecer no flanco canhoto, o coração gerador de tentos. Simplesmente não existem pontos fixos entre Ghoulam, Hamsik e Insigne, que se compensam a todo instante e fazem de tudo para buscar duas jogadas típicas: ou a diagonal para dentro a partir da esquerda, que tem Higuaín como pivô – sempre entendendo bem as ações de todos – e pode ter mil finais; ou a chegada ao ‘bico’ da área que vira um cruzamento atrás de todos, na segunda trave para Allan ou Callejón.

https://www.youtube.com/watch?v=zfgYasCMdMk

De qualquer forma, tudo começa e termina em pouquíssimos segundos, criando confusão na enorme maioria dos sistemas defensivos enfrentados. Correr para destruir, acelerar para trucidar.

https://www.youtube.com/watch?v=ZrEFhtu_2Fk

 

A ilusão está no ar, mas a cultura de um povo pode atrapalhar

O napolitano sofre com atos e cânticos discriminatórios há séculos, o preconceito contra a parte sul italiana, menos desenvolvida economicamente que outras, está enraizado na mente de vários e faz Nápoles, por exemplo, parecer o lado obscuro da Bota. Isso e alguns outros fatores ajudam a formular a mente de um sulista, e encontrar no futebol uma chance de vencer o restante do país vem desde antes de Maradona. Mas o fato é que isso torna os torcedores quentes, a empolgação demasiada pode chegar a qualquer momento, o oba-oba pode ser passado aos jogadores, o ritmo pode cair pelo simples sentimento de um apaixonado que tem as emoções muito à flor da pele por todo o contexto.

O próprio Sarri já disse tal coisa:

2016-01-24_14-57-00

Foto: Alessandro Cuomo

“O entusiasmo pode ser positivo, mas em Nápoles, tão passional, isso pode virar algo negativo”.

Ele sabe que uma escalada tão grande pode provocar um tombo ainda maior, que a linha entre o que motiva, o que relaxa demais e o que tira a confiança é tênue. Maurizio quer o equilíbrio, mas talvez o pedido esteja sendo feito no lugar errado.

Contudo, se ele fez o rei Dieguito curvar-se ao seu trabalho, os súditos podem muito bem seguir o mesmo caminho em relação ao controle emocional. Sarri vem mostrando que consegue obter feitos que surpreendem até o mais incrédulo observador.

Comentários