A temporada mágica de Mesut Özil

  • por Israel Oliveira
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HENRY ESTÁTUADesde a saída do lendário Thierry Henry para Barcelona, o Arsenal tem procurado seu protagonista máximo, aquele jogador capaz não só de liderar uma equipe, mas de decidir jogos com constância.

Bem preparados por Arsene Wenger após a remodelação do elenco, Cesc Fàbregas e Robin Van Persie tiveram a missão de liderar o Arsenal para novos títulos. Porém, com o treinador francês sendo conservador no mercado de transferências temporada após temporada, aparentemente gastando “pouco” por conta do grande montante investido no pagamento da construção do Emirates Stadium, os gunners acabaram por estagnar na zona de classificação para a Liga dos Campeões.

Bem verdade que o espanhol e o holandês nunca foram dos jogadores mais confiáveis – tal qual foi Henry – e além da falta de “decisividade”, acabaram sendo negociados em seus momentos de maior brilho (ambos saíram buscando maiores salários e títulos em equipes mais fortes como Manchester United e Barcelona). O Arsenal aparentava estar se tornando apenas mais um time vendedor de talentos – entre tantos outros num futebol dominado pelas potências que investem pesado na hora de contratar – predestinado a se contentar em seguir classificando para a Liga dos Campeões.

Eis que o destino mudaria tudo num tiro certeiro. Mesut Özil, maior garçom da Europa nas últimas temporadas, estava sem espaço no Real Madrid, ofuscado pelas contratações de Gareth Bale e Isco, ambos para o setor de um novo esquadrão merengue para Carlo Ancelotti. Investir pesado e trazer o alemão para Londres foi o investimento certo no momento necessário. O Arsenal passaria a ter seu novo líder técnico, status vago desde a saída de Van Persie para o Manchester United.

CHEGADA OZIL

A temporada 13/14 marcou uma mudança na política de Arsène Wenger quanto a transferências. Desde o início janela de verão europeu, houve grande especulações quanto a contratações de peso para reforçar o elenco gunner. As novelas Luis Suárez e Gonzalo Higuaín, e seus respectivos desfechos sem final “feliz” para o treinador francês, acrescentaram ainda mais pressão sobre os ombros do manager do clube de Londres. Wenger precisava mostrar que o Arsenal ainda era capaz de “abocanhar” um grande jogador do futebol mundial. Daí, no último dia de vigência da janela, finalmente o clube londrino confirmava uma transação que animaria seus torcedores: Mesut Özil chegaria como a contratação mais cara da história do Arsenal.

O alemão não era basicamente o comandante do Real, posição naturalmente exercida pelo craque Cristiano Ronaldo, mas tinha muito peso no jogo ofensivo dos merengues. Mais do que ninguém, sabia exatamente os locais preferidos, onde pisava o português e geria de forma sempre muito precisa os famosos contra-ataques da equipe de José Mourinho. Estava chegando para um novo desafio, de uma equipe mais apta ao toque de bola, sendo esse um cartão chave do seu jogo.

O impacto foi imediato.  O Arsenal surpreendeu a todos, e comandando por Özil, liderava com autoridade a Premier League, praticando um futebol solene, de lindos efeitos artísticos e técnicos, tudo arquitetado pelos pés mágicos do turco-alemão, que mostrava um amadurecimento de impacto nas mãos de Wenger: Özil sempre gostou muito de jogar, servir, mas no Real Madrid por muitas vezes foi um jogador restrito aos metros finais do campo. No Arsenal, ganhava mais amplitude, gerava mais linhas de passe, sabia que distribuir o jogo não era só o último passe.

O Arsenal, como de costume, fracassou na defesa de sua liderança e caiu bons degraus na classificação, mas aquele não tão sucinto momento como melhor time da Inglaterra levantou de como a equipe tem potencial, mas foi derrubada por escolhas erradas e o velho departamento médico. Fechando com chave de ouro sua ótima temporada de calouro na terra da rainha, Özil foi figura importante no épico título da FA Cup diante do Hull City, numa comovente virada que encerrava o longo jejum de nove anos.

Chega um parceiro de peso para dividir a responsabilidade:

Os mercados pós Copa do Mundo sempre são movimentados e nessa brincadeira o Arsenal arranjou um bom amigo para compartilhar responsabilidades e formar uma dupla de talentos estrondosos. Chegava Alexis Sánchez.

Wenger tentou implantar um novo esquema pra acomodar o máximo de jogadores geradores de posse, um 4-1-4-1. Em seu desenho, Mesut Özil ocupava o flanco esquerdo do campo, tendo um ardiloso trabalho defensivo e menos campo para andar.

Özil na esquerda em jogo válido pela Champions League 14/15. O Dortmund venceu por 2 x 0.

Özil na esquerda em jogo válido pela Champions League 14/15. O Dortmund venceu por 2 x 0.

É verdade que sua aparição em nível mundial, na Copa de 2010, continha breves desmarques e rupturas para a direita em junção a Thomas Muller, mas tudo isso são movimentos, disposições ofensivas que o jogo pede. Özil sempre teve como trunfo, jogando como um autêntico meia de ligação, o espaço entre linhas para trabalhar, a possibilidade de a partir do centro organizar jogadas, inclusive pifando os laterais. Tudo isso morreu: Özil esteve desconfortável pelas restrições do jogo de um meia aberto, com desloques curtos e bem acobertados pelos laterais inimigos. Wenger foi criticado e era necessário um novo formato pra abrigar seus melhores jogadores.

Wenger fez ajustes cirúrgicos para agrupar Özil, Ramsey e Cazorla. Agora, o espanhol, armava o jogo desde trás, carregando mais a bola, enquanto Ramsey tinha seu poder de finalização mais explorado ao atuar próximo do gol, posicionado entre a meia e o flanco direito. Özil ganhou seu território, podendo circular e tendo mais opções de diálogo, ainda mais com Santi Cazorla sendo mais presente na criação.

Ilustração da Sky Sports mostrando a escalação do Arsenal contra o Liverpool. Comparar com a primeira escalação do ano é covardia

Ilustração da Sky Sports mostrando a escalação do Arsenal contra o Liverpool (4 x 1)

O bicampeonato da FA Cup chegou, junto com um empolgante segundo turno no Campeonato local e uma eliminação decepcionante para o Mônaco na Liga dos Campeões.  O Arsenal ressurgiu tarde na temporada, mas resgatou uma versão mais competente e madura de Özil, cada vez mais confiável para liderar a equipe, tomar decisões e ordenar atos silenciosamente.

Vide seus jogos de luxo contra o Liverpool na EPL e contra o United (F.A Cup). Os Gunners encerravam a temporada como equipe de melhor futebol da Inglaterra.

Leia mais: O excelente 2015 do Arsenal

2015/2016: Özil e seus números mágicos

Chegamos ao ápice do gênio das assistências. O alemão chegou num ponto em que domina quase todos os elementos vitais para um meio-campista de alto nível. O Özil que sempre sonhamos desde sua aparição para o futebol chegou, em proporções gigantescas.

https://www.youtube.com/watch?v=DucVxJwqM-4

Após dois anos de casa, parece saber por telepatia onde encontrar seus companheiros. Sabe quando deve socorrer uma saída de bola turbulenta e atrapalhada entre os zagueiros, como ativar seus laterais, como acelerar ou pausar o jogo.

Tecnicamente, o repertório é vasto. São assistências em enfiadas precisas, passes rápidos, cruzamentos que parecem feitos com a mão, espaços gerados por movimentos de uma jogada iniciada lá atrás.

Wenger tinha a ideia de aumentar o peso de Cazorla no esquema, com o espanhol retornando e buscando a bola entre os zagueiros, ditando a saída. Tudo isso foi embora com sua lesão. Precisava entrar Özil, que já atuava em alto nível. Em meio a muitas tarefas, o alemão assume todas de forma muito natural, sabendo de sua grandeza. O Arsenal, de forma improvável contando a ausência do espanhol, arranca para disputar com o Leicester pelo título inglês. Tudo isso orquestrado por seu craque das assistências.

Apesar de frames importantes em sua carreira, Özil sempre foi criticado por ser disperso em jogos de peso. O problema está sendo praticamente liquidado na temporada corrente.

Contra o Manchester United deu show, dominou o frágil sistema defensivo Red Devil, ditando uma velocidade insana exercida pelo ataque dos Gunners.

https://www.youtube.com/watch?v=WIBU7_PoivQ

Contra o City, num jogo entre ponteiros, deu duas assistências vitais para a vitória, mostrando extrema confiabilidade.

Num momento marcante, contra o Bayern, com o time precisando vencer, relembrou os tempos de Madrid contra o Barcelona: prendeu a bola, instruiu contra-ataques e liquidou o excelente meio-campo bávaro.

Seria ilustrativo mencionar seus tantos números, quantos jogos que o Arsenal não venceria sem seus pés cirúrgicos.

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Pouco mais da metade da Premier League decorrida e Özil já se encontra no top 10 dos maiores assistentes numa só edição do campeonato. Se mantiver o ótimo ritmo, não é devaneio algum sonhar que o alemão possa superar a lenda Thierry Henry neste quesito. É acompanhar para ver a história ser escrita.

Falando em sonhar, mais uma vez a torcida gooner sonha em sair do jejum da Premier League e ver o time dominando a Inglaterra. Os rivais Chelsea e Manchester United estão fora do páreo, Manchester City aparece claudicante e vemos a surpresa Leicester tomar a liderança de assalto parecendo não soltá-la mais. O alento para os torcedores do norte de Londres é que o Arsenal ainda enfrentará as raposas em pleno Emirates. Uma vitória contra um rival direto pode reascender a chama do time para buscar o tão sonhado campeonato. Mas denominar um time a esse nível sempre depende de ter um craque.

O Arsenal tem Mesut Özil, vamos ver o que o mágico irá tirar da cartola até o final desta temporada.

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