Esfaqueamos o Retrato

Foto arquivo

Foto arquivo

No percorrer da história, acostumou-se declarar o futebol brasileiro tão vitorioso quanto individual. E era o primeiro, pois o segundo se autossustentava. A exuberante e gritante individualidade bastava para a garantia de triunfos após triunfos. O dez decisivo, o nove matador, o onze oportunista eram símbolos de equipes concisas, mas incapazes de representarem um coletivo que dominasse justamente nesse ponto. E nos regozijamos.

Entregamo-nos à ideia da individualidade como característica-mor de uma suposta cultura futebolística, como se a mesma apresentasse a rigidez da pedra ou a homogeneidade do vinagre. Dir-se-á que o futebol, banhado em cultura – como de fato é – simboliza também a identidade, o que definitivamente procede. O que foge à procedência é o conceito mal formulado de que a cultura não circula nos campos do dinâmico, do mutável. Ledo engano. Tão volátil como gás de cozinha, os elementos culturais podem tanto manter-se intactos, despercebidos e invisíveis, quanto explodirem. E essas explosões aconteceram a nível mundial, em muitos pontos, não sendo apenas incendiárias senão revolucionárias.

Lembrar-lhes-ia das Espanhas que vimos antes de Luis Aragonés e Vicente del Bosque, cuja semelhança com as sangrentas touradas residia na evidência de lutarem com a fúria e o destino de um touro. Aqueles galegos, ao fim e ao cabo, eram apenas isso: um gigante e bravo animal condenado à morte. E ela vinha. A superação germânica, regada a suor, também era notável pelo pragmatismo e pela eficiência. Pergunto-lhes, quais eram as semelhanças táticas daquele esquadro germânico que titubeou contra o Brasil de Kléberson em 2002 e o esquadro que tacou fogo nos canarinhos na última Copa? Quais eram os pontos em comum entre os espanhóis cuja maior façanha havia sido a eliminação contra a Coréia do Sul em 2002 e os campeões de 2008, 2010 e 2012? Tantos quanto entre as cores preta e branca.

Reinventar-se. A cultura se reinventa a cada segundo, identifica pontos fortes e fracos, constrói e destrói, sem remorsos. Os futebóis citados não hesitaram em se reinventar, colocaram na linha de fogo toda uma história no almejar de algo novo. O Brasil abraçou as suas figuras, suas individualidades, a certeza de que, com um momento de brilhantismo transcendental, sempre haveria alguém para nos salvar do incêndio. Hoje penso que haveria sido melhor ser consumido pelas chamas.

No “Retrato de Dorian Gray”, do britânico Oscar Wilde, um quadro é pintado, mostrando a gloriosa beleza do seu modelo, o mencionado Dorian Gray. Apaixonado por si mesmo, Dorian abraça o hedonismo e traça um diabólico acordo: anseia pela juventude eterna, fazendo com que a figura do quadro envelheça e sinta os podres da vida, enquanto ele, Dorian, manteria a beleza do seu indivíduo. Dorian vê na própria estética o único trunfo e objetivo de sua vida. É seu único recurso para a alegria e a única chave para a glória. Depois de anos vivendo sob esse trato e, ainda assim, sentindo as angústias da vida, percebendo que não poderia mais depender apenas da beleza, Dorian, em um momento de desespero, esfaqueia sem dó nem pena o famigerado retrato. O resultado final é um quadro intacto e um velho esfarrapado e horroroso agonizando no batente.

Nós somos esse velho, com os farrapos e o horror. Esfaqueamos o retrato. Frente a tantas evoluções táticas, inovações estratégicas no futebol, notamos que não podemos mais nos basear na nossa beleza e plasticidade, a fim de almejar a efetividade de outrora. Esfaqueamos o retrato. Percebemos que, mesmo com Rivaldos e Ronaldos, bailaríamos uma marchinha de Oktoberfest em um confronto contra os atuais alemães. Demo-nos conta que há de seguir adiante, mostrando que não apenas na individualidade se constrói campeões. Esfaqueamos o retrato. Sem dó nem pena.
É hora de escrever um novo livro.

Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.

  • facebook