Kosovo: próximos passos

Foto: Info-KS

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Virou, há horas, passatempo e lugar comum nas redes sociais o direito ao delírio futebolístico. Dzeko e Jovetic, o ataque de uma renascida seleção iugoslava; a fênix Soviética tendo, pela primeira vez, um armênio como craque – Mkhitaryan. Na diversão da ausência de limites da imaginação, vamos da possível seleção gaúcha à saudosa austro-húngara ou até mesmo a do império inca, observados pelo corpo ainda intacto do imperador Atahualpa. Decidi que o devaneio futebolístico havia chegado ao seu quase cúmulo quando pela deep web do universo futeboleiro brasileiro vi as inacreditáveis seleções das capitanias hereditárias.

Outro esquadro que volta e meia desfila no imaginário dos fanáticos é a seleção kosovar, com todos os seus imigrantes que já jogam por outras equipes. Que estonteantes performances poderíamos esperar de um grupo com Xherdan Shaqiri, Adnan Januzaj e Granit Xhaka jogando no acanhado Stadiumi i Qytetit na capital kosovar Pristina, não é mesmo? Dir-lhes-ei que tal delírio já há alguns anos deixou de ser tão funambulesco e, nas últimas semanas, converteu-se em uma iminente realidade.

No dia 3 de maio de 2016, a Federação Kosovar de Futebol (FKF) entrou no rol de federações reconhecidas pela UEFA, numa votação apertada (28 a 24 votos). Trocando em miudos, reconhece-se o direito kosovar a jogar as eliminatórias da Eurocopa, organizar amistosos ao seu bel-prazer e também jogar competições internacionais de clubes. O próximo passo é o aceite da FIFA, permitindo a participação nas eliminatórias para a Copa do Mundo.

Escudo da Federação Kosovar de Futebol

Escudo da Federação Kosovar de Futebol

Os kosovares podem, finalmente, sonhar com a seleção competindo seriamente nos certames europeus e podem, tal qual os internautas brasileiros, imaginar sua equipe composta por todos os esportistas em cujas artérias sangue kosovar corre.

Lembrando que, pelo fato de a seleção kosovar oficialmente não existir até pouco tempo atrás, muitos atletas que já defenderam outras seleções poderiam, através dessa brecha, tentar a “mudança”. Ora, como poderíamos dizer que eles “escolheram” outra nação, quando não havia a opção oficial pelo Kosovo? Alguns profissionais estão atentos à situação e inclusive há rumores indicando a tentativa de Adnan Januzaj em vestir a camiseta kosovar mesmo após defender a Bélgica.

Rumores à parte, permitam-me também ser saudosista. Em 2013 escrevi pela primeira vez sobre a situação kosovar e o pós-nacionalismo. Naquele momento, lembrando que os jogadores suíços também eram e se reconheciam como kosovares, argumentei a favor da possível “troca de seleções”. Citei (e repito) a socióloga Neide Lopes Patarra, ao dizer que: “as migrações nos dias atuais construíram um desafio à hegemonia do Estado-nação, já que as identidades sociais sofreram uma desterritorialização”. Não havia e não há dúvidas de que atletas como Shaqiri e Xhaka se reconhecem tanto como kosovares quanto suíços e que Januzaj se reconhece tanto como belga quanto kosovar. As identidades sociais dos mesmos fazem parte do aspecto comentado por Patarra. Logo, a Federação Kosovar deve ser muito cautelosa na abordagem que pretende lançar quando da convocação da sua seleção. No texto de 2013, mostrei como os jornais de Pristina indicavam Shaqiri como um herói do esporte kosovar, no entanto essa abordagem nacionalista não pode ser considerada um bom recurso para a FKF. Explico; correr-se-ia o risco de jogar os agora possíveis ídolos na fogueira da encruzilhada da modernidade: o mononacionalismo e a necessidade de pertencer a apenas um lugar. O problema é que a Europa (e o mundo) se encontra num contexto de crescente pós-nacionalismo, no qual não há raízes fixas, mas sim rizomas – brotos que se ramificam em qualquer ponto. Exigir dos atletas kosovares que escolhessem uma raiz seria sociologicamente violento, pois seria um ataque identitário tremendo a esses jogadores.

Não há dúvidas que a questão segue sendo complicada e, como em qualquer momento, a compreensão será decisiva para os próximos passos. Assim como o mundo lentamente entendeu a situação kosovar, a FKF deve também compreender a situação dos seus possíveis atletas emigrantes e ser muito cautelosa nesse tratamento. A – mais possível que nunca – seleção kosovar necessita de heróis futuros, não de prematuros mártires.

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Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.

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