Um brinde à historia

A mística que permeia o universo futebolístico é de um encanto sublime e imensurável. Para nós, mais jovens, nem mesmo as limitações impostas pelo tempo são capazes de nos desprender dos laços com o passado. Ouvir as fascinantes histórias contadas por nossos avós fazem com que essa barreira imposta pelo passar das décadas se torne mero detalhe. Se por um lado, nos sentimos castigados pelo destino não ter nos agraciado com as belíssimas e lendárias carreiras de Cruyff, Maradona e Pelé, por outro, também devemos agradecê-lo pelo privilégio de ver e viver o que ainda resta do bom futebol. Afinal, nossa geração também teve (e ainda tem) seus atrativos e que felizmente não se resumem à tecnologia, chuteiras coloridas e selfies.

A morte de Cruyff fez vir à tona uma saudade daquilo que sequer vivi. Em meio a lúgubre madrugada, perdi horas imaginando o quão rico já fora o futebol e o quão feliz eu sou de saber que pude aproveitá-lo, mesmo que por relatos históricos. O espetáculo que esse esporte nos proporciona é completamente fascinante! É secular! Com o passar dos anos, as lendas padecem, mas seus legados ficam. Muito em função do brilhantismo daqueles que dedicam suas vidas para contar a história do futebol.

Então lhes pergunto: qual a diferença dos que preenchem essas páginas para os considerados gigantes no meio futebolístico? Pelé, Garrincha e Didi tiveram Nelson Rodrigues em suas vidas. Ronaldo, Rivaldo e Alex, por azar, não. Nasceram na época errada. Certa vez Armando Nogueira escreveu que “basta uma lágrima de amor para imortalizar o futebol de um super craque”, se, durante a leitura deste pequeno artigo, te der vontade de chorar, chore. Nesta obra, fazemos justiça com as próprias mãos com uma única finalidade: tornar seus ídolos imortais.

Até por que as chuteiras envelhecem, a bola murcha, a força física pode até ter se esvaído do corpo e os batimentos cardíacos terem cessado, mas o legado que esses craques deixaram é eterno para a história do futebol.

Assim como num passado mais distante tivemos a mente brilhante de Cruyff, o perfeccionismo de Pelé, a classe e exuberância de Beckenbauer, o destino se encarregou de presentear o mundo com outras figuras históricas. É nostálgico recordar figuras como o esplendoroso Van Basten ou o polêmico Éric Cantona.

Em todas as épocas, posições e variedades. Tem craque pra todo gosto! Dos lançamentos cirúrgicos de Beckham aos chutes certeiros de Luís Figo. Da elegância de Zidane à raça pura de Pippo Inzaghi. Passando pelo cérebro de Rivaldo e pela precisão de Shevchenko, para finalmente chegar ao controle de bola de Leo Messi e à potência de Cristiano Ronaldo. Sem esquecer as asas de Makélélé e do futebol vertical de Jay-Jay Okocha. O futebol é um verdadeiro mundo à parte e seus craques são personagens únicos, dignos cada um de uma história contada pela Marvel/DC.

Quando um atleta da magnitude de Johan Cruyff deixa o reino dos vivos, o momento não é só para tristeza e lamentos, é sobretudo, para reflexão. O tempo passa, o mundo gira, a vida continua, porém, a história permanece. A morte física é só um fecho daquilo que o torcedor sente quando um dos seus ídolos pendura as chuteiras. Pergunto-lhes, qual adepto do Manchester não sente falta dos primorosos lançamentos de Scholes ou as botinadas de Roy Keane? Que Gunner não sonha todos os dias com as arrancadas de Henry ou lances primorosos de Bergkamp?

A nostalgia que invade o peito do amante do futebol se aflora em momentos como esse. A gente vira e mexe, mas e o passado? Esse a gente nunca esquece. Então cai a ficha e percebemos que o tempo não volta, o que volta mesmo é a vontade de regredir no tempo. O nome de Puskas e Di Stefano soa como poesia para os madridistas. A simples pronúncia da palavra Falcão, faz o súdito de Roma reverenciar de joelhos aquele que é seu eterno rei e tem tanta história quanto o imperador Júlio César.

Quarenta anos depois da belíssima campanha em 74, o mundo inteiro se rende ao talento de um revolucionário. O motivo? É simples: história! Por isso venho propôr um brinde à ela! Se existirá um novo Cruyff algum dia? Tenho certeza que não, mas esperamos que personagens com sua audácia e talento surjam, afinal, sem querer comparar, mas depois do mestre holandês já vieram muitos outros craques, não é? O futebol é um celeiro de constante reprodução, é um nascedouro de talentos, uma fonte inesgotável de onde se emanam paixão, criatividade e habilidade.

Esperamos ansiosos que Deus continue nos presenteando com homens do naipe de Rui CostaFrank De Boer, Juan Roman Riquelme ou Alessandro Del Piero. Poderia citar também Eusébio e Bobby Charlton que são verdadeiras entidades sagradas para Benfica e Manchester ou até o próprio deus, que atende na terra, segundo o próprio, pelo nome de Zlatan Ibrahimovic. Além de uma honrosa citação aos incontáveis mitos que desfilavam seu futebol na Baviera, tais como Gerd Muller, Lothar Mathaus e Paul Breitner.

Na arte de defender, nenhum foi tão primoroso quanto Maldini. Esplendoroso e completo, deixava até Cannavaro boquiaberto. A Azurra que sempre abasteceu o mundo com seus homens de defesa, ainda teve Baresi e Nesta pra provar que sempre fora o maior celeiro de bons defensores. Lógico que o Brasil de Lúcio, Djalma Santos, Bellini e Mauro Galvão não fica muito para trás. Mas defensor melhor que a Itália, país nenhum no mundo faz.

Injusto seria, aos grandes goleiros não fazer menção. De herói à vilão, eis o fardo de uma posição! Quando o assunto é fechar o gol, existem inúmeras referências, seja com o plástico Oliver Kahn ou Van Der Sar, que era pura eficiência. Falar de arqueiros é falar de Lev Yashin, a maior lenda do leste europeu. Enfim, Seja guardada por Iker Casillas, Gianluigi Buffon, Sepp Maier, São Marcos ou Rogério Ceni, a pequena área sempre teve personagens históricos, lógico que nenhum tanto quanto Romário, basicamente morava ali.

https://www.youtube.com/watch?v=0pLLCyBVrQ4

O mundo precisa de magia e não há esporte mais mágico que o nosso, Ronaldinho, o rei do “dibre” que o diga! O doente por futebol clama para que Neymar, Pogba, Dybala, Coutinho, Martial e Hazard façam jus à história que os precede, porque enquanto um único talento prevalecer, o legado do futebol estará mantido e as histórias de craques como Cruyff poderão ser contadas de geração a geração.

Porque o futebol é isso. É passado, presente e futuro. É eterno e incomparável. O tempo haverá de passar, mas a epopeia restará intacta na mente e nos escritos de quem o ama.

Filipy é pernambucano e tem 21 anos, vive e respira futebol, inclusive já furou encontro com a própria namorada para jogar descalço nos sórdidos gramados sertanejos. É no esporte bretão que o estudante de Direito encontra o seu maior refúgio nas tardes negras de domingo. (Colunista - Manchester United Brasil)

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