DOENTES POR FUTEBOL

As lições de Ancelotti para Zidane combater Simeone

Falávamos no texto anterior que o objetivo de Diego Pablo Simeone nos dérbis é que a saída de bola do Real não cruze o círculo central de maneira controlada. Até achar uma fórmula que ao menos revertesse o cenário preparado por Cholo, Carlo Ancelotti sofreu. A solução foi básica: tanto na eliminatória da Copa do Rei, quanto na final da Liga dos Campeões, ambas em 2014 e vencidas pelo Real, Carleto desenhou uma saída a três. A ideia era criar um espaço pelo triângulo formado entre os zagueiros e o primeiro volante do 4-3-3. Para isso, distanciou seus laterais, Marcelo e Carvajal, e os interiores, Modric e Di María. Os quatro ficavam praticamente na linha lateral, vigiados por Arda Turan e Koke.

lavolpiana madrid ancelotti

Imagem: YouTube | No flagrante acima, mudam-se as peças (Khedira no lugar de Alonso e Varane no lugar de Pepe, mas o conceito permanece. O volante aproximado dos zagueiros, criando superioridade numérica e desafogando a saída de bola.

ODD Shark

Em qualquer aspecto, o Real tinha superioridade numérica, sobretudo na defesa, a principal, com Pepe-Xabi-Ramos contra Diego Costa e Adrian ou Raúl García. Simeone não conseguiu desfazer essa superioridade por um motivo em especial: seus pontas estavam (também em desvantagem) tendo que trabalhar sobre a dupla ou até mesmo um trio exterior nos dois flancos (Arda contra Carvajal-Modric-Bale e Koke contra Marcelo-Di María-Cristiano Ronaldo). Em La Décima, Modric foi titular. O croata não esteve em campo no 4 a 0 da Liga em 2015, talvez a maior vitória da carreira de Simeone. Quando não teve Luka nos clássicos, Ancelotti optou por não utilizar a saída a três. Ainda que nunca tenha explicado a razão, é provável que a desistência tenha a ver com perder a criatividade de Kroos mais à frente, já que, naturalmente, o alemão ficaria bem mais recuado do que o habitual com Carleto atuando na mesma linha que Ramos e Pep.

O outro desafio que o Atlético impõe ao Real Madrid é a criação de oportunidades. Custa aos merengues criarem jogadas de perigo com demasiada frequência. Em sua última temporada em Chamartín, Ancelotti testou dois movimentos que funcionaram melhor que o resto. O primeiro foi usar e abusar de Cristiano Ronaldo, um jogador muito móvel e inteligente. A posição do gajo passou a ser muito mais próxima do flanco de Bale. E isso foi um pesadelo para os colchoneros. Sem Filipe Luís em 2014/2015, a lateral esquerda com Ansaldi e Guilherme Siqueira não exibia a mesma consistência. O foco de Ronaldo não só era essa zona, como também deslocar-se mais à frente, como um segundo atacante, e chamar a atenção de Godín, que era obrigado a persegui-lo. Tal ação permitiu Benzema romper em diagonal no espaço deixado pelo defensor uruguaio. Desde que Zidane assumiu o comando técnico, Cristiano Ronaldo voltou a se mover por todas as partes. Visita Benzema, tabela com Marcelo, associa-se com Bale, joga entre linhas. É muito mais enérgico que a pálida versão de Benítez, que o forçava muito a atuar como 9, às vezes até estático.

Zidane gosta de um Ronaldo verdadeiramente extremo. O francês considera que sua equipe necessita de referências exteriores, de jogadores que gostam de abrir. Por dentro, quase sempre situa-se Kroos (ou Isco). Por sua força, o gajo arrasta a marcação. É, quase que sem debate, a posição ideal para Ronaldo, já que se transforma num diretor de orquestra, implicando nos movimentos de ataque de Modric, Benzema, Marcelo e todos os outros que queiram somar.

Além disso, esse papel o permite estar preparado para o contra-ataque, como aconteceu no primeiro gol marcado em Roma, nas oitavas de finais. É indiscutível: os jogadores do Real são muito bons, mas nenhum tem a hierarquia, a personalidade e muito menos o futebol de Cristiano Ronaldo. Por isso é fundamental que CR7 mantenha regularidade dentro dos 90 minutos.

O segundo recurso que também funcionou ao Real Madrid foi usufruir da sociedade Isco e Marcelo. Além da técnica, ambos possuem muita habilidade para driblar, e o segredo para quebrar um sistema defensivo tão forte como o do Atléti é sempre o drible. Quando o brasileiro ou o espanhol têm sucesso nas jogadas individuais, gera um desequilíbrio no sistema rojiblanco que outros jogadores blancos podem aproveitar. Neymar e Messi demonstraram no último ano não haver ato melhor contra o Simeone Team do que ser criativo próximo da banda. E o que falar de Di María?

Diante de tudo explicado, mesmo assim Simeone ainda conseguiu mais vencer do que perder contra Ancelotti. Assusta e mas demonstra a grandeza do atual Atlético de Madrid. No entanto, Zidane, que em seu único duelo com Cholo mostrou ideias previsíveis, tem em Carleto um bom exemplo para emular e criar mecanismos que tenham sucesso e garantam La Undecima.

Veremos no San Siro, no sábado, a partir das 15h45.

O conteúdo acima é de responsabilidade expressa de seu autor. O Doentes por Futebol respeita todas as opiniões discordantes e tem por missão promover o debate saudável entre ideias.

Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.