Três teses sobre a volta de Del Nero à presidência da CBF

No centro, Marco Polo Del Nero e Renan Calheiros sorriem (Foto: Divulgação)

Boa parte do Brasil estava de olho na votação na comissão do impeachment. Por isso, muita gente nem viu, mas outro teatro acontecia na antiga capital federal: Marco Polo Del Nero deu seu primeiro dia de serviço na CBF após uma licença de três meses tirada por “motivo de ordem pessoal”.

Ainda investigado pelo comitê de ética da Fifa, pelo FBI e pela CPI do Futebol – a qual, por meio de um de seus prepostos no Congresso, ele driblou, na última quinta-feira – , ele reassumiu o comando da entidade nesta segunda-feira.

Uma formalidade, já que Del Nero nunca se afastou, de fato, de seu cargo. Saiu dos holofotes enquanto seus pares da Fifa desmoronavam, mas seguiu articulando a administração da CBF durante sua licença. As reuniões da última semana, reveladas por Gabriela Moreira, da ESPN Brasil, e Martín Fernandez, do Globo Esporte, são provas disso.

Uma fonte do Jornal Extra revelou que o presidente voltou por não ter perspectiva de quando a Fifa poderá se pronunciar sobre sua situação. Mas esse retorno, mesmo em meio a tantos problemas, emite pelo menos três sinais de que seus cálculos não deram tão certo quanto ele achava que dariam ao se licenciar.

1- A alternativa Nunes saiu muito pior do que a encomenda. O coronel se revelou politicamente inviável. Visivelmente desconectado da realidade do futebol nacional, sua figura folclórica, de trajetória ligada à repressão, se tornou insustentável. A gota d’água provavelmente foi a sua última entrevista, cedida ao Esporte Interativo, o que encaixa na cronologia dos fatos.

2- As últimas semanas de fervor em Brasília têm mantido o Congresso, os noticiários e grande parte dos brasileiros totalmente presos à pauta do impeachment. Enquanto o caos toma conta da República, Del Nero manobrou em outra frente: a CPI do Futebol, que tem sido sistematicamente sabotada.

Ainda mais com a colaboração de ninguém menos que Renan Calheiros. Com uma canetada, o presidente do Senado anulou uma votação que autorizava a convocação do cartola para depor.

(Enquanto isso, a comissão do impeachment trabalha varando a noite da sexta-feira…)

Arte: DPF/ Foto: CBF

Arte: DPF/ Foto: CBF

3- Se o cenário político brasileiro é crítico, o da Seleção é ainda pior. Em franco retrocesso, o time de Dunga cambaleia nas Eliminatórias e chega ao meio do ciclo até a Rússia em seu pior momento técnico e tático. Há ainda rumores de que os jogadores não confiam no treinador – entre eles, Neymar.

Por isso, enquanto autoridade (lamentavelmente) respeitada por comissão técnica e jogadores, Del Nero certamente imagina que seu retorno possa dar mais confiança e unidade para duas competições importantes: a Copa América e as Olimpíadas.

Seja quais forem as motivações de Del Nero para sair ao sol, o certo é que sua volta é mais um entre tantos maus sinais em um país que se crê em um momento de faxina ética em suas instituições. Todas elas deixam transparecer um sujeito cheio de si, que se acha insubstituível e, pior, acima das leis. E se as dúvidas são muitas no âmbito da política nacional, na CBF há ao menos uma certeza: seu presidente não estará na delegação que viaja aos Estados Unidos, em agosto. Por motivos de ordem pessoal, provavelmente.

Presença de Del Nero aumenta o respaldo da comissão técnica (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Presença de Del Nero aumenta o respaldo da comissão técnica (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.