DPF Entrevista: Primeira Liga busca respaldo, mas sonha alto

Arte: DPF

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Se a Copa do Nordeste surgiu do entendimento entre as federações da região, com uma bênção posterior da CBF, o mais novo regional do país irrompeu em 2016 como um torneio nascido da discórdia: ignorado por paulistas, boicotado por cariocas e menosprezado pela CBF. Assim, contra o establishment do futebol nacional, mas com amplo apoio entre torcedores e setores da imprensa, nasceu a Primeira Liga.

Uma conquista que Gilvan de Pinho Tavares, presidente da associação, definiu como uma “queda de braço vencida” em entrevista exclusiva a este especial bipartite do Doentes por Futebol. O presidente do Cruzeiro falou sobre uma proposta que a Primeira Liga levará à CBF: a ideia de um torneio reunindo os campeões da Copa do Nordeste, Copa Sul-Minas-Rio, Copa Verde e Campeonato Paulista – cujos clubes ele não pareceu, no entanto, muito convicto de que seja capaz de seduzir.

Para Gilvan, a tendência é que a CBF não se posicione contra uma liga organizada pelos clubes – ele crê que cuidar só da Seleção seria o melhor para a entidade. Nesse contexto, o dirigente desenha um cenário em que as 40 agremiações das séries A e B terão essa autonomia. Foi para tentar projetar as próximas transformações na estrutura do futebol brasileiro (em um futuro não muito distante) que o Doentes por Futebol procurou as lideranças desses dois personagens cruciais do contexto político e econômico do esporte no país.

Presidente cruzeirense enfrentou muitas tormentas para ratificar torneio (Foto: Reprodução)

Presidente cruzeirense enfrentou muitas tormentas para ratificar torneio (Foto: Reprodução)

Leia a entrevista com o presidente da Primeira Liga e tire suas conclusões. Afinal, com tantas instituições tão enfraquecidas, as possibilidades parecem muitas.


Como está o diálogo com os clubes paulistas sobre a inclusão deles na Primeira Liga?

Não teve nenhum diálogo ainda. Os clubes têm uma situação diferente de todos os outros do Brasil, porque eles têm uma cota no campeonato deles muito maior do que todo mundo tem no Brasil. Então, eles não vão abrir mão para entrar na Primeira Liga.

Quais são os planos de expansão da Primeira Liga?

O que se pensou, e a Primeira Liga vai levar a proposta para a CBF para o calendário de 2017, se possível, ou 2018, é que o campeão da Primeira Liga, o Campeão do Nordeste, talvez, da Copa Verde e o campeão paulista disputassem um torneio e ele desse uma vaga para a Libertadores, para valorizar mais os nossos torneios. Evidentemente, os clubes de São Paulo vão ter todo o interesse nisso, porque teriam mais uma vaga e isso valorizaria as competições. Mas está dentro de pleito e vamos levar para a CBF ainda, porque isso foi discutido apenas em assembleia geral nossa.

O que mais a Primeira Liga está propondo à CBF?

Nós mandamos ainda a posição da Primeira Liga com relação à reforma do estatuto da CBF, que vai acontecer em assembleia geral. E nós estamos bem apoiados nas reivindicações que estamos fazendo. Dentre elas, a de reforçar a nossa posição de que os vinte clubes da Série A e os vinte da Série B tenham voto em qualquer assembleia da CBF, inclusive na eleição.

Hoje, existe algum contato entre a Primeira Liga e a Copa do Nordeste?

Pretendemos, mas é porque fizemos essa assembleia geral semana passada, não tivemos tempo ainda de procurar ninguém. A não ser mandar para as pessoas que vão participar desse estudo para reforma do estatuto da CBF, essas questões que nós colocamos.

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O senhor enxerga na Copa do Nordeste alguma lição que possa ser tirada para a Primeira Liga?

A Copa do Nordeste já é um sucesso. Ela recebeu todo o apoio da CBF e nós não recebemos, foi o contrário. Foi uma oposição muito grande da CBF. Inclusive, para que não se realizasse a competição em 2016, para atender à reivindicação do presidente da federação carioca.

Na opinião do senhor, a Primeira Liga já é uma competição consolidada?

Foi uma queda de braço enorme e a CBF acabou sendo obrigada a ceder por causa da posição firme dos clubes que compõem a Primeira Liga. E o torneio se realizou, está sendo um sucesso. Embora a CBF tenha divulgado de forma negativa a competição, dizendo que eram jogos amistosos, que não valiam nada, desprestigiando e tentando desmoralizar a competição. Mas tenho certeza: já ganhamos a queda de braço. E em 2017, será uma competição oficial da CBF. E tem tudo para ser um produto muito mais rentável do que foi em 2016.

Como o senhor enxerga esse possível Campeonato Brasileiro organizado por uma liga de clubes?

Isso é uma ideia que surgiu agora, que evidentemente, vamos discutir, porque envolve no mínimo 40 clubes. Vai ter uma liga para discutir o Campeonato Brasileiro da Série A, uma liga para discutir o Brasileiro da Série B. Porque não tem condição de uma liga só fazer tudo. Vamos fazer como na Europa, uma coisa moderna. Mas que a competição seja organizada pelos clubes. E a CBF não é avessa a essa ideia de ficar cuidando só da Seleção, que é melhor para ela.

Mas pelo pouco contato entre Primeira Liga e Liga do Nordeste, o senhor acha possível que essa outra competição fique marginalizada?

A Liga do Nordeste e a Primeira Liga não têm nada a ver com o Campeonato Brasileiro. Seria uma outra competição, uma outra coisa. Não seria organizada por essa Primeira Liga, que chamou-se Sul-Minas, nem pela Liga do Nordeste, Iríamos organizar uma liga, que seria nacional, para organizar as competições do Campeonato Brasileiro.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.