Com Blanc, Di María está voando

  • por Lucas Sousa
  • 1 year atrás

Ángel Di María é um jogador excepcional. Tem velocidade, saber ler o jogo, pode atuar em mais de uma posição e possui ótimos atributos técnicos. O argentino se tornou peça fundamental no Paris Saint-Germain de Laurent Blanc logo em seu primeiro ano, anotando 12 gols e 12 assistências em 32 partidas. Números (e atuações) bem melhores se comparados à temporada passada, quando balançou as redes 3 vezes e serviu seus companheiros em 10 oportunidades. O camisa 11 do PSG parece ser outra pessoa em relação àquele que vestiu a mística camisa 7 do Manchester United. O motivo? Principalmente, o técnico.

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Enquanto esteve com Carlo Ancelotti em Madrid, Fideo viveu um grande momento. Era o meia esquerda no 4-3-3 madridista com liberdade para chegar à frente, pelo meio ou pelo flanco, e criando um setor fortíssimo ao lado de Marcelo e Cristiano Ronaldo. Sem a bola, abria e se tornava um ponta, movimento que formava um 4-4-2 e permitia que Ronaldo ficasse à frente, à espera de um contra-ataque. Contra-ataque que se tornou uma das marcas desse time, que contava com a velocidade de Di María no meio e a do trio BBC no ataque. Dessa maneira, conquistou a Liga dos Campeões e chegou para a Copa do Mundo de 2014 como o argentino em melhor fase, melhor até que a de Lionel Messi.

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Sua passagem pela Inglaterra, no entanto, foi decepcionante. Louis van Gaal, treinador de Di María no Manchester United, merece respeito pela carreira que construiu. Afinal, não é qualquer um que treina Ajax, Barcelona, Bayern de Munique e a seleção holandesa. Mas é evidente que o técnico não soube tirar o melhor do argentino, como também não conseguiu com vários outros atletas do United. Na sua passagem por Manchester, o meio-campista foi um “coringa de luxo”: ora atuava aberto pela direita, ora pela esquerda, ora pelo centro, mas em nenhum lugar encontrou seu bom futebol. A formação base daquele time era o 4-3-3, a mesma do Real em que ele brilhara na temporada anterior, mas talvez essa mudança frequente de função tenha atrapalhado a adaptação do argentino ao novo clube, que também não era tão sólido quanto o Real Madrid.

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Agora, vestindo as cores do Paris Saint-Germain, o meio-campista voltou a apresentar um excelente futebol. Novamente no 4-3-3, mas agora numa posição diferente e que extrai suas melhores qualidades. Di María é um extremo direito com total liberdade para circular nas outras áreas do campo enquanto o time ataca, principalmente na zona central. Se na Espanha ele partia do meio para a beirada, na França ele parte da beirada para o meio. Esse movimento é fundamental para o bom funcionamento do sistema ofensivo parisiense, que preza pela posse de bola, busca pela superioridade numérica e um ataque bastante móvel. As duas partidas frente ao Chelsea, pela Liga dos Campeões, foram decididas a partir da movimentação do seu camisa 11.

No Parc des Princes, o jogo estava empatado e caminhando para os minutos finais quando Di María apareceu para colocar Cavani na cara do gol. Fideo começou a jogada aberto pela direita e fez uma leitura perfeita quando a bola chegou até Ibrahimovic, no centro: ele se aproximou do sueco e criou uma pequena zona de dois contra um. Parecia faltar pernas ao Chelsea que já não pressionava com tanta intensidade, cedendo tempo e espaço para o argentino virar e lançar o uruguaio entrando nas costas da defesa. Méritos para o atacante, que soube se posicionar e infiltrar no momento exato, e também para o meio-campista, que identificou uma situação favorável para seu time e realizou com precisão.

Foto: Reprodução/BT Sports - Di María e Ibra contra Fàbregas pelo centro. Movimentação do argentino criou a vantagem e proporcionou a assistência para Cavani

Foto: Reprodução/BT Sport – Di María e Ibra contra Fàbregas pelo centro. Movimentação do argentino criou a vantagem e proporcionou a assistência para Cavani

Em Stamford Bridge, a situação se repetiu. Enquanto a bola estava no círculo central, Fideo se aproximou e criou outro setor de superioridade numérica, agora três contra dois. Quando o camisa 11 recebeu ele teve espaço para girar, progredir e aproveitar a infiltração de Ibrahimovic, que cruzou para o gol de Rabiot. Mais uma vez a ideia de Blanc para a equipe funcionou com perfeição. O PSG adora ter mais jogadores que o adversário no centro do campo, isso facilita a troca de passes e constrói possibilidades de tabelas e infiltrações, exatamente o que aconteceu neste lance.

Foto: Reprodução/BT Sports - De novo o camisa 11 por dentro criando superioridade numérica. Na sequência, teve tempo e espaço para avançar e achar Ibrahimovic

Foto: Reprodução/BT Sport – De novo o camisa 11 por dentro criando superioridade numérica. Na sequência, teve tempo e espaço para avançar e achar Ibrahimovic

Se no centro do gramado Ángel demonstra toda sua visão de jogo e qualidade nos passes, quando está na beirada explora sua velocidade. Nesse novo posicionamento, ele frequentemente aparece na região central procurando superioridade numérica e passes perigosos, mas também joga pelas laterais e agride muito por ali. Foi assim no gol que sacramentou a classificação parisiense. Bem aberto pela esquerda, Di María percebeu o grande espaço que existia atrás do lateral Azpilicueta e sinalizou pedindo a bola naquele pedaço de campo. Com terreno livre para correr, ele recebeu e centrou para Ibra só empurrar para a rede. Pela terceira ocasião no confronto de 180 minutos, o argentino leu corretamente a situação e realizou aquilo que era preciso para criar oportunidade de gol.

Foto: Reprodução/BT Sports - Di María bem aberto e pedindo a bola no espaço vazio. Seu posicionamento faz o lateral deixar a linha e abrir o buraco a ser explorado.

Foto: Reprodução/BT Sport – Di María bem aberto e pedindo a bola no espaço vazio. Seu posicionamento atrai o lateral e o faz deixar a linha, abrindo o buraco a ser explorado.

Em Paris, Di María voltou a mostrar aquele futebol que o colocou como melhor argentino em 2013/2014. Fideo caiu como uma luva no Paris Saint-Germain: ele participa dos mecanismos coletivos para criar as melhores oportunidades para seus companheiros e sabe explorá-las quando ele é o alvo dessas construções em conjunto. E Laurent Blanc merece elogios pela boa fase do seu jogador, afinal, foi ele quem escalou Di María aberto e estabeleceu suas movimentações dentro do campo, assim como fez com todos os outros atletas. Essa situação ilustra bem a importância do treinador no desempenho de seus comandados. Depois de um ano ruim no bagunçado Manchester United, o argentino está voando em uma equipe mais organizada e melhor. Talvez Di María não seja do tipo que carrega o time nas costas, mas é um jogador espetacular quando tem boas companhias e um técnico capaz de pensar e colocar em práticas conceitos que encaixem com seus atletas.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.