Leicester: Do conto de fadas ao mundo real

  • por Doentes por Futebol
  • 2 Anos atrás
(Por Elcio Mendonça)

Quem nunca ouviu falar no conto da Cinderela? Sim, aquela menina detestada pela madrasta, que se vê impossibilitada de ir ao baile, mas, que com a ajuda de uma fada madrinha, consegue comparecer ao festejo com direito a todas as pompas.

Uma bela história, não? Daquelas contadas por gerações, que alimentam o imaginário popular. E o que isso tem a ver com o nosso bom e velho futebol?

Num momento em que o esporte mais popular do mundo convive cada vez mais com cifras bilionárias, concentradas nas mãos de poucos, impossível não ligar o Leicester com a tal Cinderela.

Quem imaginaria que um clube quase rebaixado à Champioship na temporada anterior e sem o poderio financeiro dos gigantes ingleses poderia se dar ao luxo de sonhar com a conquista da Premier League?

12662582_815411045248343_3728886090649280214_n

O “problema” do conto, é que a Cinderela precisa voltar para casa até a meia noite, antes do final da festa, para que sua carruagem não vire uma abobora e a noite não vá do sonho à tragédia.

O Leicester não tem uma fada madrinha – leia-se dono bilionário que reforce o clube ao nível de Roman Abramovich – alguém que possa fazer as coisas acontecerem num passo de mágica. Mas isso também significa que o seu baile não precisa terminar antes da meia noite.

https://www.youtube.com/watch?v=wSUlGrO0LxQ

A sonora vitória por três a um sobre o Manchester City, no Etihad Stadium, deixa bem claro que as raposas não vivem em um conto de fadas. Eles são reais e, com este feito histórico, alcançaram os 53 pontos em 25 jogos, que lhes deram 70% de aproveitamento e a liderança isolada da competição (à época com cinco pontos de vantagem para o segundo colocado).

Qualquer dúvida sobre eles caiu por terra diante dos Citizens. O Leicester talvez não será campeão, mas não pode ser mais visto como um intruso. Se antes não era bem visto, agora o time de Claudio Ranieri é um candidato real ao título inglês, não uma Cinderela querendo parar o relógio para que ele não chegue ao dia seguinte.

Além de surpreendentes, os azuis são, de certa forma, revolucionários (ou contra-revolucionários, dependendo do ponto de vista). Se o Barcelona, com seu vitorioso tiki-taka, disse ao mundo que a posse de bola é o caminho para a vitória, Ranieri prova que é possível vencer sem tê-la.

O Leicester não faz questão de contar com a bola em seus pés, mas não pense que se trata de um time retranqueiro, acuado no último terço de campo e em busca de uma única bola salvadora para vencer o jogo.

LEICESTER WHOSCORED

As raposas são intensas, principalmente sem a posse. No 4-4-2, com as tradicionais duas linhas, o time é compacto. Defende com os 11 e ataca com o maior número de jogadores que conseguir reunir em sua frenética transição.

Mais do que isso, é um time que força o erro do adversário, buscando sempre uma vantagem numérica territorial. A marcação por zona e a grande obediência tática fazem a diferença. Não por acaso é o segundo time que mais desarma (média de 22,6 por jogo) e o primeiro com mais interceptações (média de 21,8 por partida) na liga inglesa.

“Os contra-ataques do Leicester são perfeitos”.

Com a bola, busca chegar ao gol do oponente da maneira mais rápida possível. Ou seja, sendo vertical e muito intenso. Tal ritmo faz com que o time erre bastante. Não por acaso é o clube com maior número de passes errados na Premier League (apenas de 69% de aproveitamento dos passes) e com a menor média de posse (43,7%). Não que isso seja um problema. O Leicester precisou ter a bola apenas durante 36% do tempo para implodir o City e mostrar ao mundo que não é líder por acaso.

Trata-se da melhor história do futebol mundial atualmente. Todo mundo quer que os azuis levem a Premier League (exceto, claro, quem torce para algum dos outros envolvidos na disputa do título).

ranieri sobre o time

Mais do que o sucesso de um azarão, a campanha empolgante das raposas é o renascimento de um técnico tido como obsoleto e que fracassou à frente da Grécia nas Eliminatórias para a Euro 2016.

https://www.youtube.com/watch?v=MCd5znh4_sU

Também é a história de Vardy, um herói improvável. O atacante que só estourou aos 29 anos e hoje é o artilheiro da competição nacional mais rica do planeta, com 18 gols em 25 partidas.

Não podemos nos esquecer de Mahrez. O argelino bom de bola, o melhor jogador da Premier League até o momento, que dá o toque de magia a um time de operários. Eficiente, marcou 14 gols e deu 10 assistências em 24 jogos. Ninguém participou tão diretamente dos tentos nesta competição como ele.

As próximas rodadas dirão o futuro do Leicester, que não precisa mais se preocupar com a meia noite ou com o convite. Ele já é a principal atração da festa e, independentemente do que acontecer, garantiu o seu lugar na história.

? Leia também: “Mahrez, o argelino que surpreende na EPL”

Comentários