O primeiro capítulo pós-revolução chilena

  • por Victor Mendes Xavier
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O Chile inicia na noite desta quinta-feira, às 20h30 (horário de Brasília), na sua gloriosa Santiago, o capítulo 1 após o término da obra mais dourada da história da sua seleção nacional de futebol. Depois da revolução iniciada por Marcelo Bielsa, em 2007, e concluída de maneira absoluta por Jorge Sampaoli, em 2015, nenhum fã de futebol duvida: a (historicamente) tão desdenhada La Roja está na elite do esporte bretão. Durante mais de 100 anos, somente a impactante cor de sua camiseta o distinguia das demais. Até a famosa alcunha ficou sob alerta de ser jogada para escanteio, já que a Espanha, que dominou o futebol mundial entre 2008 e 2012, foi perdendo cada vez menos a “Fúria” para fixar a “Roja”.

Em âmbito internacional, as primeiras pinceladas foram datadas entre 2009 e 2010, quando Alexis Sánchez, Arturo Vidal e uma equipe que não parava de correr por um segundo, movia-se na velocidade da luz e se defendia na área adversária começaram a ganhar as primeiras capas de jornais. Somente um alerta do que viria pela frente. Nesse tempo, o Chile colecionou derrotas, claro. E, quanto mais expectativa criava, mais decepcionava (vide a Copa América de 2011 e a vexatória eliminação para a Venezuela). Porém, em contrapartida, a cada jogo uma identidade própria era criada, além de uma maturidade que seria essencial no momento que a equipe teria onde não poderia falhar.

Hoje, dia 24 de março de 2016, o Chile não tem mais Sampaoli, mas até a bola rolar no Nacional de Santiago para o confronto contra a Argentina, pela quinta rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia, em 2018, ninguém questiona que os chilenos jogam o futebol mais “pessoal” do mundo. Menos de um ano atrás, fazia história ao conquistar seu primeiro título. O ultra agressivo estilo de Sampaoli provocou durante três anos um efeito impossível de ser desativado por qualquer outro rival: enquanto os pulmões dos jogadores estavam cheios de oxigênio, o script de um jogo era escrito a partir do ritmo do Chile. Atacar com tanta gente criava um perigo frequente. Com a bola, tudo era feito com muita verticalidade; sem a bola, uma energia contagiante para pressionar que implantava ao adversário um cenário de desconforto total: os inimigos do Chile careciam de planos para pausar a bola e frear a voracidade de La Roja.

Por ironia do destino, o capítulo de maior audiência da Revolução Chilena foi contra a Argentina, país natal dos seus revolucionários. Quando Alexis Sánchez converteu com extrema categoria e frieza o pênalti que deu ao Chile a permissão de levantar o troféu da Copa América naquele inesquecível 4 de julho de 2015, Marcelo Bielsa sorria em algum lugar do mundo. El Loco e Sampaoli serão eternamente considerados os autores do projeto que modificaram os genes da Roja por meio de uma série de experiências vividas nos últimos nove anos, cujo triunfo deixa um legado não só futebolístico no país, como social às próximas gerações.

A vitória na competição continental legitimou ainda mais a fé chilena na grandeza do futebol. O Chile decidiu pressionar sempre (e muito à frente) porque buscou, desde os primeiros passos, ser protagonista e orgulhoso. De certa forma, o atual ciclo carece de envergadura e especialistas defensivos para se posicionar recuado. Portanto, o Chile decidiu atacar com todos e viver longe do gol de Cláudio Bravo porque assimilou um sistema de continuidade desde que Bielsa assumira o comando. Se o Chile não tentar dominar a partida, vai receber uma chuva de ocasiões de gols e sofrer. A intensidade, coerência e profundidade de sua proposta mataram dois pássaros com um certeiro disparo. O Chile necessitava ganhar a Copa América para encerrar o período da melhor maneira possível, mas a forma escolhida para chegar até tudo isso já seria recordada. Poucas coisas foram tão poderosas e carismáticas.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.

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