Jay-Jay Okocha: o maior camisa 10 da Nigéria

  • por Rogério Bibiano
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Mama África na área!

O futebol, esporte que amamos e pelo qual somos Doentes, no sentido literal de tal afirmativa sempre encantou por todos os seus aspectos técnicos, táticos, físicos, psicológicos, enfim, um vasta gama de aspectos que maravilhou e maravilha o homem ao longo de diversas décadas, que nos envolvem de um jeito ou de outro. E um dos jogadores que encantou uma geração por sua extrema habilidade, técnica e categoria é Jay-Jay Okocha.

Nascido Augustine Azuka Okocha, em 14 de agosto de 1973, na cidade de Enugu, na Nigéria. A origem do apelido Jay-Jay é oriunda dos seus irmãos mais velhos: James e Emmanuel, que era chamado de Emma Jay-Jay. Há outra história que afirma que a duplicação do nome Jay foi em função de um treinador francês que era gago e que repetia o nome ao chamar Okocha, porém este fato nunca foi oficialmente comprovado pelo próprio jogador, tomando mais o caminho de uma lenda propriamente dita.

Rara imagem de Jay-Jay Okocha quando criança, comprovando o precoce amor pela bola (Imagem: reprodução)

Rara imagem de Jay-Jay Okocha quando criança, comprovando o precoce amor pela bola (Imagem: reprodução)

Okocha começou jogando bola na rua, um fato comum à maioria dos craques africanos. Da rua para os primeiros passos no clube de sua cidade, o Enugu Rangers, foi um passo rápido. Com 16 anos, o jovem meia-atacante, de habilidade excepcional já figurava no elenco principal da equipe, disputando o campeonato nigeriano.

Os primeiros anos na Europa

Foi em 1990 que a carreira de Jay-Jay Okocha deu uma guinada, a partir de uma visita que fez ao seu amigo nigeriano Binebi Numa, que jogava no Borussia Neunkirchen, da terceira divisão da (extinta) Alemanha Ocidental. Certo dia, acompanhando uma sessão de treinamento do amigo, Okocha participou e impressionou a comissão técnica do clube, que de imediato lhe propôs um contrato.

No pequeno Borussia Neunkirchen, Okocha iniciou sua trajetória europeia (imagem: reprodução)

No pequeno Borussia Neunkirchen, Okocha iniciou sua trajetória europeia (imagem: reprodução)

Em 1991, Okocha foi jogar no FC Saarbrucken, na Bundelisga 2, a segundona alemã. Porém, o nigeriano ficou poucos meses na equipe, antes de se transferir em dezembro para o Eintracht Frankfurt, onde construiu uma bela história atuando ao lado do ganês Antonhy Yeboah e do ítalo-germânico Maurizio Gaudino, compondo um ataque que marcou época na elite alemã. Em 1993, um famoso gol de Okocha, com uma sequência de dribles em cima do goleiro Oliver Khan (então jogador do Karlsruhe), ganhou diversas premiações dos principais veículos de comunicação da Alemanha como o gol do ano (veja o vídeo abaixo). Entretanto, o trio de estrelas do Eintracht Frankfurt do qual Okocha fazia parte se desentendeu com o treinador Jupp Heynckes e o rubro-negro caiu para a Bundesliga 2 ao final da temporada 1994/1995.

Da esquerda para direita: Gaudino, Okocha e Yeboah, um trio que marcou época em Frankfurt (imagem:  reprodução)

Da esquerda para direita: Gaudino, Okocha e Yeboah, um trio que marcou época em Frankfurt (imagem: reprodução)

Em 1996, Okocha já era um jogador bastante conhecido do público em geral, graças às suas atuações pela Seleção Nigeriana tanto na Copa do Mundo de 1994, quanto, sobretudo, às Olímpiadas de Atlanta (EUA). Assim, na janela de verão daquele ano, desembarcou em Istambul, na Turquia, para jogar no Fenerbahçe que comprou os direitos federativos do jogador por 1 milhão de Euros. Okocha adquiriu a cidadania turca e consequentemente recebeu o nome de Muhammet Yavuz. No tradicional clube turco, Okocha disputou 63 jogos marcando 30 gols, transformando-se num dos principais jogadores da equipe, que tinha entre os destaques o goleiro turco Rustu Reçber, o compatriota nigeriano Uche Okechuwku e o búlgaro Emil Kostadinov. Foram duas temporadas com a camisa do Fener, conquistando a Chancelor Cup e a Ataturk Cup, ambas em 1998.

Em Paris, a fama mundial

Com bastante experiência e completamente adaptado ao futebol europeu, Jay-Jay Okocha era uma total realidade. Após ter grande destaque individual na Copa do Mundo de 1998, disputada na França, chamou a atenção do Paris Saint Germain que o comprou por 14 milhões de Euros, sendo esta, na época, a maior negociação envolvendo um jogador africano. Na primeira temporada junto ao clube francês, Okocha conquistou (compondo o banco de reservas) o Trophée des Champions (disputa entre os campeões da Ligue 1 e da Ligue 2 em jogo único). Em solo francês e adaptado ao futebol local, o nigeriano brilhou com grandes atuações no gramado do Parc des Princes, sendo figura decisiva na conquista da extinta Copa Intertoto da Uefa, em 2001, com 5 gols, num elenco que também contava com o brasileiro Aloísio Chulapa e o francês Nicolas Anelka. Okocha foi considerado peça vital na adpatação do craque brasileiro Ronaldinho Gaúcho, que chegou à equipe na temporada 2001/2002.

No Bolton Wanderers, Jay-Jay se transforma em astro do futebol inglês

Após a Copa do Mundo do Japão/Coréia do Sul, em 2002 (que marcou a sua despedida do torneio), Okocha transferiu-se para o Bolton Wanderers da Inglaterra. Em sua temporada de estreia, Jay-Jay sofreu com lesões, entretanto caiu nas graças da torcida, especialmente pela sua extrema habilidade, tornando-se o jogador com maior número de camisas vendidas no clube. Já com muita experiência, o meio-campista tornou-se um dos líderes da equipe londrina, atuando em 26 jogos e marcando 6 gols. Na segunda temporada (2003/2004), Okocha jogou 38 jogos e marcou apenas 3 gols. Apesar do número baixo de tentos, o nigeriano foi um dos principais jogadores e liderou a equipe no vice-campeonato da Carling Cup e na oitava colocação na Premier League daquela temporada. A temporada 2005/2006, foi a de despedida de Okocha do Bolton. Líder e capitão da equipe, o nigeriano participou de 29 jogos, marcando 11 gols, sendo seu melhor desempenho junto ao clube londrino do qual foi ídolo.

Os últimos anos da carreira profissional

Em 2006, com 33 anos, Okocha transferiu-se para o futebol do Oriente Médio, seduzido pelos “petro-dólares”. O hábil meia foi parar no Qatar SC, saindo do cenário mais competitivo no mundo do futebol, sendo, porém, uma curta e velocíssima passagem. Jogador bastante respeitado no futebol inglês, Okocha retornou à Terra da Rainha na temporada 2007/2008 para atuar pelo Hull City, vestindo a camisa 44 da equipe auri-negra. Atuou em 18 jogos, sem marcar gols. O chamado reserva de luxo, foi prejudicado por uma série de lesões ao longo daquela temporada. Fora de campo foi considerado peça decisiva na promoção da equipe para a divisão de elite do futebol inglês, onde tantas vezes encantou. Ao final da temporada, Okocha se aposentou dos gramados, recusando propostas do futebol australiano e norte-americano e também de uma renovação com o próprio Hull City.

O Hull City foi o último clube do nigeriano (imagem: reprodução)

O Hull City foi o último clube do nigeriano (imagem: reprodução)

O maior camisa 10 da Nigéria

Sem ter passado pelas seleções de base, Okocha estreou na seleção principal em 1993, numa derrota da Nigéria para a Costa do Marfim (2×1), em jogo válido pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. Iniciava ali uma história de identificação enorme e de referência. Na goleada por 4×1 sobre a Argélia em Abuja, com um gol de falta, o camisa 10 começou a cair nas graças da fanática torcida nigeriana.

Nicola Berti tenta parar um "imparável" Okocha no épico Nigéria 1x2 Itália da Copa de 1994 (imagem: reprodução)

Nicola Berti tenta parar um “imparável” Okocha no épico Nigéria 1×2 Itália da Copa de 1994 (imagem: reprodução)

Titular absoluto, foi um dos destaques na vitoriosa campanha nigeriana na Copa Africana das Nações de 1994, disputada na Tunísia. Mas foi comandando o meio-campo nigeriano na Copa do Mundo daquele ano, Okocha se tornou mais conhecido e admirado pelos torcedores mundo afora, numa campanha de grandes jogos, em que a Nigéria sucumbiu ante a (então) vice-campeã mundial Itália em jogo dramático.

A glória do camisa 10 da Nigéria seria dois anos depois, tendo por cenário o próprio Estados Unidos. Nas Olímpiadas de Atlanta, em 1996, a Nigéria levou a medalha de ouro no futebol, batendo os gigantes Brasil (na semifinal) e Argentina (na final), em dois jogos inesquecíveis. A passada calma, o excelente passe e acima de tudo a categoria aliada ao drible, fizeram de Okocha um grande meia-armador das equipes por onde passou, mas na Seleção da Nigéria, o camisa 10 sempre jogou de forma absoluta. Dois anos depois a Nigéria estava novamente na Copa do Mundo. Na França, após uma primeira fase irretocável, as Super Águias foram surpreendidas pela Dinamarca nas oitavas de final (derrota por 4×1), mas Jay-Jay foi poupado por parte da mídia, como um dos poucos destaques naquele jogo em específico.

Final olímpica de 1996, quando a Nigéria de Okocha, levou a melhor sobre a Argentina de Ortega, em belo embate de camisas 10 (imagem: reprodução)

Final olímpica de 1996, quando a Nigéria de Okocha, levou a melhor sobre a Argentina de Ortega, em belo embate de camisas 10 (imagem: reprodução)

Em 2000, Okocha liderou as “Super-Águias” ao vice-campeonato africano de seleções que foi organizado conjuntamente por Nigéria e Gana. Naquele torneio, o público pode presenciar uma das melhores performances do camisa 10 ao longo da sua trajetória com a camisa do selecionado nacional. O meia anotou 3 gols na CAN, incluindo um na final diante de Camarões, em um arremate espetacular de fora da área, em jogo perdido nos pênaltis, após empate em 2 gols, no que é certamente um dos maiores jogos entre seleções africanas na história.

Com a aposentadoria de Sunday Oliseh e Finidi George, Okocha tornou-se o capitão da Nigéria, em 2002, numa fase de transição da seleção nigeriana. Experiente, um jogador renomado dentro de seu país e acima de tudo admirado pelos mais jovens, coube a ele a missão de liderar a Nigéria na Copa do Mundo de 2002. Em sua terceira participação em Copas, novamente os nigerianos estavam em um “grupo da morte”, desta vez ao lado de Argentina, Inglaterra e Suécia. Ao contrário das edições anteriores, conquistaram apenas 1 ponto (empate sem gols diante da Inglaterra) e pela primeira vez não avançaram para as oitavas de final. Na Copa que marcou a despedida de Okocha das Copas, o camisa 10 foi destaque com dribles e um bom futebol, ofuscado por uma atuação coletiva extremamente burocrática.

Diego Simeone (14) sob a marcação de Okocha na Copa do Mundo de 2002 (imagem: reprodução)

Diego Simeone (14) sob a marcação de Okocha na Copa do Mundo de 2002 (imagem: reprodução)

Em 2004, na Tunísia, Okocha marcou 4 gols, incluindo o milésimo gol da história das Copas Africanas das Nações (contra a África do Sul). Ajudou a levar a Nigéria ao terceiro lugar na principal competição de seleções do continente, que conforme depoimento do próprio Okocha era um dos campeonatos que mais lhe dava prazer em atuar. Após não conseguir ajudar a seleção nacional a se classificar para a Copa do Mundo da Alemanha em 2006, Okocha anunciou que a CAN 2006, disputada no Egito, seria sua despedida da Seleção Nigeriana. Entretanto, apesar de haver sido convocado e estar presente no Cairo, Jay-Jay sofreu uma séria lesão muscular, ficando praticamente de fora do torneio. Participando apenas da vitória sobre Senegal (2×1) na disputa pelo terceiro lugar, ao ser substituído, deixou o gramado aplaudido pelos torcedores.

Okocha em ação na Copa Africana das Nações de 2004, no jogo do milésimo gol da história da CAN (imagem: reprodução)

Okocha em ação na Copa Africana das Nações de 2004, no jogo do milésimo gol da história da CAN (imagem: reprodução)

Certamente um dos jogadores mais habilidosos do futebol mundial, Jay-Jay Okocha é sinônimo de futebol bonito em qualquer uma das equipes por onde atuou. Seu estilo inconfundível de cadenciar o jogo, infelizmente não foi herdado por nenhum dos jovens valores nigerianos que surgem a cada ano. Já se vão 10 anos que a Nigéria carece de um armador com a qualidade e personalidade de Okocha, que não por acaso é uma lenda viva na memória dos apaixonados pelo futebol e acima de tudo pela fanática torcida das “Super Águias”. Atualmente Okocha vive na ponte-aérea entre Lagos e Londres, onde possui residências e geralmente está presente em eventos representando a seleção da Nigéria e a Confederação Africana de Futebol. Recentemente manifestou o desejo de assumir o comando da Federação Nigeriana de Futebol, o que, convenhamos, não é uma missão tão simples, ainda que o maior camisa 10 da Nigéria goze de muito prestígio sobretudo entre os torcedores.

Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.

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