Entre o velho e o novo, Don Andrés Iniesta

  • por Victor Mendes Xavier
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Foto: Site Oficial da Uefa | A final da Champions League em Berlim, em 2015, foi o primeiro lampejo da nova versão de Iniesta

Foto: Site Oficial da Uefa | A final da Champions League em Berlim, em 2015, foi o primeiro lampejo da nova versão de Iniesta

Desde que Xavi deixou de ser Xavi, paralelamente Andrés Iniesta também foi caindo de produção. Com seu fiel companheiro de meio-campo em declínio, o mago da camisa 8 do Barcelona foi obrigado muitas vezes a cumprir mais de uma função em campo. Como fisicamente nunca foi privilegiado, era nítido o quanto sofria ao longo dos 90 minutos. A chegada de Luis Enrique ao comando técnico barcelonista representou a construção de uma nova versão de Iniesta. A primeira temporada foi complicada, é verdade. Com um time voltado essencialmente para o trio de ataque brilhar, o meia se viu tendo que trabalhar mais sem a bola, dobrando os esforços para deixar Neymar, seu parceiro pelo lado esquerdo, o mais livre possível. Às vezes, parecia até o homem mais recuado do meio, com Busquets levemente adiantado. Porém, já na reta final de 2014/2015, Lucho deu uma prévia do estilo que definiria a equipe no ano seguinte. A ideia foi controlar o “caos” e a verticalidade desenfreada criando um triangulo no meio-campo com Busquets, Messi e Iniesta que mantivesse de forma segura a posse . A excelente final de Champions em Berlim foi uma amostra do Iniesta que viria pela frente.

O primeiro semestre de 2015/2016 foi complicado para o Barcelona devido à perda de Messi por lesão por três meses. Essa ausência forçou Luis Enrique a encarregar Iniesta de quase todo papel criativo do Barça. E Andrés aproveitou para estar mais presente que nunca na construção das jogadas. Para a recordação, fica sua apoteótica exibição no Santiago Bernabéu, na goleada por 4 a 0. Iniesta acertou 98% dos passes, foi o jogador culé que mais tocou na bola e ditou o ritmo de um time que parecia dois níveis acima de seu maior rival. Os madridistas ficaram perplexos, Modric e Kroos não conseguiram pará-lo em nenhum momento, e o estádio foi obrigado a ovacioná-lo ao ser substituído. Foi incrível realmente porque foi uma partida que os grandes maestros da história do futebol assinariam com prazer. Iniesta armou, controlou, alcamou, defendeu, fez jogadas plasticamente finas e plásticas e marcou um golaço. O Marca, logo depois do jogo, foi simples, mas perfeito na colocação: foi como se o Barcelona tivesse, por um dia, a sensação de ter o melhor de Zidane em seu time. Os melhores momentos de Iniesta naquele dia não mentem.

Acostumado a uma participação alta, mas não constante, Iniesta 2016 tocou mais bolas semanalmente. Não teve altos e baixos. E quando a equipe entrou na crise de março, o 8 tratou de ser o primeiro a tentar ativá-lo, para depois serená-lo. O esforço foi tanto que, nas últimas rodadas, vimos um Iniesta mentalmente desgastado, errando passes que não sabíamos que erraria. No plano tático, Andrés não falhou: mostrou sua versão mais onipresente e brilhante no sentido de gerir um time. A estratosférica atuação na final da Copa do Rei, quando o Barcelona jogou quase um tempo e meio com um jogador a menos, liderando uma resistência que valeu um título, definiu não só o que foi Iniesta em 15/16, mas em toda a carreira: um jogador de caráter alto, com aura de vencedor e sempre disposto a se sacrificar em prol do coletivo.

Na segunda-feira, Iniesta estreou na Eurocopa sendo o melhor jogador em campo. A Espanha sofreu para vencer a República Tcheca por 1 a 0, mas os espanhóis pareceram sempre estar confiantes no triunfo porque Iniesta estava inspirado e criava perigo praticamente sozinho. Não à toa, foi o dono da assistência para o gol de Piqué. E o mais interessante da participação de Andrés em Toulose foi que ele decidiu o jogo como o velho Iniesta, aquele que o marcou com Guardiola: jogando entre linhas, conduzindo a bola cerca à área, aproximando-se do centroavante. Um Iniesta mais enganche do que interior de posse. A cada dia, o manchego prova que é uma instituição de sua seleção nacional, tal qual Luis Suárez na década de 60 e Xavi e Casillas no século XXI. A Espanha se entrega ao jogador de maneira quase que por completa. A dependência é total. Ou ele cria, dribla, assiste e marca ou não acontece nada. E contra os tchecos, em dia de individualidades em baixa como Fàbregas, Nolito, Morata e Silva, ficou mais evidente.

Foto: Site Oficial da Uefa | Na segunda-feira, Iniesta estreou na Eurocopa sendo o melhor jogador em campo

Foto: Site Oficial da Uefa | Na segunda-feira, Iniesta estreou na Eurocopa sendo o melhor jogador em campo

Del Bosque se vê em um dilema para os próximos jogos. Isso porque a Espanha que mais se mostrou sólida foi com Iniesta emulando sua função com Luis Enrique. Especialmente porque a estreia de Fàbregas foi para esquecer. O treinador não teve um nome constante e presente na base das jogadas, e aí Xabi e Xavi fazem muita falta. Ainda que a Roja tenha uma cara nova, a filosofia segue intacta e o time depende da posse para ter consistência defensiva e controle. Atualmente, não sabemos como Cesc irá se comportar. Assim, o membro mais confiável é o novo Iniesta, elaborando as situações no círculo central. Para não perder um condutor que se associe com Nolito, Silva e Morata, seria mais coerente dar entrada a Koke ou Thiago no onze inicial.

A Espanha que venceu a República Tcheca não convenceu muitos. Particularmente, este que vos escreve gostou. A margem de melhora, obviamente, existe. A lógica é imaginar que, passado o nervosismo da estreia, os comandados de Del Bosque irão evoluir rodada após rodada. O título é possível. Porque a Roja tem um goleiro fantástico e confiável. Porque a Roja tem dois zagueiros de classe mundial que poucas seleções têm. Porque a Roja tem em Sergio Busquets um homem de equilíbrio que todo time necessita. E porque a Roja tem Andrés Iniesta, esse gênio que, entre sua velha e nova versão, é um gentleman da bola que a cada competição escreve seu nome na galeria dos maiores heróis da história do esporte espanhol.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.

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