A redenção de Chicharito Hernández

  • por Raniery Medeiros
  • 1 year atrás

Chicharito Hernández foi por muitos anos o talismã de Sir Alex Ferguson. Notavelmente reconhecido pelo bom posicionamento na pequena área, fez gols importantíssimos para os Red Devils – principalmente contra o Chelsea. Mesmo no banco de reservas, desfrutava da confiança de seu treinador, sendo inclusive titular na final da Champions League de 2011. O atacante letal dos tempos de Chivas Guadalajara sempre esteve à disposição.

Nenhum atleta de ponta sente-se feliz na reserva. Por mais que Ferguson gostasse do futebol apresentado por “Javi”, chegaria o momento em que a má fase não o sustentaria no clube. A saída do escocês só acelerou esta certeza. David Moyes surgiu como alternativa, mas não o colocou para jogar. Das 38 partidas do United na Premier League, Chicharito só atuou em 24 delas, sendo que apenas 6 como titular. Por mais que a fase não fosse boa, como cobrar desempenho e qualidade de um atleta que mal entrava em campo?

Eis que o polêmico Louis van Gaal assumiu a equipe e deixou claro que não contaria com os serviços do mexicano – tanto que o desdenhou em dois momentos. O Real Madrid apareceu e o treinador holandês o emprestou aos merengues para a temporada 2014/2015. Tentativa de marketing ou não, atuou de maneira satisfatória, tendo feito o gol da classificação dos “Blancos” às semifinais da Champions League, na batalha contra o Atlético de Madrid. Os 9 gols na Espanha foram insuficientes para mudar a opinião do treinador do Manchester United.

O discurso de “dominar, criar e definir”, para o treinador holandês, não se enquadrava para o camisa 14. Sendo assim, nada mais justo do que liberá-lo para negociar, em definitivo, com outro clube. Sobre a relação com Van Gaal, o atleta foi bem claro e, em entrevista ao Spanish TV Show, disse:

“Van Gaal disse-me que já tinha seus atacantes, que eu teria de lutar por um lugar, mas que poderia me vender se chegasse uma proposta”.

Foto: Reprodução

                                                          

Javier Hernández chegou ao Bayer Leverkusen sob os olhares céticos da imprensa alemã. Como um atacante que vivia no banco de reservas poderia modificar o patamar de um time também desacreditado? A missão de Chicharito não seria fácil. Contudo, no mundo tão maluco do futebol, um bom jogador às vezes só precisa de confiança e valorização para demonstrar do que é capaz. E foi exatamente isso que ele pôs em prática.

Roger Schmidt o acolheu e, mediante as necessidades latentes do Leverkusen, colocou-o para jogar. Agora sim! Não se trata de um jogador fora de série, mas convenhamos que Hernández passa longe de ser um perna de pau. Confiança é tudo para quem amargou alguns anos de ostracismo, sendo utilizado apenas em momentos de sufoco. No Leverkusen ele não seria apenas “mais um”. Também em entrevista à Spanish TV Show, a mais nova aquisição do Bayer disse:

“Estive confiante desde o primeiro dia e me sinto importante aqui”.

Os olhares e comentários, outrora desconfiados, tornaram-se extremamente positivos mediante as partidas e os gols que ele fazia. “Javi” teve rápido entrosamento com seus novos companheiros e os gols foram surgindo naturalmente. Eleito o jogador da Bundesliga nos meses de Novembro e Janeiro, à época chegou a ter, sozinho, mais gols do que o ataque inteiro do Manchester United. Perguntado sobre isso, Van Gaal foi objetivo: “Os gols irão surgir. Estou convencido”. Outro fator que comprova a ótima recuperação do atacante: fez gols na Bundesliga, Copa da Alemanha e Champions League. Mas que mudança foi essa? Vamos aos pontos.

1 – Tranquilidade para jogar

“Chicharito estava impossível nos últimos minutos da partida e aí esta o porquê de você nunca poder tirar um jogador como ele de campo. Ele sempre é capaz de decidir uma partida.”

O atacante mexicano é hoje titular e prestigiado pelo treinador (as aspas acima só reforçam o pensamento de Roger Schmidt). Claro que a pressão é menor, mas não restam dúvidas de que atuar com frequência lhe garante frieza no momento de aproveitar as oportunidades em campo. Para quem entrava esporadicamente em alguns jogos, Chicharito vem mostrando sua qualidade partida após partida.

2 – Roger Schmidt precisava de um goleador

Com três competições em disputa, o treinador necessitava de um atleta renomado e matador. Por mais que Stefan Kiessling ainda seja importante para o time, não apresenta mais o futebol desenvolto de outrora. Mediante o novo esquema tático, que prioriza a velocidade, o mexicano daria mais opções a Schmidt.

Foto: site oficial do clube

Foto: site oficial do clube

3 – Esquema tático que lhe favorece

O time da atual temporada é mais vertical e incisivo. Seja 4-4-2 ou 4-2-3-1, percebe-se o toque de bola, a movimentação dos homens de frente e a objetividade da equipe. Ao contrário do que muitos pensam, Javier também sabe tabelar e atuar nas demais zonas ofensivas. A foto abaixo comprova o argumento.

foufourtwoFoto: FourFourTwo

Outro aspecto importante é a parceria com Karim Bellarabi. O alemão, que é muito veloz, está à procura do seu homem gol, principalmente no espaço entre o zagueiro e o lateral. Pensando rapidamente, e com as proporções devidamente guardadas, a dupla do Bayer apresenta semelhanças com Guilherme e Marques (Atlético-MG) – o arco e a flecha.

As variações do esquema de Roger Schmidt proporcionam maior liberdade ao camisa 7 que, mesmo atuando ao lado de Kiessling, não fica paradão ou esperando bola. Há uma interação enorme entre Bellarabi, Çalhanoğlu e o mexicano. Pelo meio, com Kampl, Kramer ou Brandt, também existe essa aproximação. A melhor partida de Javier Hernández na temporada foi realizada na goleada por 5×0 diante do Borussia Mönchengladbach, na qual formou dupla de ataque com Kiessling. Dupla sem movimentação? Não! Çalhanoğlu e Bellarabi jogaram abertos, dando movimentação e profundidade. Pelo meio, com qualidade no passe Kampl e Kramer.

4 – Vários assistentes

Pactuando da ideia tática imposta pelo treinador, o mexicano dá opção aos wingers e meio-campistas. Vejamos os companheiros que o deixaram na cara do gol.

Karim Bellarabi – 3 assistências
Stefan Kiessling – 2
Hakan Çalhanoğlu – 2
Julian Brandt – 2
Admir Mehmedi – 2
Giulio Donati – 1
Kevin Kampl – 1
Christoph Kramer – 1

5 – Sorrateiro e matador

O ponto técnico/fundamento mais criticado por mídia e torcedores encontrava-se na facilidade que ele tinha para ficar em impedimento. No Leverkusen a história vem sendo outra. Com várias equipes tentando agrupar sua linha defensiva, o matador vem aproveitando os vacilos cometidos por zagueiros e laterais adversários. Dos 23 gols na temporada, 7 foram feitos após uma infiltração feita no instante perfeito. Veja dois destes momentos abaixo.

chica vs bateChicharito recebe ótimo passe de Kampl 

chicha vs romaO camisa 7 supera a tentativa de defesa em linha da Roma 

Não dá para questionar a capacidade do camisa 7 do Bayer Leverkusen, tampouco desprezar seu ótimo momento na Alemanha. Feliz com o desempenho de seu atacante, Roger Schmidt disse:

“Ele se adaptou muito bem ao nosso estilo de jogo. O fato de estar marcando tantas vezes é extraordinário”.

De desacreditado e dispensado pelo Manchester United, Javier Hernández Balcázar busca sua redenção e vai conseguindo isso nos gramados alemães.

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