Kane e Vardy fazem Inglaterra sonhar – e tiram sono de Rooney

Kane e Vardy, a dupla que ameaça a titularidade do maior artilheiro da história da Seleção Inglesa (Foto: The FA)

Kane e Vardy, a dupla que ameaça a titularidade do maior artilheiro da história da Seleção Inglesa (Foto: The FA)

A Inglaterra é dona do maior paradoxo do futebol de seleções. Enquanto tem em seus gramados uma liga que é, há pelo menos uma década, considerada por muito como a de mais alto nível no mundo, o English Team vive uma seca constrangedora de meio século sem títulos. E como a expectativa é sempre alta, pela qualidade de que a seleção costuma dispor, a queda é sempre maior ainda. Em 2016, às vésperas da Euro, o país parece viver o mesmo ciclo. Um daqueles momentos de otimismo que costumam anteceder as grandes competições: o famoso “agora, vai!”.

Primeiro, porque há vários jogadores nacionais brilhando na Premier League. Mas essa não é a grande novidade – até porque os ingleses, desde o início dos anos 2000 vêm contando com talentos em quase todos os setores do time. A grande esperança dessa vez é na fartura de goleadores em fase iluminada. Se antes faltava um parceiro de qualidade para Wayne Rooney – Carroll, Crouch e Heskey que o digam -, agora, até mesmo a vaga do maior artilheiro da história da seleção está em xeque. A temporada sensacional de Jamie Vardy e Harry Kane deixou o capitão, que se recupera de uma lesão no joelho, ameaçado.

Os centroavantes protagonizam uma disputa que ainda não tinha acontecido no atual século: são os dois líderes da tabela de artilheiros do Campeonato Inglês. Com 21 gols, Kane se recuperou de um início de temporada ruim e abriu dois tentos de vantagem sobre Vardy, matador do surpreendente Leicester. Desde 2000, quando Kevin Phillips e Alan Shearer duelaram pela Chuteira de Ouro (ver boxes), muitos atacantes de alto nível levaram o prêmio: Henry, Van Nistelrooy, Drogba, Berbatov, Aguero e Van Persie, entre outros. A coincidência: nenhum deles é inglês.

Foto: Arquivo/Arte: DPF

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No amistoso do último sábado, contra a Alemanha, a Inglaterra perdia por 2 a 0 e alcançou a virada nos acréscimos da segunda etapa – sem Rooney, e com gols de Kane e Vardy. A vitória sobre os campeões mundiais, em Berlim, deu uma grande injeção de ânimo, mas também colocou uma grande interrogação entre os torcedores: será que a equipe precisa mesmo de seu capitão, que não vem de boas temporadas no errante Manchester United?

Arte: DPF

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O técnico Roy Hodgson foi taxativo ao cortar pela raiz, logo na coletiva após a histórica vitória, os questionamentos sobre o futebol do seu líder, responsável por 6 gols do time nas Eliminatórias para a Euro. “Wayne, eu repito, é nosso capitão e tem comandado nosso time extremamente bem nos últimos dois anos”, pontuou.

Para defender Rooney, o treinador ressaltou a importância do jogador na trajetória que levou a Seleção a garantir vaga na Eurocopa. “Ele nos conduziu durante a campanha classificatória, quando vencemos dez de dez jogos. Não me agradam muito essas sugestões de que ele seja sacrificado de alguma forma, agora que ele está machucado e não está jogando. Ele não merece isso”, disparou.

Técnico saiu em defesa de seu capitão, mas não garantiu ele como titular absoluto (Foto: Reprodução/Youtube)

Técnico saiu em defesa de seu capitão, mas não garantiu ele como titular absoluto (Foto: Reprodução/Youtube)

Hodgson garantiu que o artilheiro histórico da seleção inglesa estará de volta assim que estiver pronto fisicamente. Mas não deu certeza de que ele seguirá como titular absoluto. Deu a entender que Rooney será mais um – e apenas isso – em seu leque de opções para a disputa da Eurocopa. “Vardy entrou e foi muito bem, e Kane foi excelente ao longo do jogo. Por ora, eu vou curtir isso. Quando Rooney voltar e estiver em condições de novo, ele vai colocar uma enorme pressão sobre esses jogadores (Vardy e Kane), assim como eles também vão colocar pressão – essa é a situação que estamos desejando”, avaliou.

Referência

Artilheiro do Tottenham vive grande fase, mas mostrou respeito a Rooney (Reprodução: Youtube)

Artilheiro do Tottenham vive grande fase, mas mostrou respeito e carinho pelo capitão Rooney, ausente por lesão (Reprodução: Youtube)

Maior candidato a tirar Rooney do time, Harry Kane não se esquivou de perguntas sobre o capitão após o jogo em Berlim. “Wayne é um jogador fantástico, é decisivo para nós e uma grande pessoa para se ter por perto. Roy (Hodgson) já deixou claro que o quer envolvido. Tudo que posso fazer é continuar trabalhando duro e dar ao treinador um problema”, comentou.

O artilheiro da Premier League também se mostrou otimista com a gama de opções à disposição do técnico. “Ele (Hodgson) quer todo mundo na melhor forma e se aplicando. Eu tenho certeza que é um problema que ele está gostando de ter. Wayne e Raheem (Sterling) são grandes jogadores e estou certo de que eles vão voltar ao time. Todo mundo está lutando por suas vagas e é disso que o país precisa, só vai nos tornar melhores”, projetou.

Juntos?

Diante dessa grande fase de Kane e Vardy, nem mesmo o recorde histórico do capitão com a camisa do English Team tem servido para manter setores da torcida confiantes de que ele deva seguir como titular. Além do fato de viver um momento conturbado com o seu Manchester United, muitos críticos defendem ainda que Rooney e o astro do Tottenham não são capazes de atuar juntos. É o que diz Dietmar Hamann, ex-jogador do Liverpool, que vê a necessidade de um jogador mais veloz no lugar de um deles.

Rooney já exerceu papel mais recuado durante muito tempo em sua carreira (Raí Monteiro/Tactical Pad)

Rooney já exerceu papel mais recuado durante muito tempo em sua carreira e poderia voltar a fazê-lo para seguir como titular (Raí Monteiro/Tactical Pad)

Para Rooney, no entanto, não seria novidade atuar em um setor um pouco mais distante do comando de ataque. Durante muito tempo, no United, ele abdicou de finalizar jogadas para abrir espaços e criar oportunidades de gol para Robin Van Persie, Berbatov, Cristiano Ronaldo e Tevez, entre outros. Mais recuado, o capitão inglês poderia jogar ao lado de jogadores leves como Alli e Sterling para alimentar um (ou os dois) artilheiros à frente.

Arte: DPF

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21 gols. Nos últimos quinze anos, só dois atacantes ingleses balançaram tanto as redes rivais em uma edição de Premier League – ninguém menos que Rooney e Shearer, líder e segundo lugar na artilharia histórica da competição. Em 2013/2014, ao lado de Luis Suárez, Daniel Sturridge quase levou o Liverpool a um improvável título nacional que quebraria um jejum de mais de duas décadas. Canhoto, técnico e excelente finalizador, ele despontou como uma alternativa real para o ataque da seleção inglesa.

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Só que desde então, o atacante tem ficado muito mais tempo longe do que dentro dos gramados. Incontáveis lesões têm comprometido o desenvolvimento do seu potencial, e impedido que ele consolide seu espaço na seleção. Recuperado e de volta à ativa há quase dois meses, ele foi convocado novamente após 19 meses fora da lista do técnico inglês. E foi elogiado.

“Estamos felizes de ter à disposição e batendo à porta um jogador de qualidade como Daniel. Tentando deixar claro que merece ser titular. Tudo que posso fazer é dar-lhe a oportunidade. Espero que ele continue recebendo oportunidades no clube e as aproveite. Ele voltou a ser o jogador que era”, comemorou Hodgson, que deve lançar o atacante como titular no amistoso desta terça contra a Holanda.

Atacante corre contra o tempo para reconquistar a confiança do técnico (Foto: The FA)

Atacante corre contra o tempo para reconquistar a confiança do técnico (Foto: The FA)

“Existe um elemento de risco em convocar jogadores com histórico de lesões, eu não posso negar. Mas também não posso negar que temos que colocar todos os fatores na equação para tomar uma decisão final. Eu não vejo nenhuma razão para duvidar dele e de sua capacidade de mostrar que é o homem para a missão. Mas as próximas semanas vão ser importantes, porque eu quero vê-lo jogar mais e entrar em forma”, concluiu.

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Recifense, rubro-negro, apaixonado por música e estudante de Jornalismo. Sócio-diretor do Doentes por Futebol, com passagens por Seleção do Rádio e SuperesportesPE. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.

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