A estratégia (quase) infalível de Simeone contra o Real

  • por Victor Mendes Xavier
  • 1 year atrás

Os dérbis de Madrid no século XXI podem (e devem) ser divididos em antes e depois da chegada de Diego Simeone ao Atlético de Madrid. Até 2013, os colchoneros simplesmente não conseguiam vencer o maior rival: foram mais de dez anos sem um único triunfo, seja em jogo oficial ou em amistoso. Pior: por vezes, o Atléti nem sequer competia. Já entrava em campo sabendo que sairia derrotado, mesmo quando vivia fase superior à do Real.

Arte: Doentes por Futebol | Nos últimos 06 confrontos, o Real Madrid não conseguiu vencer o Atlético comandado por Diego Simeone. Foram 03 vitórias dos colchoneros e 03 empates. Fonte de dados: infobae.com

Arte: Doentes por Futebol | Fonte de dados: infobae.com – A imagem é de 2015, mas retrata bem o que era o Atlético antes de Simeone chegar. Os colchoneros já entravam derrotados ante o Real Madrid.

Atualmente, o Atlético de Simeone adoece de uma leve “incoerência” que o enfraquece como equipe. A qualidade defensiva é inegável, mas o pouco poderio contra-atacando chama a atenção. Tal limitação fica ainda mais visível nas grandes noites (a ver a semifinal na Allianz Arena, com o Bayern colocando o Atlético na parede por quase todo os 90 minutos) e sobretudo contra o Real Madrid, que primeiro com Mourinho e depois com Ancelotti e Zidane teve um sistema estável e com os zagueiros mais rápidos da Espanha. Para superar o obstáculo, Cholo recorreu a estratégia que melhor consegue desenhar: criar vantagens sem a bola. Dessa forma, compete e vence.

O primeiro conceito defensivo de Simeone é fazer com que sua dupla de ataque do 4-4-2 não trabalhe sem a bola diretamente sobre a dupla de zaga do Real. O objetivo de Cholo é fazer que com Pepe-Ramos e Ramos-Pepe sejam as linhas de passe mais frequentadas do dérbi. Ou seja: que os zagueiros madridistas monopolizem a bola em campo defensivo. Se o Real decide sair jogando pela esquerda, com Casemiro e Kroos (ou Kroos e Isco), Griezmann e Torres os perseguem; caso contrário, se a via de saída for com Modric, a dupla franco-hispana combate o brasileiro e o croata. O objetivo é deixar Ramos e Pepe sozinhos e atrasar a primeira pressão. Com essa disposição, Griezmann e Torres defendem em vantagem, pois se um meia blanco recebe será sempre de costas, dificultando o domínio e favorecendo a antecipação dos rojiblancos.

Sergio Ramos é quem mais tem recurso técnico com a bola no pé e, portanto, assume maior responsabilidade que seu companheiro de defesa. O espanhol tem duas opções, nesse caso. A primeira é tentar conduzir a bola até o círculo central para chamar a atenção dos atacantes do Atléti e, assim, forçá-los a sair e deixar Kroos e Modric “livres” para armar. Se esse plano obter sucesso, o Real ganha uma saída mais clara, ainda que menos trabalhada e ocasional. A segunda é o passe em profundidade até Benzema ou Cristiano Ronaldo. E é justamente isso o que Simeone quer. Mas por quê?

Porque quando o Real, que é um time que nos duelos contra o Atlético beira os 65% da posse de bola, opta pela ligação direta, deixa claro que não está confortável em campo. E, pelo alto, Godín e Gimenez são duas muralhas que ganham quase todos os duelos. Aceitando a perda na primeira jogada, o Real Madrid é obrigado a ao menos ter o controle das segundas jogadas. Para isso, Zidane adianta uma linha. Casemiro, Modric e Kroos pisam em seu campo de ataque e passam a ser objetivos de Gabi e Augusto Fernández. E onde ficam Griezmann e Torres, outrora com o objetivo de trabalhar sobre os dois primeiros volantes merengues? Preparados para contra-atacarem numa “zona morta”, propiciada pelo avanço do trivote do Real. Bingo.

Dupla de ataque do Atlético deixa zagueiros do Real livres. Ideia é criar "vácuo" para aproveitar após recuperar a bola

Dupla de ataque do Atlético deixa zagueiros do Real livres. Ideia é criar “vácuo” para aproveitar após recuperar a bola

O Atlético recupera a bola de uma maneira até simples. Com a posse dominada, a estrutura do Real está danificada e descompactada. Ramos e Pepe estão longe do homem seguinte, o que força a medular merengue a correr para trás. A segunda linha de quatro do Atlético (Saúl, Gabi, Fernandez e Koke), pelo contrário, correm para frente e controlam (se houver) os rebotes. De início, o trabalho de Ramos e Pepe fica mais difícil do que em qualquer outra situação. É como se os dois não formassem mais parte do sistema defensivo do Madrid. Estão em desvantagem. Um momento que é letal para o maior vencedor da Champions.

Desde que Simeone desenhou esse mecanismo, o Real só conseguiu cruzar bem o campo quando dispôs de uma saída de três, abrindo os zagueiros e baixando o primeiro volante. Ainda que Xabi Alonso desfilava e incomodava, o ajuste não dependeu de seu talento, porque inclusive com Khedira de ‘5’ o Real conseguiu ter vantagem, como foi na final de Lisboa em 2014. Zidane só enfrentou Simeone uma vez e não repetiu a fórmula de “sucesso” de Ancelotti. Talvez porque não queria perder a criatividade de Kroos mais à frente. Foi derrotado por 1 a 0 no Bernabéu.

Se no sábado persistir em querer saindo com Ramos, pode se complicar mais uma vez. Caso construa algo novo, teremos uma nova partida. Nas duas áreas.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.