Um Dragão em crise

  • por Elcio Mendonça
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Foto: Sapo.pt - 15 pontos separaram o Porto do campeão Benfica nesta temporada

Foto: Sapo.pt – 15 pontos separaram o Porto do campeão Benfica nesta temporada

Para entender melhor o tamanho da atual crise do Porto é preciso voltar até abril de 1982, quando Jorge Nuno Pinto de Costa assumiu a presidência do clube, cargo que ocupa até hoje.

Nesse período o Dragão deu um salto de qualidade. Em 34 anos foram 58 títulos. Conquistou dois Mundiais (1987 e 2004), duas UEFA Champions League (1987 e 2004), duas Liga Europa (a primeira delas ainda com o nome de Copa da Uefa, em 2003, e a última em 2011), uma Supercopa da Europa (1987), 20 ligas nacionais (ao todo são 27), 12 Taças de Portugal (em toda história o Porto ganhou 16) e 19 Supercopas de Portugal (São 20 no total, mas o torneio foi criado apenas em 1979).

Não há dúvidas de que na “Era Pinto da Costa” os azuis e brancos se acostumaram com as vitórias. Para se ter ideia, nesse período conquistaram mais títulos nacionais do que todos os outros clubes do país somados: 20 x 14 (11 do Benfica, 2 do Sporting e 1 do Boavista).

Foto: Divulgação/FC Porto - São 58 títulos em 34 anos de gestão Pinto da Costa

Foto: Divulgação/FC Porto – São 58 títulos em 34 anos de gestão Pinto da Costa

Um retrospecto vitorioso também significa uma cobrança maior por resultados. Quem vence quer seguir vencendo, e quando isso não acontece o impacto é maior.

O time da cidade invicta não levanta um caneco desde a Liga Portuguesa de 2013, quando teve uma emblemática vitória sobre o rival Benfica na penúltima rodada, com direito a gol do hoje são paulino Kelvin aos 47 minutos do segundo tempo, que lhe rendeu não só os três pontos, como também a retomada da liderança.

Neste período viu os Encarnados ganharem o tri-campeonato da competição, além de uma Taça de Portugal e três edições da menos prestigiada Taça da Liga.

Apenas entre 1999 e 2002 os portistas viveram um jejum desse porte sob o comando de Pinto da Costa, vencendo apenas um Taça de Portugal e retomando o caminho das conquistas em 2003, com José Mourinho, que venceu tudo o que viu pela frente.

Foto: Uefa.com - Título da Champions transformou Mourinho no Special One

Foto: Uefa.com – Título da Champions transformou Mourinho no Special One

Em pouco menos de três anos, três técnicos treinaram o time do Estádio do Dragão. Na temporada 2013/14 houve a curta passagem de Paulo Fonseca (atualmente no Braga, adversário deste domingo na final da Taça de Portugal), que levou o modesto Paços de Ferreira à UEFA Champions League e chegou para substituir Vitor Pereira, mesmo após o título na temporada 2012/13.

A ânsia por títulos triturou o novato Fonseca, que, apesar de bom técnico, não conseguiu resistir à forte pressão de um clube que se acostumou a vencer.

Foto: Sapo.pt - O Porto não teve paciência com o promissor Paulo Fonseca

Foto: Sapo.pt – O Porto não teve paciência com o promissor Paulo Fonseca

Foi a vez de Julen Lopetegui chegar ao Porto, e com ele uma nova filosofia. Apesar da pouca experiência em equipes adultas, o espanhol fez história nas categorias de base da Fúria. Foi bi-campeão europeu sub 19, além de um título continental com a equipe sub 21.

Adepto do futebol de posse, Lopetegui tentou impor um “mini tiki-taka” no Dragão. Apostou em um futebol mais horizontal, com valorização do domínio da bola, linha de defesa avançada e posicionamento tático valorizando triangulações. Um 4-3-3 muito parecido com o Barcelona de Guardiola, uma clara inspiração do treinador, que defendeu o clube catalão quando goleiro, na década de 1990, ao lado do atual técnico do Bayern, com quem também foi à Copa do Mundo de 1994.

Foto: Divulgação/FC Porto - Contratação de Lopetegui foi aposta em mudança de filosofia no Dragão

Foto: Divulgação/FC Porto – Contratação de Lopetegui foi aposta em mudança de filosofia no Dragão

Mais do que isso, influenciou a maneira da equipe contratar. Tido como um clube que sabe lucrar muito bem com as suas vendas, o Porto sempre valorizou a equipe de scout no que diz respeito à encontrar jogadores talentosos e, acima de tudo, promissores fora da Europa.

Para efeito de comparação, o trio de ataque vencedor da Liga Europa em 2011, formado por Falcão, James Rodriguez (ambos vendidos ao Mônaco) e Hulk (ao Zenit), rendeu aos cofres portistas 125 milhões de euros. Nada mal para um investimento de 30 milhões de euros, sendo 18 deles pagos apenas pelo atacante brasileiro.

Mesmo na “seca atual”, o Dragão conseguiu fazer 92 milhões de euros com as vendas de Danilo (ao Real Madrid), Jackson Martinez (ao Atlético de Madrid) e Alex Sandro (à Juventus), no começo dessa temporada. E mais uma vez gastando apenas 30 milhões de euros.

O que os jogadores citados acima têm em comum? Todos atuavam fora da Europa, tinham enorme potencial, se desenvolveram no clube e geraram receita.

>>Leia mais: Porto e sua arte na hora de negociar<<

Com a chegada de Lopetegui, o Porto passou a investir mais em atletas já formados e adaptados ao futebol europeu, casos de Brahimi (ex-Granada) ou Corona (ex-Vitesse), assim como perdeu o pudor de receber jogadores emprestados, casos de Casemiro (Real Madrid), Tello (Barcelona) e Óliver Torres (Atlético de Madrid). Também chegaram vários espanhóis, como Casillas (ex-Real Madrid), Marcano (ex-Rubin Kazan) e José Angel (ex-Roma), todos comandados por Lopetegui na base da seleção espanhola e já acostumados com seu modelo de jogo.

Foto: Sapo.pt - Principal reforço portista, Casillas não vive grande fase

Foto: Sapo.pt – Principal reforço portista, Casillas não vive grande fase

Nenhum jogador foi adquirido junto a um clube não europeu. Layun, lateral da seleção mexicana, estava no América-MEX, mas foi contratado pelo Watford antes de ser repassado aos portistas.

Não há dúvidas de que foi uma impactante mudança de filosofia, tanto dentro como fora de campo. Uma alteração desse porte leva tempo para dar certo, mas nem sempre é possível ter o período necessário para tal.

A inconsistência dos azuis e brancos levou à demissão do espanhol em janeiro, algo incomum sob a gestão de Pinto da Costa, um presidente conhecido por não gostar de mudanças durante a temporada.

O substituto escolhido foi José Peseiro, que estava no Al-Ahly, do Egito. De certa forma uma desilusão para um clube que teve seu nome ligado a especulações envolvendo José Mourinho, Sampaoli e André Villas Boas. Até mesmo treinadores menos midiáticos como Leonardo Jardim (Mônaco), Nuno Espírito Santo (demitido recentemente pelo Valencia) ou Marco Silva (Olympiacos) tinham mais apelo com os torcedores.

Vencedor da Taça da Liga em 2013 com o Braga, Peseiro passou praticamente os últimos sete anos entre Arábia Saudita, Emirados Árabes e Egito, exceto pela passagem no clube bracarense. Adepto de um futebol ofensivo, mas sem grandes conquistas no currículo, o técnico de 55 anos optou por um modelo de jogo mais vertical.

Foto: Divulgação/FC Porto - Os Dragões caíram de rendimento com a chegada de Peseiro

Foto: Divulgação/FC Porto – Os Dragões caíram de rendimento com a chegada de Peseiro

Adotou o 4-2-3-1, dando mais liberdade para André André como um meia centralizado, com um time mais compacto, se defendendo em duas linhas e buscando o ataque com mais intensidade e de forma vertical. Mas não foi o suficiente para recuperar o Porto. A distância de 15 pontos para o campeão Benfica reforça a péssima temporada, que pode culminar no maior jejum de títulos desde que Pinto da Costa chegou à presidência caso não vença o Braga na final da Taça de Portugal, neste domingo, no Jamor.

O lado positivo do comando de Peseiro foi a maior utilização das jovens promessas portistas, que levaram o time B ao título da II Liga. Entretanto, mesmo com uma vitória na Taça, dificilmente o treinador seguirá no Dragão.

Com ele ou não, o Porto promete uma reformulação para a próxima temporada. Nada mais justo para quem tem como lema: A vencer desde 1893…

Jornalista pós graduado em Gestão Aplicada ao Esporte e um doente por futebol. Trabalha atualmente como gerente executivo de esportes na RedeTV! e já passou por Esporte Interativo, Náutico, Portuguesa e Santo André.

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