O que o Lille procura no Brasil

Campeão francês com Túlio de Melo na temporada 2010/2011, o Lille não costuma contratar jogadores diretamente do mercado brasileiro. Os últimos foram Dante, em 2003/2004, e a dupla Emerson Conceição e Michel Bastos, na temporada 2006/2007.

Foto: Reuters - Tulio de Melo

Foto: Reuters – Tulio de Melo

Para aprofundar a ligação com o futebol brasileiro e ter uma maior capacidade de observação neste mercado é que o clube francês decidiu há menos de um ano contratar um scout exclusivo para o Brasil. Seu nome é André Martins, ex-zagueiro que atuou até a categoria sub-20 em clubes do interior de São Paulo.

André se define como um jogador mediano que optou por estudar educação física para ter futuro no esporte. Formado na Faculdade de Guarulhos, iniciou sua carreira como preparador físico e encarou todos os tipos de situações que um profissional do futebol vive no Brasil. Após dois anos “abandonou” a preparação física de clubes por não conseguir receber em dia e se dedicou a treinamentos personalizados para alunos de academias.

E foi através de um aluno que recebeu um convite para retornar ao futebol, tornando-se o responsável pela preparação física dos atletas agenciados por uma empresa de gestão de carreiras em Florianópolis. Em pouco tempo, Martins foi “promovido” a captador de atletas e depois de dois anos ingressou em uma grande equipe de Florianópolis.

Precisando intensificar o conhecimento sobre os jogadores do mercado brasileiro, o Lille prospectou diversos nomes pelo Brasil e decidiu integrar André ao seu grupo de dezessete scouts espalhados pelo mundo.

– O clube francês conta com observadores em todos os continentes, exceto o asiático – conta André.

O olheiro também falou sobre o perfil de atleta buscado pelo Lille no Brasil.

No Brasil, buscamos atletas que tenham entre 18 e 24 anos e que estejam jogando as Séries A e B ou as principais competições de base do país. O foco são atletas com entendimento tático, inteligentes, com boa capacidade física e técnica e que ainda não estouraram no futebol.

André passa a semana viajando por cada canto do Brasil observando jogos e quando identifica algum jogador com as características mencionadas acima, alimenta o sistema do clube onde todos os olheiros espalhados pelo mundo registram as informações. Esse sistema é integrado com a diretoria do clube e com os três analistas de desempenho que trabalham internamente.

Foto: Arquivo Pessoal - André Martins

Foto: Arquivo Pessoal – André Martins

– Se o clube gosta do jogador, a equipe interna elabora um dossiê com todas as informações do atleta, incluindo vídeos – explica André.
Perguntamos o porquê do Lille não ter dado ênfase ao mercado de jovens atletas do Brasil por muitos anos. O scout responde que o mercado brasileiro é inflacionado e não consegue competir com o mercado africano.

Aqui o jogador, mesmo o jovem, é supervalorizado pelos clubes, o que facilita a busca por jogadores africanos. Eles possuem características semelhantes e custam muito menos – respondeu.

Segundo o scout, uma das maiores deficiências detectadas pelos europeus em relação ao jogador sul-americano é a dificuldade de cumprir uma função tática estabelecida pelo treinador durante os noventa minutos.

O jogador sul-americano tem mais dificuldade em jogar coletivamente, não que o individual não seja importante, mas existe essa diferença.

O status e o profissionalismo também são citados como elementos que prejudicam o jogador brasileiro na Europa.

Muitas vezes o jogador é ídolo no clube que saiu, chega na Europa e não consegue render o mesmo futebol. Vai para o banco e fica de cara feia, não se dedica nos treinos e acaba forçando uma situação para sair.

André Martins explica que o processo de transição do jogador demanda muita atenção no Lille.

– Quando o jogador, entre 18 e 24 anos, chega no Lille, vai direto para a equipe principal para se ambientar com o grupo e com a metodologia do treinador. Caso a comissão técnica identifique que ele não está pronto, o jogador vai para um período de adaptação na equipe Sub-23 que utiliza os mesmos conceitos de jogo da equipe principal.

Com uma equipe de vinte pessoas somente para observar o mercado mundial, fica claro que um clube intermediário da França está muito à frente de qualquer clube brasileiro em termos de prospecção de talentos.

O que eu vejo, é que alguns diretores de categorias de base no Brasil não veem a base como um investimento e sim como gasto. Excluindo os clubes grandes, a maioria não tem e não dá condições de trabalho adequadas para seus funcionários e atletas, deixando a desejar em todos os segmentos – comentou o scout.

André encerra a entrevista indicando o problema central da formação de atletas no futebol brasileiro.

– Falta união entre os clubes, confederação e federações para padronizar e encontrar uma forma de prover condições para que os clubes pequenos possam se aproximar dos grandes na questão de infraestrutura e condições de trabalho – finalizou.

Dalla Valle é Consultor em Gestão do Futebol e Observador Técnico. É criador do site futebolplanejado.com, especializado em Gestão do Futebol. Interage no twitter: @giovanidvalle e no @futebolplanejad

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