Milan, um moedor de treinadores

  • por Lucas Martins
  • 2 Anos atrás

“O AC Milan comunica a destituição do treinador em atividade, agradecemos pelo trabalho realizado”. Nos últimos tempos, mais precisamente nos dois últimos anos, esta frase vem aparecendo bastante no site oficial rossonero. Rompendo com a tradição europeia, o Milan transformou-se num grande triturador de técnicos.

São mil planejamentos quebrados, inúmeras ideias abandonadas pelo caminho. Não menos importante do que isso, há um débito financeiro que cresce em função da pressa. Há alguns dias foi Mihajlovic, mas ‘Pippo’ Inzaghi, Seedorf e Allegri também conheceram a porta de saída milanista recentemente. Todos são culpados? Não. Duro é colocar isso na cabeça de Silvio Berlusconi.

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Foto: Facebook.com/ACMilan

Cinco técnicos em dois anos

Massimiliano Allegri, Clarence Seedorf, Filippo Inzaghi, Sinisa Mihajlovic e agora Cristian Brocchi. Desde janeiro de 2014, o Milan acumula cinco comandantes diferentes; fora Mauro Tassotti, que tapou buraco no período. Antes dessa dança das cadeiras, anteriormente à demissão de Allegri, o clube teve apenas três treinadores por 12 anos.

Depois de começar a série de demissões e admissões, a equipe nunca mais ganhou um troféu. Nem venceu na Champions League ou se classificou para competições da Uefa, por exemplo. Mesmo que o investimento não seja absurdo nestes dois anos, é óbvio que trocar de líder como se troca de roupa afeta a qualidade dos resultados – agora medíocres.

Contando do 1º dia de 2014 até a data de saída de Mihajlovic, em média um treinador fica menos de sete meses à frente dos rossoneri. Em outras palavras, aproximadamente 23 jogos do Campeonato Italiano. Enquanto o gigante Milan vai moendo nomes, agremiações como o Torino seguram seu mentor por cinco anos. Não à toa, o Toro jogou a Europa League de 2014/15 e o conjunto de Milão não saiu da Bota.

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Foto: Facebook/ACMilan

Retornando ao clube de Berlusconi, chega a ser espantoso como os estilos de cada técnico são distintos. De Seedorf a Inzaghi, de Miha a Brocchi. Ainda que três dos citados nunca tivessem comandado uma equipe profissional antes, era possível – e um dever da diretoria – traçar as ideias gerais antes de assinar os contratos. Literalmente, o Milan rasgou esse pressuposto para atirar no escuro. Posto que os esquemas táticos não dizem tanto, é interessante observar o que foi dito através deles.

Allegri adora o 4-3-1-2; Seedorf apostou num 4-2-3-1; Inzaghi não largou seu 4-3-3; Mihajlovic achou o time no 4-4-2; e Brocchi volta ao 4-3-1-2. Contudo, acima disso, os modelos de futebol diferem. O holandês queria bagunçar as peças no ataque, mas pecava na volta à defesa. ‘Pippo’ adorava contra-ataques, até pelo grupo que tinha, mas perdeu a mão após um tempo e seu time acabou vazio. Sinisa também amava contragolpes, porém de maneira distinta. Por fim, Brocchi gosta de pressão alta e controle do jogo a partir da posse de bola. Basicamente, quatro pessoas naturalmente dissemelhantes.

Consequências da pressa

Tanta pressa certamente traria consequências desastrosas, e isso acontece. De cara, o rubro-negro de Milão queimou dois grandes atletas de sua história na brincadeira. Seedorf e Inzaghi, queridíssimos da torcida, foram atirados aos lobos pelo cenário. Multicampeões jogando, a dupla ganhou apenas críticas comandando. Brocchi pode ser o próximo neste caminho. Em seguida, existe um peso financeiro absurdo nisto tudo.

Silvio Berlusconi e Adriano Galliani (Foto: Facebook.com/ACMilan)

Silvio Berlusconi e Adriano Galliani, “cartolas” do Milan (Foto: Facebook.com/ACMilan)

Basta dizer que o Milan paga os salários de Clarence, Inzaghi e Mihajlovic – todos demitidos – até hoje. Somando o custo da trinca, seria possível bancar um treinador top mundial. Talvez Carlo Ancelotti, tão amado e cobiçado por aqueles lados. Fora o fato de que o time nunca mais foi campeão após o troca-troca. Ou que deixou totalmente de ser competitivo em fases dos últimos dois anos. Além de ter se tornado um poço de insegurança aos olhos de qualquer possível alvo, técnico ou futebolista.

O estudante de jornalismo Arthur Barcelos, colaborador do site Quattro Tratti e especialista no futebol da Bota, pensa parecido. “As promessas são conversa fiada de uma diretoria confusa. Allegri já tinha perdido os principais jogadores, Seedorf não teve tantos recursos à disposição e seu time ainda jogou bem. Inzaghi teve temporada medíocre, mas deveria contar com o apoio dos chefes. Mihajlovic recebeu mais investimentos, porém um elenco com lacunas. Ele deu identidade ao grupo, mas foi prejudicado por isso”, disse Arthur.

Foto: Facebook.com/ACMilan

Foto: Facebook.com/ACMilan

Charley Moreira, milanista e coordenador de futebol internacional do portal VAVEL Brasil, dá continuidade à linha de pensamento. “Todo milanista reconhece a importância de Berlusconi nesses 30 anos, mas ele é o principal culpado pela draga atual. Ninguém consegue tirar leite de pedra com esses elencos”.

“Berlusconi quer montar um plantel com jovens italianos, contudo parece utopia agora. Não vejo em Brocchi o técnico adequado para assumir o Milan no momento”, opinou o também estudante de jornalismo. Ambos os questionados também culparam a intromissão de Silvio Berlusconi no lado futebolístico.

Mihajlovic, o último condenado

Como um grupo rebelde extremista, o Milan não para as suas condenações. Sinisa Mihajlovic foi o último dos infiéis, apesar da possibilidade de surgir outro amanhã. Em resumo, o trabalho do sérvio andou como se esperava. Vindo de bom campeonato pela Sampdoria, Miha manteve seu 4-3-1-2 no começo em Milão. Entretanto, o grupo demorou a executar bem os conceitos e foi preferível passar ao 4-4-2 – mantendo os ideais. Ideais estes muito focados em solidez defensiva e combinações rápidas à frente.

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Foi assim que a equipe voltou a alcançar uma final, a da Copa Itália. Da mesma maneira o Diavolo fez 3 a 0 na Inter, 4 a 1 na Samp e se aproximou bastante de uma vaga na Europa League via Serie A. Mihajlovic foi capaz de tirar o melhor de Bacca, potencializar Bonaventura, tornar o contestado Niang peça importante.

Subiu Donnarumma aos 16 anos, confiou no brasileiro Alex, adaptou o bom Kucka. Se Sinisa pecou, foi por ter pensamento próprio e personalidade para fazer o que julgava o melhor. Todavia, este é um grande erro quando se trata de Bersluconi.

Time base de Mihajlovic

Time base de Mihajlovic (clique e amplie)

O totalitarismo arcaico que ronda o Milan possivelmente sempre existiu. A diferença é que agora não mais existe um barco de estrelas em campo, gente que imponha medo. Se antes era Pirlo, agora é Montolivo. Se no passado brilhou Van Basten, hoje joga Niang.

Quando o clube deixou de investir como outrora, deveria ter em mente a queda de ritmo. Quando passou a demitir técnicos de forma louca, deveria prever a perda de identidade. O Milan apenas colhe o que a diretoria plantou. No momento o Milan é medíocre, nada competitivo em campo ou no mercado. Moer treinadores só agrava isso.

Comentários

2000. Um doente por futebol que busca insistentemente entender esse jogo magnífico de forma completa - claro, sem sucesso.