A recuperação da Juventus de Pogba e Dybala

Perder jogadores como Andrea Pirlo, Arturo Vidal e Carlos Tévez de uma só vez seria atordoante para qualquer equipe. Esse é o tipo de desmanche que altera os rumos de um time. Mesmo com substitutos qualificados e dispostos a copiar suas funções, o novo encaixe pode ser demorado ao ponto de comprometer a disputa de um campeonato.

A Juventus de Massimiliano Allegri passou por isso. Viu a sua base tetracampeã nacional ruir e teve de restaurar as engrenagens danificadas. Ainda que o começo de temporada tenha sido duro, com apenas seis vitórias nas primeiras 14 partidas, aos poucos e com um trabalho visível do técnico, as coisas foram voltando ao seu devido lugar.

Foto LaPresse - Daniele Badolato.

As tentativas de Allegri e o começo fracassado

Massimiliano Allegri havia mudado e alargado o repertório da Juve já na temporada 2014/15, inclusive dando uma opção ao famoso 3-5-2 implantado por Conte. Assim os bianconeri foram vice-campeões da Uefa Champions League, perdendo alguns pilares da campanha. A partir deste momento começa de fato o processo de reconstrução do time. As contratações surgem e o treinador passa a buscar novas alternativas táticas para suprir as quedas de qualidade e liderança ofensiva do conjunto. Teve 4-3-1-2, 4-3-3 que virava 4-4-2 ao defender, o clássico 4-3-3, o velho 3-5-2… Allegri tentou de tudo desde a pré-temporada mas, na verdade, a questão era mais individual. E todos veriam isso adiante.

A princípio, Marchisio faria as tarefas de Pirlo – algo que ele havia executado até melhor que o próprio Andrea alguns meses antes. Mas acabou ficando fora por mais de 40 dias devido às lesões, justamente no arranque da Serie A – e levou algum tempo até a boa forma voltar; Khedira seria algo parecido com o que era Vidal, porém as contusões seguiram a assombrar sua carreira e até mesmo neste momento não existe uma sequência; por fim, Dybala deveria ser a cópia de Tévez, mas a adaptação ao novo clube tirou o impacto imediato de sua chegada e o entorno não ajudou tanto. São três pontos interligados, que ajudam a entender como o time chegou a jogar muito menos do que poderia.

Sem Marchisio ou com ele sem um grande ritmo de jogo, a Juve penou para executar saídas de bola sãs. Colocar a bola à frente com qualidade era um sonho longínquo e por isso Paul Pogba recuava, distanciando-se da área rival, não sendo capaz de pensar os avanços e perdendo o que tem de melhor: sua magia desequilibrante. Também faltavam opções de passe que fizessem a equipe subir, os atacantes participavam pouco; várias vezes a pelota era perdida no meio-campo e um contra-ataque criado para o adversário, o que recaía sobre a linha de defesa. Não ter fluidez ofensiva foi por vezes um baque psicológico enorme, desencadeando toda uma Juventus frágil que tinha como maior inimiga a bola.

A partir de um trio, a recuperação bianconera

Pode parecer clichê, mas depois de muitas tentativas, a Juventus começou sua recuperação na temporada sendo simples, apenas fazendo com que um trio realizasse o que sabe. De formas distintas, porém complementares, Marchisio, Pogba e Paulo Dybala se juntaram para impor ordem aos ataques da equipe, um facilitando o trabalho do outro – e no final, facilitando o de todos.

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Marchisio passou a liderar o início das jogadas, dando o ritmo e escolhendo bem os caminhos do time, com plena consciência de o que praticar em cada momento, confiscando a pelota nos pés dos zagueiros e soltando nos buracos dados pelo adversário. De tal maneira, o meio-campista ofereceu uma coisa vital: a amizade com a bola.

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Pogba deixou de recuar tanto, afinal ele poderia se manter mais adiantado e ainda assim participaria ativamente dos jogos. O francês não mais precisou atuar a 50 metros da área oponente, tampouco receber a redonda sem a mínima chance de um passe genial, um drible lindo ou uma finalização perfeita.

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Em Dybala houve a extrema mobilidade que destrói marcações, a frequência para ser uma opção de passe quase intocável, a capacidade de segurar a bola no campo inimigo e os gols. O jovem atacante é tão magnífico a ponto de tirar gols do nada. A ponto de decidir um embate onde os bianconeri jogam pior. E de garantir pontos preciosos.

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Para o bem do Campeonato Italiano, a sorte foi que tudo isso levou cerca de onze rodadas para encaixar. Até acontecer, a Juve somou 12 pontos em dez partidas, com quatro derrotas e míseros onze tentos anotados. Nos dez duelos seguintes, foram 30 pontos, 100% de aproveitamento e um total de alucinantes 26 gols a favor. Sendo breve, a gigante das taças acordou, com a fome de sempre.

Com outra trinca, a consolidação juventina

Se por um lado a recuperação nasceu no trio ofensivo, a consolidação teve como alicerce a trinca defensiva, os famigerados três zagueiros de Turim. Depois de voltar de verdade ao 3-5-2, um pouco após iniciar a recuperação, somando todas as competições a Vecchia Signora passou os 15 primeiros confrontos com o brutal número de cinco tentos sofridos, média de um a cada três partidas; e onze jogos sem que alguém furasse o gol guardado por Gianluigi Buffon ou pelo brasileiro Neto. Nesta temporada não está sendo possível ver o “BBC” formado por Barzagli, Bonucci e Chiellini a todo momento, muitas vezes algum problema tirou um deles de campo. Entretanto, a reposição é tão segura quanto.

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O jovem Daniele Rugani, de 21 anos, e o experiente Martín Cáceres, de 28, são os “tapa-buracos” oficiais da defesa de Allegri, substituindo bem quem quer que não atue. Afinal, não é tão complicado assim fazer parte do ajustado sistema de marcação da Juventus, que consegue frustrar ataques de muito nível a partir da coordenação, de uma linha defensiva que quase não se mexe, contando com o trabalho de toda a equipe.

Talvez a Juve não atinja o pentacampeonato na Bota. Talvez, caia nas oitavas de final da Champions League para o poderoso Bayern de Munique. Ou talvez a Copa Itália não coloque outro título na sala de troféus bianconera. Talvez, por fim, essa recuperação inteira tenha sido em vão. Mas sabendo o que representa a camisa da Juventus, fica muito difícil crer nesse monte de hipóteses.

Comentários

2000. Um doente por futebol que busca insistentemente entender esse jogo magnífico de forma completa - claro, sem sucesso.