Quantas carreiras futebolísticas nós atrapalhamos?

Lendo sobre noções de responsabilidade e expectativas profissionais, comecei a interligar os conceitos do material que lia com as carreiras futebolísticas que vemos surgir e morrer todos meses, dias, anos. Quantas trajetórias foram alteradas sem muita explicação ou noção lógica por todos nós que somos “consumidores de futebol”? Enquanto torcedores, jornalistas, esportistas, simpatizantes, quantas carreiras tiveram seu curso natural abruptamente alterado por um momento de frenesi coletivo nosso? Qual é a nossa responsabilidade no sucesso e no fracasso de jogadores que ajudamos em algum momento a ter destaque?

Pensar sobre em como nossas ações, mesmo que comedidas, alteram o status quo do mundo é algo complexo, exige-nos muito, principalmente na parte que talvez mais nos falte enquanto participantes de uma sociedade individualista: humildade. Entender que somos ativos e que tudo aquilo que nós fazemos influi direta ou indiretamente no todo que nos cerca é um passo moral raro, mas muito esclarecedor.

Foto: Rubens Chiri / São Paulo

Foto: Rubens Chiri / São Paulo FC

Confesso que me incomoda demais algumas análises que são feitas sobre determinadores jogadores que em algum momento foram cercados de expectativas, muitas delas irreais e ilusórias até mesmo no auge de suas criações. Ganso, Pato, Robinho. Talvez esses sejam os exemplos recentes mais famosos de jogadores brasileiros que são muito bons, contribuem de forma interessantíssima aos seus clubes, mas que sempre nos servem como alvo de lamentação. O motivo? Eles não conseguiram atingir as nossas expectativas. E claro, pensando rápido, por culpa deles, lógico, como pensar diferente? Como olhar pra si, para o coletivo que nos cerca e culpar-nos? Como se sentir parte disso? Eu não jogo, não entro em campo, não faço gol, então é culpa deles, pensamos. Mas será que Ganso, Pato e demais têm realmente toda essa culpa em não satisfazer nossas projeções? Eles eram obrigados a isso? E o mais sério, eles eram realmente capazes disso? Não estaríamos nós errados esse tempo todo?

O caso de Ganso é o que eu mais acompanho. Por ser são-paulino e estar imerso no cotidiano do clube, vejo cerca de 40 jogos ou mais do meia pelo clube toda temporada desde que ele deixou a Vila Belmiro e voou para os lados do Morumbi. Ganso é um jogador extremamente útil ao São Paulo. Porém, sempre que se pensa em Paulo Henrique, em toda análise que um consumidor de futebol pensa em fazer, o fato do meia não ter atingido o nível absurdamente projetado por nós em seu início de carreira passa a ser o tema central. Não se pode, no Brasil, falar de Ganso sem condená-lo como culpado em uma problemática que nós mesmos criamos.

Ganso é sim culpado, assim como os demais que citei ou outros que nesse momento podem estar passando pela cabeça de vocês, leitores. Os alvos dos nossos delírios são culpados a partir do momento que compram nosso discurso. Quando Ganso ou qualquer outro vem a público reforçar nossas intermináveis lamentações, estão a contribuir com essa teia artificial que mistura ficção e realidade, mas a culpa para por aí. Indo até além, essa apropriação de discurso, esse acreditar ser especial não deixa de ser parte do processo que estou tentando tratar em meio a essas linhas.

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Por mais que seja óbvio em nossa mente que jogadores com potencial não estouram como “deveriam” por culpa própria, a coisa não me parece ser assim, tão simplista e crua. Projeção de carreira e avaliação de potencial são coisas tão subjetivas que não dão espaço a nenhuma certeza ou obrigação. Pato, por exemplo, hoje no Chelsea, não tem obrigação nenhuma de arrebentar no clube inglês para ser o atacante da Seleção, como não tinha no Corinthians, no São Paulo, no Milan, mas isso segue sendo reproduzido, alimentado, comprado em alguns momentos pelo próprio atacante. E adivinhem quem será alvo de cobrança se isso não acontecer? Ele, somente ele. Mesmo que não possua realmente a capacidade de ser um cara diferente, especial, Pato será cobrado por isso, pois um dia nós, irresponsavelmente, sem ônus, decidimos que ele seria um ponto fora da curva.

Sinceramente, não tenho intenção alguma de ditar regra, dizer como alguém deve pensar ou agir, mas me sinto na obrigação de levantar alguns debates e citar alguns pontos reflexivos sobre o dia a dia do futebol. Quando nós enxergamos um jogador com boas características e logo corremos para as redes sociais ou para nossos espaços de texto e tecemos empolgadas projeções, estamos mexendo com coisa séria, com carreiras, vidas, mentes. Estamos depositando expectativas sob as costas de outro ser humano sem que ele as peça, ou como nos casos citados, sem que eles as possam carregar. Nós já ajudamos muitos atletas a ter projeção, melhorar de vida ou “mitar”, como um Wendell Lira ou Caça-Rato da vida, mas nós também já atrapalhamos demais, mesmo que isso ainda seja difícil de assumir para nós mesmos e para os nossos iguais. A responsabilidade de uma carreira futebolística não é individual, mas também coletiva. Não é honesto tirarmos os nossos da reta sempre que nos for conveniente. Nós também erramos, e precisamos lidar melhor com isso.

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Jornalista graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e observador de esportes. Apenas acompanhar futebol nunca me foi suficiente, então decidi escrever e estudar sobre o jogo. Admiro a Premier League e o Chelsea, mas eu gosto mesmo é de respirar São Paulo Futebol Clube.

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