Futuro nebuloso para a França

Faltam menos de seis meses para o início da Eurocopa 2016 e a França, anfitriã do torneio e equipe que deveria estar próxima de ter um time ideal, viverá dias nebulosos até a estreia no torneio, no dia 10 de junho, contra a Romênia, no Stade de France. Tudo que Didier Deschamps não queria que acontecesse está sendo vivenciado, desde as tradicionais polêmicas extracampo até lesões sérias de atletas provavelmente convocados. Tudo isso acontece em meio a um cenário de indefinição quanto à formação da equipe, tendo em vista que Didier fez diversas experiências e ainda não possui um time base desenhado.

Caso Benzema

Foto: Reuters/Charles Platiau

Foto: Reuters/Charles Platiau

O primeiro problema de Deschamps envolve o caso que tirou Karim Benzema da seleção. Para quem pousou neste planeta há pouco tempo, ponho a par do que houve. O meia Mathieu Valbuena, do Lyon, esqueceu o celular. No aparelho, havia um vídeo íntimo do atleta. O atacante do Real Madrid ficou com a posse do material, o chantageou e o extorquiu para que pagasse um valor para que não divulgasse. Benzema chegou a declarar que não fez isso diretamente, mas que intermediou o contato para um amigo. Apesar de não haver qualquer indício de racha entre os jogadores – até mesmo Valbuena demonstra interesse em uma reconciliação com o madridista – a justiça proibiu que os dois pudessem entrar em contato, o que fez com que a Federação Francesa de Futebol (FFF) suspendesse o atacante por tempo indeterminado.

Até que este caso seja solucionado, podemos esquecer Benzema na seleção. Deschamps precisa pensar logo em uma solução para a função e a opção imediata é Olivier Giroud, do Arsenal. Apesar de não possuir os recursos técnicos do concorrente e também de ter características diferentes – o merengue é mais móvel e habilidoso, enquanto o gunner é mais fixo e usa muito o jogo físico – Olivier é a melhor opção para o momento.

Na temporada, Giroud já marcou 18 gols em 41 jogos e é o artilheiro do Arsenal. O que preocupa no desempenho do camisa 12 do clube inglês é o número de gols em jogos recentes. Em 2016, foram apenas três em oito atuações. Entre novembro e dezembro do último ano, foi às redes oito vezes em nove jogos.

Foto: AFP

Foto: AFP

Quem tenta aproveitar essa instabilidade de Giroud é Anthony Martial, do rival Manchester United. Aos 20 anos, o atacante formado pelo Lyon tem apenas seis jogos pela seleção principal e ainda não marcou nenhum gol, mas é titular da equipe comandada por Louis van Gaal e já acumula nove gols e quatro assistências. Apesar de atuar pelo lado do campo na Inglaterra, pode ser uma opção para a função antes desempenhada por Benzema.

Martial, porém, leva desvantagem para Giroud quanto à rodagem internacional. O fato de a Eurocopa ser em casa e de o foco da polêmica ser exatamente nesta posição, um nome mais calejado e experimentado é mais conveniente. Isso vale também nas comparações do gunner com André-Pierre Gignac e Alexandre Lacazette, outras opções para a função.

Cozinha bagunçada

Foto: L'Equipe

Foto: L’Equipe

Se o ataque é razão de preocupação para Deschamps, a defesa é ainda mais. O jovem Kurt Zouma, opção para o banco, mas que despontava como alternativa para a titularidade, sofreu um rompimento no ligamento cruzado anterior do joelho direito e ficará seis meses fora. Portanto, ausente da Eurocopa. Em meio a isso, Mamadou Sakho, titular na Copa do Mundo de 2014 e opção para o miolo de zaga, vem acumulando péssimas atuações pelo Liverpool e causa preocupação em toda a torcida francesa.

Por falta de opções, Deschamps terá que desenhar a zaga, quase que obrigatoriamente, com Laurent Koscielny e Raphaël Varane. Dos dois, a boa nova é o segundo citado, que estava sendo deixado de lado no Real Madrid por Rafael Benítez, mas que voltou à ativa com a promoção do compatriota Zinedine Zidane ao time profissional.

Se no miolo faltam opções mediante as atuações ruins de alguns atletas e a lesão de outros, o problema também acontece nas laterais, mas por razão contrária. Sobram alternativas e falta afirmação dos convocados.

Na direita reside o maior problema. Bacary Sagna, do Manchester City, vem sendo o titular, mas está longe de convencer. Mathieu Debuchy, sempre o preferido de Deschamps, perdeu espaço no Arsenal em função das lesões e precisou ser emprestado ao Bordeaux para ganhar minutos e ter chance de disputar a Eurocopa. A outra opção é Christophe Jallet, do Lyon. Apesar das boas temporadas no Gerland, ele parece ser uma alternativa mais eficaz para ambições domésticas do que para um salto maior.

Quem joga?

Foto: Guillaume Bigot/FFF

Foto: Guillaume Bigot/FFF

O ano de 2015 também foi de muitos experimentos para Deschamps. Com a vaga na Eurocopa já garantida, o técnico se sentiu no direito de aproveitar as diversas opções que tem e testou algumas variantes durante os amistosos realizados. A maioria das tentativas foi no meio-campo. Na faixa central do gramado, Morgan Schneiderlin, Blaise Matuidi, Yohan Cabaye, Lass Diarra, Paul Pogba, Moussa Sissoko, Geoffrey Kondogbia e Maxime Gonalons foram titulares. Todos eles já rodaram no tradicional 4-3-3 (4-1-4-1) de DD. Até mesmo Pogba, astro da companhia na ausência de Benzema, já foi utilizado mais adiantado, em uma espécie de 4-2-3-1. Hoje, ele e Matuidi são os únicos titulares garantidos no meio-campo.

Mais à frente, a dúvida no tripé de ataque. Sem Benzema suspenso e com Valbuena ainda distante do desempenho de anos atrás, Deschamps procura opções. Martial e Giroud, por exemplo, podem jogar juntos, com o red devil pelo flanco esquerdo e o gunner pelo centro. Griezmann é a única presença certa pelo lado direito.

Como opções, DD ainda possui Dimitri Payet, em grande fase no West Ham, boa alternativa principalmente pelo recurso técnico, especialmente nas finalizações de média e longa distância. Em meio a estas dúvidas, Deschamps ainda ganhou mais uma dorzinha de cabeça. No surpreendente Leicester City, grande destaque da temporada atual da Premier League, o meio-campista N’Golo Kanté vem chamando a atenção e existe uma forte especulação para que ele possa ser convocado nos próximos amistosos.

O xis da questão é: Kanté tem dupla nacionalidade e há a possibilidade de defender a seleção malinesa. Patrice Granade, ex-treinador do atleta, disse, em entrevista à France Football, que o jogador do Leicester tinha em mente defender a seleção de Mali, mas que ficaria balançado se fosse contatado por Deschamps. Os elogios da crítica especializada são intensos e seu nome precisa ser avaliado com carinho pela comissão técnica.

Peso

Foto: Franck Fife/AFP/Getty Images)

Foto: Franck Fife/AFP/Getty Images)

A grande dúvida que deve pairar na cabeça de Deschamps é: quem chamará a responsabilidade? A França atual não tem Zidane, nem Henry, mas poderia ter Franck Ribery. O meia do Bayern, porém, se aposentou depois do corte antes da Copa do Mundo. Tinha tudo para ser a grande liderança técnica da equipe, podendo ser campeão, pela primeira vez, com a seleção de seu país. Seria, também, a primeira competição do atleta com um vestiário de paz, sem turbulências internas, como vimos nas Copas de 2006 e 2010 e nas Euros de 2008 e 2012. A decisão que causou estranheza em muitos na época se mostrou acertada. Vide os poucos jogos que fez de 2014 até agora – apenas 41, sendo dois na atual temporada.

Sem Benzema, o peso cai nas costas de Paul Pogba, que terá, aos 22 anos, o primeiro grande desafio pela França. Em 2014, apesar de ser considerado um dos astros da Juventus, Pogba era um operário da seleção durante a Copa do Mundo, na qual fez um gol e deu uma assistência. Também sem Ribery, o meia da Juve tem seu espaço e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de ser a liderança técnica de um time carente de atuações constantes e que precisa se afastar das polêmicas.

Na atual temporada, Pogba apresenta números que animam os Bleus. Com a Juventus, foram cinco gols e sete assistências. No ano anterior, foram nove tentos e seis passes para gol. Apesar de estar sendo ofuscado pelo argentino Paulo Dybala, o francês vem se destacando e possui know how para ser a liderança tão procurada. Mas, claro, será um teste. Uma forma de provar do que realmente é capaz. Pelas circunstâncias, o peso recai sobre Pogba.

Esses fatores colocam um ponto de interrogação sobre o futuro da França. Os Bleus possuem opções e o técnico Deschamps tem um leque de variáveis para formar uma equipe capaz de vencer a Eurocopa. Mas os recentes episódios e, acima de tudo, o caso Benzema fazem com que uma pertinente pergunta seja feita: os franceses ainda estão entre os grandes favoritos do torneio continental?

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.

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