Suárez na Arena Pernambuco

  • por Victor Mendes Xavier
  • 2 Anos atrás

Quando o calendário da Conmebol indicava que Brasil e Uruguai se enfrentariam na quinta rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, muitos criaram expectativa. Não somente por toda a rivalidade e romantismo que envolve o confronto, mas por um motivo em especial: o retorno de Luis Suárez à Celeste. Desde o fatídico episódio da mordida em Chiellini em território brasileiro durante a Copa de 2014, o Pistoleiro não sabia o que era vestir o uniforme que tanto ama e respeita. Suárez é um obcecado por vitória, e se doa em campo ao longo dos 90 minutos de uma forma raramente vista na história desse esporte. Pelo Uruguai, que, historicamente, sempre se destacou pela garra em detrimento de uma maior finura técnica, o dentuço se sente mais em casa do que em qualquer outro lugar. E, mais uma vez, firmou uma exibição digna de sua carreira.

Antes de Suárez começar sua concerto à parte, o Brasil ensaiou um domínio. O 4-1-4-1 que se travestia de 4-3-3 oferecia ao trio de ataque (William, Neymar e Douglas Costa) total liberdade e fluência para revezarem posição. O gol precoce, com menos de um minuto, permitiu à Seleção jogar de maneira contundente e alugar o campo do Uruguai com maior confiança. Neymar capitalizou os ataques, mas era na direita, com William, que o time de Dunga criava maior perigo. Até porque os apoios de Daniel Alves deixavam Álvaro Pereira em inferioridade numérica e, dessa forma, o lateral uruguaio agonizava. Além disso, o miolo de zaga formado pelos atrapalhados Coates e Victorino não inspiravam confiança e o Brasil, percebendo isso, passou a esticar a bola. Talvez aí, a presença de um 9 de origem teria tido um resultado positivo, pois, com Neymar vindo de trás, faltou a presença de uma referência que fixasse os defensores.

O Uruguai forçava através de sua bola parada. Atrás, a ordem de Dunga era antecipar sempre. Por mais que, contra Suárez, tentar ganhar a primeira bola seja difícil, o Brasil controlou as segundas jogadas com um respeitável índice de roubo a partir de um intenso Fernadinho. Quando Luisito dominava e girava, lá estava um, até então, atento David Luiz para atrapalhá-lo. A falta de profundidade obrigou Suárez e Cavani, os dois atacantes, a se deslocarem muito aos lados, o que deixou Miranda e David Luiz em um estado de comodidade.

No entanto, bastou uma falta de atenção para o Uruguai crer que poderia reverter o marcador. Quando Álvaro Pereira passou do meio de campo pela primeira vez e cruzou para um Sánchez, desmarcado, tocar para um também livre Cavani diminuir, o pane bateu na seleção. A confiança era tanta no resultado que a displicência da Canarinho pode ser resumida no gol do atacante do PSG: Filipe Luís recebeu uma bola nas costas e David Luiz, muito mal posicionado, deixou Cavani em um estado de comodidade para concluir.

Na volta pra segunda etapa, Óscar Tabárez corrigiu o erro dos primeiros 45 minutos: liberar os lados para Douglas Costa, William, Neymar e Daniel. O 4-3-1-2 não exigia tanta responsabilidade de Cavani, e um convite à ponta esquerda do 4-1-4-1 do comandante uruguaio destruiu o planejamento de Dunga. O Brasil perdeu metros; Fernandinho e Renato Augusto não continham Cristian Rodríguez e Sánchez e as mudanças do técnico gaúcho não surtiram efeitos, evidenciando a perda de controle na medular. Phillipe Coutinho e Lucas Limas entraram muito frios e não melhoraram a produção por dentro. Neymar, que gozou de contexto para liquidar o encontro nos primeiros 25-30 minutos do jogo, ficou ilhado e, sem Douglas e William, a Seleção perdeu em chegadas de trás, cruzamentos e jogo exterior.

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A partir daí, Suárez tornou-se um verdadeiro pesadelo para toda a retaguarda brasileira. Primeiro, por oferecer um repertório de desmarques ao espaço dignos de um classe mundial. Um deles, deslocando-se em diagonal à esquerda, resultou no gol de empate, depois de David Luiz não tentar interceptá-lo. Em seguida, o Pistoleiro não deu uma trégua para os dois defensores, seja correndo para marcá-los sem a bola ou tendo a posse em seus pés. Nesse último aspecto, cabe destacar que ele não torturou a defesa com dribles secos ao estilo Agüero, arrancadas tal qual Messi ou a imprevisibilidade de Ronaldo. Mas Suárez não facilita nada. Nada. E quanto mais se movia (e ganhava as disputas individuais), mas abalava psicologicamente David. Até mesmo o sempre sereno Miranda parecia ter entrado em choque.

Quando Suárez se concentra à seu modo, impõe uma exigência elevadíssima. O Brasil de David Luiz não está preparado para esses desafios. Nem um pouco. Um ano e meio depois do 7 a 1, o defensor ainda sente os resquícios da humilhante derrota e passa a sensação que isso será eterno. Disputa cada bola com um grau de desconforto e ansiedade visíveis. Contra um assassino Suárez, um passo em falso e você perde o jogo. A Seleção não perdeu porque o próprio 9 desperdiçou a bola da virada frente a Allison. Mas a Canarinho sai de Recife rumo a Assunção, no Paraguai, com um gosto amargo na boca.

Ao contrário de Suárez e seu Uruguai, que mais uma vez deram uma lição de garra e confiança. Definitivamente, a presença do 9 barcelonista impactou Recife.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.