Simeone, o revolucionário

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(Por Elcio Mendonça)

Não há dúvidas de que Diego Simeone mudou a história do Atlético de Madrid, recolocando o clube entre as principais forças do futebol europeu. Desde a sua chegada, no final de 2011, os Colchoneros conquistaram quase tudo o que era possível. Levaram para a casa uma Liga Europa, uma Liga Espanhola, a Copa do Rei e as Supercopas europeia e espanhola. A Champions League bateu na trave, com o vice diante do rival Real Madrid, em 2014.

Cholo é extremamente identificado com o clube. Era uma das referências da equipe que conquistou o doblete em 1996. Seu braço direito e auxiliar técnico, o ex-goleiro Burgos, também tem forte relação com o Atlético. Foi titular no time que conquistou a segunda divisão espanhola em 2002, o pior momento na vida do clube alvirrubro.

Mais do que apostar no envolvimento com as raízes, Cholo criou um novo perfil para a equipe. Não só dentro das quatro linhas, mas também fora de campo. O Atlético passou a ser um grande negociador, contratando bons valores e, acima de tudo, sabendo vendê-los muito bem. Não podemos limitar a influência do treinador aos Colchoneros.

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Simeone mostrou ao mundo que é possível vencer jogando de uma maneira diferente. É um revolucionário. Um reformista contra o Tiki-Taka e o jogo de posse de bola.

O encantador Barcelona de Guardiola e a vencedora seleção espanhola mudaram a forma de se jogar futebol. A posse de bola ganhou mais importância e o jogo passou a ser decidido cada vez mais no meio campo. Pep não teve pudor, por exemplo, de transformar um centroavante em um falso nove para povoar a meia cancha. Nascia ali o 4-6-0. Tal filosofia tomou o mundo.

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Até os italianos, que nunca fizeram muita questão de ter a bola nos pés, passaram a valorizá-la (lembrar da seleção treinada por Cesare Prandelli na Copa de 2014).

A Alemanha, tetra campeã mundial no Brasil, também teve forte influência de tal modelo de jogo. Um contraste com o estilo vertical da maioria dos seus clubes, muito bem executado por Klopp, por exemplo.

Em tempos de clubes ricos cada vez mais ricos, Cholo encontrou uma maneira de rivalizar com eles, mesmo não tendo a mesma conta bancária. Claro que o Atlético de Madrid não é um pobrezinho, mas está longe de ter o poderio financeiro de Barcelona ou Bayern (adversários que deixou para trás para chegar novamente à final da Champions League).

Esquema tático Atlético x Bayern

É um erro rotular os Colchoneros como mera retranca. Eles pensam o jogo a partir da defesa, sem dúvida alguma, mas não se limitam a colocar um ônibus em frente à área. A proposta é anular o meio campo adversário, o emparedando entre duas linhas de quatro jogadores. A marcação já começa no campo adversário, com Griezmann e Torres dando o primeiro combate.

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Depois, oito jogadores compactos, marcando por zona e tentando anular qualquer movimentação adversária, tirando o oponente de sua zona de conforto.

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O Atlético pode não ser o melhor time do mundo, mas provavelmente é o mais chato de se enfrentar. Aquela equipe que tira o sono do técnico rival, que precisa encontrar uma maneira de penetrar tal muralha. Simeone implantou seu conceito e o desafio é vencê-lo em seu próprio jogo. Com a bola nos pés tenta ser o mais vertical possível. Ao optar por uma dupla de ataque, Cholo aumenta seu poderio na hora de revidar, potencializando a verticalização, como foi possível ver no gol marcado diante do Bayern no Allianz Arena:

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Griezmann, autor do tento da classificação, é um jogador extremamente letal. Marcou sete dos 14 gols do time nesta edição da Champions e ainda deu uma assistência. Teve participação direta em mais da metade dos gols na competição europeia. O sucesso passa claramente pelos pés do francês.

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Capture

Além da disciplina tática, o time de Simeone mostra grande preparo físico. Marca durante os 90 minutos, movendo suas linhas conforme o avanço do oponente. O clube do Vicente Calderón, assim como seu modelo de jogo, não é uma zebra. Derrubou gigantes não só no mata-mata, como também se mostrou eficaz no sistema de pontos corridos. Tanto que é clara a inspiração do seu jogo ao Leicester, que conseguiu uma enorme façanha tendo um elenco muito mais limitado do que o espanhol.

Se o jogo não é dos mais vistosos, com certeza traz um interessante ganho tático. Talvez não se torne um modelo dominante como o tiki-taka, por exemplo, mas é mais uma opção à mesa … principalmente para clubes que sabem que não podem competir contra gigantes midiáticos e financeiros como Barcelona e Real Madrid.