DOENTES POR FUTEBOL

O mar de Egeu gremista

Angústia, impotência, desesperançosa e ilimitada tristeza. Tais sentimentos certamente acompanharam o torcedor do Grêmio na decepcionante (e merecida) derrota para o Rosário Central pela Libertadores. Vendo um futebol usualmente tão bem trabalhado e pensado naufragar ao navegar contra seu próprio mar, contra seu próprio estilo, confesso, também me abati. Tive, no entanto, a sorte de encontrar um conforto na literatura.

ODD Shark

Sempre cultivei uma paixão ilimitada pela mitologia grega. Como não se entregar às narrativas inundadas de assassinatos brutais, punições eternamente sanguinárias, grotescos adultérios, fatricídios, parricídios, matricídios… palavras que têm sua fundação provavelmente nessas hemáticas histórias. Trocando em miúdos, a mitologia grega era o que se lia antes de conhecermos Game of Thrones.

Comentar-lhes-ia, no entanto, que sempre fui um fanático dos detalhes. Por mais que o sangue derramado seja atrativo, sem a meticulosa trama que o antecede, transformar-se-ia em pura e singela apelação. Perseu, o herói mítico que vence Medusa, é concebido por Dânae com Zeus, este disfarçado de, vejam só, “chuva de ouro”. O Minotauro só morre porque seu pai, Minos, rei de Creta, ao ganhar uma guerra contra Atenas cobra que a cada nove anos esta cidade mande jovens para servirem de alimento ao seu filho-monstro no tão conhecido labirinto. Tanto Acrísio, avô de Perseu, quanto Laio, pai de Édipo, foram avisados por oráculos que seus descendentes os matariam – e assim foi. Porém, de todos os sórdidos detalhes da mitologia grega, Egeu e suas velas é o que mais me intriga.

Antes de falar de Egeu, rei de Atenas, gostaria de falar de Roger, rei do Grêmio. O treinador, sobre quem já dissertei em passadas oportunidades, é, queiram os críticos ou não, uma grata surpresa. Apareceu, como quase desconhecido e permaneceu como um revolucionário. Deu novas caras ao estilo peleador do clube gaúcho, atualizou os conceitos de garra, de intensidade, de pressão. Modernizou o tradicional Grêmio sem que o clube, vejam só, sentisse sua tradição usurpada. Troca intensa de passes, pressing alto, constante movimentação, amplitude, superioridade numérica – tudo que se valoriza no além-mar. E no aquém-mar: o Rosário Central, de Coudet, reproduz diversos pontos do próprio Grêmio e, na partida de ida das oitavas de final, reproduziu-os com excelência. É o mérito da ironia: Roger sucumbiu frente ao seu próprio espelho.

Dir-lhes-ei, no entanto, que nada está perdido. A modernidade futebolística relativizou a tal da “vantagem” de jogar na cancha própria ou alheia. Vejam bem, “relativizou”, não a anulou. O Rosário Central parte amplamente e obviamente na frente, porém assim como impôs seu jogo em Porto Alegre, também pode o Grêmio impor-se lá. Será decidido no detalhe. Coudet e Roger dividem o mastro da nau das oitavas de final, ambos apreensivamente prontos para gritar “Terra à vista!”.

Não é à toa a metáfora. Quando em temas navais, o que mais me diverte é o do Mar de Egeu, que leva esse nome – isso mesmo – pela personagem mitológica. Um dos mitos mais conhecidos e interessantes é o do Labirinto do Minotauro: um monstro, filho de Minos, que se beneficia de uma oposição do pai sobre Egeu, rei de Atenas. Egeu, a cada nove anos, deveria mandar uma leva de jovens atenienses para servirem de refeição no temido labirinto. Minos não contava, no entanto, com a ida disfarçada de Teseu, grande herói ateniense e filho de Egeu, até o calabouço do Minotauro. Com a ajuda de um novilho de lã para não se perder, Teseu vence o monstro-homem. O detalhe – e aqui está a mágica da história – é que o herói parte de Atenas em um navio com velas pretas e um jogo de velas brancas que deveria usar caso fosse vencedor do terrível combate. Pois bem, Teseu, como dito, vence a batalha, porém na volta esquece de trocar as velas. Egeu, ao ver a nau com as fúnebres velas pretas, joga-se do penhasco onde aguardava o heroico filho. As águas que abraçaram seu agonizante corpo receberam a justificada graça de “Mar de Egeu”.

Eis a importância do detalhe. Um detalhe, na sangrenta batalha, definiu o nome do mar que banha parte da Grécia e Turquia. Um detalhe, na sangrenta batalha entre Central e Grêmio, definirá o nome do vencedor, de quem chegará até a costa e de quem naufragará no turbulento mar, não de Egeu, mas da Libertadores. O que não pode ser feito – e aqui dirijo-me diretamente ao torcedor gremista – é cometer o erro de Egeu e desistir antes da hora, defenestrar-se pelo penhasco, abdicar de tudo sem saber se as velas do navio são pretas ou brancas. É cometer o erro de esquecer da tradição do Grêmio, da competência de Roger e da força já provada da equipe gremista.

Está em aberto a disputa e o detalhe decidirá a cor da vela. O que peço ao torcedor gremista é que, nesse momento de dificuldade, não se esqueça da força tricolor, não se esqueça da sua história e, sobretudo, não se esqueça da força do azul, preto e branco porto-alegrense.

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Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.