CBF, não deixe o rádio esportivo morrer!

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução – Protesto dos radialistas em Salvador

Por: Eduardo Madeira

Era um sábado ensolarado. Frio, como não poderia deixar de ser o outono sul-catarinense, mas com um sol convidativo a uma tarde de futebol. No cardápio, Criciúma x Náutico, no estádio Heriberto Hülse. Ok, não era aquele cardápio vistoso, com caviar e aqueles pratos cheios de frescuras servidos nos restaurantes mais caros da cidade, mas estava valendo.

Diferente das quase 4 mil pessoas que se aventuraram a aproveitar aquele sábado gelado no estádio, eu estaria no gramado e não na arquibancada. Já é meu terceiro ano como repórter de rádio. Minha segunda Série B. Longe do glamour das grandes arenas e dos jogadores com salários pomposos e invejáveis, me sinto feliz com o que faço, mesmo acompanhando jogos modorrentos da Segundona e do Estadual. Não importa o dia, nem o horário. Estar no gramado, registrando no rádio as emoções que 22 marmanjos correndo atrás de uma bola podem provocar, é gratificante. Podem ter certeza que não sou só eu que me sinto assim.

Depois de uma infinidade de repórteres participarem afetivamente na minha memória, hoje posso estar do lado deles. A rádio em que trabalho, a Guarujá de Orleans, tem mais de 50 anos de história mas, por ser de interior, ainda não tem o tamanho que merece. Falamos que queremos ser a maior rádio de Santa Catarina, mas dentro de nossa humildade, vamos batalhando com o que temos e galgando um novo passo a cada dia. Podem ser apenas duas pessoas nos ouvindo, ou mais de 20 milhões. Alguém vai estar gostando do que vamos estar transmitindo. Podem ter certeza que não sou só eu que me sinto assim.

Mas, enfim, voltando ao tal dia do jogo, cheguei todo faceiro ao estádio. Sabia que não veria um grande jogo, mas queria estar lá presente de qualquer maneira. Ver, relatar, analisar e questionar. É o que podemos oferecer aos nossos ouvintes. Ou melhor, é o que podíamos até pouco tempo atrás.

Logo na chegada, na área de credenciamento, dou de cara com um fiscal da CBF. Ali, já havia algo estranho. O normal era ser alguém da Federação Catarinense de Futebol, mesmo sendo jogo nacional. O rapaz loiro e com barba por fazer usava óculos e trajava uma camisa com o logo da nobre instituição no peito. O ar soberano, de quem controlava tudo que poderia ser feito pela imprensa, era notório.

“No campo, você pode fazer isso, mas aquilo não. Vai ter de ficar em tal lugar, fazendo isso e aquilo. No intervalo vai ser assim e, no final do jogo, assado”.

Admirei-me que autorizaram utilizar o microfone no gramado.

Ficamos limitados em um canto do estádio, sem permissão para entrevistar ninguém antes do jogo, exceto os reservas – até porque todos querem ouvir o goleiro reserva. No intervalo? Ninguém. Na volta do intervalo? Necas de pitibiribas. No final do jogo, apenas. A justificativa é que foi pedido dos técnicos, o que não duvido. Mas por que só agora? Sempre foi assim no futebol brasileiro e nunca vi nenhum técnico reclamar. Ou por acaso alguém já deixou de ganhar um jogo por que o jogador deu uma entrevista no intervalo?

Aliás, um adendo às limitações: a torcida do Criciúma ergueu uma enorme bandeira antes de a bola rolar e, com celular, fiz algumas fotos. Nem bem guardei o aparelho e o mesmo fiscal da CBF me pediu para não divulgar o retrato, que não poderia fazer imagens e nem nada do gênero. What?

Fiquei aborrecido o jogo inteiro. Vi repórteres que cobrem o Criciúma há quase 30 anos virarem as costas para o gramado e irem em direção da sala de imprensa após o primeiro tempo, nitidamente contrariados com as normas. Na pausa do jogo, inclusive, um repórter veio a mim e disse:

“já que não nos deixam trabalhar, o jeito é descansar mesmo”.

O 1×0 aplicado pelo Criciúma ficou em segundo plano naquele sábado.

Foto: Reprodução - Em Pernambuco também foram feitas manifestações

Foto: Reprodução – Em Pernambuco também foram feitas manifestações

Sei que as entrevistas de intervalo são, muitas vezes, inúteis. Os próprios jogadores não colaboram muito por estarem focados em acertarem os ponteiros no vestiário. Mas vai muito do repórter. Em todo jogo acontece algo. Um gol perdido, uma falta questionável ou um posicionamento diferente. É sempre bom ouvir os jogadores e entendermos as impressões deles sobre o que acontece em campo. Afinal, são eles os personagens principais do espetáculo e entrevista-los é uma forma de aproxima-los do público – no caso, o torcedor.

Mas se não podemos fazer isso, qual a lógica de estarmos lá, então? Mais vale ficar na cabine e engatar o som da TV, que pode entrevistar, e ficarmos de boa, sentados e vendo à distância.

O cerceamento do trabalho dos profissionais do rádio causou as mais diversas reações Brasil afora. Radialistas que lutam pelo espaço na audiência e na briga pelos furos de reportagem, se uniram e protestam contra as medidas da CBF. Grande atitude, mas que se mostrará infrutífera se as associações estaduais de cronistas não agirem. Até onde foi de meu pequeno conhecimento, apenas a ACEG (Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos) se posicionou contra a medida. O curioso é que na hora de cobrar pela carteira que nos dá direito de cobrir os jogos, outras associações são muito ágeis…

Sou extremamente favorável a normas que regulamentem a função no gramado, mas o que está sendo feito pela nossa íntegra, honesta e bem administrada confederação ultrapassa qualquer limite. Já observei relatos de radialistas que ficaram em posições extremamente estapafúrdias, longe de qualquer coisa e incapazes de fazer um relato preciso das jogadas.

Sou novo na profissão. Tão pouco conheço todos os repórteres da região e nem me sinto capaz de falar em nome deles. Ainda assim, apelo: não deixem o rádio esportivo morrer! Deixem-nos trabalhar!

Todos têm alguma história que remete ao rádio. Uma narração marcante, um grito de gol que arrepiou até a alma ou até mesmo um comentário absurdo que lhe fez virar para as cabines de imprensa e soltar um sonoro “corneteiro, filho da fruta!”.

Além disso, os narradores de rádio são os amigos íntimos dos torcedores. Aqueles que, através dos fones de ouvido, sopram cada jogada e lhes fazem rir ou chorar com os lances de uma partida. São eles que te fazem cutucar o amigo do lado e dizer: “ó, o narrador disse que ia sair o gol agora”. Aquele recado do locutor, que na verdade foi para milhares de torcedores, fez parecer que foi exclusivo e único para você, através do fone.

O rádio tem a relação com a arquibancada que nenhum outro veículo tem. Nem mesmo as TVs ou os portais, que podem ser acessados em qualquer canto pelo celular, têm isso. O rádio é o “aqui e agora”, sem precisar de wireless, 3G ou qualquer outra novidade tecnológica. O rádio, que muitos diziam que iria morrer, está mais vivo do que nunca, se modernizando com o passar dos tempos e possibilitando coberturas completas.

A CBF quer acabar com isso. Ela quer as rádios longe e, por consequência, os torcedores também. Ela quer vocês vendo pelo sofá de casa, comendo produtos comprados no supermercado patrocinador e bebendo a cerveja que deixa uns trocados na emissora detentora dos direitos de transmissão. E as rádios? Bem, podem fazer no tubo mesmo, qual o problema? Mais audiência para as TVs.

“Ah, na Europa é assim”. Não queiram comparar o rádio no Velho Continente com o brasileiro. Culturas diferentes, representatividades diferentes. Não é assim que a banda toca. Disse antes: nada contra – é até necessário – uma normatização, mas ultralimitar chega a ferir o direito da imprensa.

E antes que venham com o papo de “a TV paga, portanto, tem mais direito”, alguns pontos. A TV tem alguns privilégios nem sempre lembrados: pode ouvir os técnicos antes dos jogos (as rádios só ouviam se houvesse uma boa vontade do treinador em parar para falar); pegam um jogador de cada time antes de todos no intervalo e no final do jogo; fora outros artifícios pouco ressaltados, como o jogador comemorar um gol indo direto na câmera, as placas de publicidade ao redor do gramado, que são todos os seus patrocinadores, o poder de mudar horários dos jogos e tudo mais. Quer mais privilégio que isso?

Quando saiu essa norma ridícula imposta pela confederação, uma das primeiras coisas que pensei foi sobre como foi feita a reunião que determinou essa mudança. Alguém deve ter perguntado:

– Precisamos divulgar mais o Campeonato Brasileiro. Como vamos fazer isso?
– Já sei! Vamos limitar o trabalho das rádios!
– Que excelente ideia!

Foto: Reprodução - Outra manifestação foi realizada em Criciúma

Foto: Reprodução – Outra manifestação foi realizada em Criciúma

Deve ter sido algo do gênero, porque simplesmente não entra na minha cabeça a lógica disso. Você quer o Campeonato Brasileiro melhor visto e, para isto, limita os veículos de comunicação. Que lógica é essa? Que marketing reverso é esse?

Já chegaram a sugerir a não transmissão dos jogos, o que, convenhamos, é o que a CBF quer. Só há um jeito de combater: mostrando insatisfação. Os repórteres estão fazendo a sua parte. É hora de as associações também se mobilizarem e cobrarem. Não seria de malgrado um protesto das torcidas também. Enfim, todos os envolvidos podem se manifestar e cobrar da entidade.

As rádios não querem – e não vão – roubar o espaço da TV. É impossível! Os repórteres apenas querem ter a liberdade de trabalhar. Só isso, CBF. Não faça com que mais amantes do futebol percam a vontade de torcer e de acompanhar o futebol.

Não colabore com a desilusão que afeta cada dia mais o nosso esporte nacional.

14/06/2016 12:45:57 PM (atualização)

Deixamos mais um relato de prepotência e desmando por parte da CBF, cerceando o direito de trabalhar de um repórter pelo (estapafúrdio) motivo de ter tirado uma foto:

A cbf diz que eu tirei uma foto do jogo entre Inter X Sport. E por isso,A CBF mandou um ofício pra Rádio Jornal,me PROIBINDO de trabalhar na quarta-feira,no jogo entre Santa X Figueirense. Motivo: “Tirei” uma foto do jogo(coisa que qualquer pessoa na arquibancada pode fazer). A Rádio Jornal já está consultando seu departamento jurídico. Coisas semelhantes,estão acontecendo com outros profissionais e empresas. O amigo Samuel Venancio da Rádio Itatiaia,também está suspenso. E a tradicional Itatiaia,já vai acionar seu departamento jurídico também. Isso é proibição do direito de exercer a profissão. Crime constitucional! Tem o que esperar mais dessa “instituição”? Todos nós sabemos os probleminhas que a cbf tem. Mas eles querem aparecer ainda mais. Agora é descumprindo direitos constitucionais. Vou deixar uma pergunta,no final desse desabafo: Qual o DIREITO que a cbf tem de me IMPEDIR DE TRABALHAR?

Uma foto publicada por João Victor Amorim (@reporterjvictor) em

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.

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