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Super Mario ou Mario falso? O dilema de Joaquim Löw

A Alemanha encerrou a primeira fase da Eurocopa gerando mais dúvidas do que certezas. É verdade que, em três jogos, a atual campeã do mundo não sofreu nenhuma derrota e ainda por cima não viu o gol defendido por Neuer ser vazado. No entanto, no que se refere ao jogo, a locomotiva de Joaquim Löw ainda está engrenando. Um dos maiores problemas que o treinador convive tem a ver com o atacante (ou não) do seu 4-2-3-1, o que tem consequência no restante do sistema ofensivo: escalar ou não um centroavante de ofício?

Orquestrado por Toni Kroos, esse brilhante meio-campista com uma capacidade única no futebol mundial de controlar o jogo à sua maneira, a Alemanha tem mostrado uma alta capacidade para mover rápido a bola numa Eurocopa equilibrada e taticamente muito igualada, com os espaços entre linhas sempre fechados. A virtude ofensiva para chegar na área adversária continua intacta, muito porque Özil e seus movimentos e passes estão finos em solo francês. Porém, percebe-se em poucos minutos que falta algo essencial: qualidade para finalizar. E aí chegamos no problema que debateremos ao longos do texto.

ODD Shark
Foto: Site Oficial da Uefa | O melhor de Thomas Müller na Alemanha só é possível de ser visto com um centroavante de origem

Foto: Site Oficial da Uefa | O melhor de Thomas Müller na Alemanha só é possível de ser visto com um centroavante de origem

Desde que rumou ao Bayern de Munique, Mario Götze foi mudando gradativamente o seu estilo. De enganche sereno em meio à eletricidade do Dortmund de Klopp, passou a habitar as zonas mais adiantadas, numa tentativa de Guardiola de emular no jovem o papel de falso nove que Messi cumpriu com perfeição à época de Barcelona. A temporada vigente foi complicada para Mario. As chegadas de Douglas Costa e Coman e a tentativa de Guardiola de “alemanizar” mais seu Bayern fizeram Götze cair em esquecimento, a ponto de perder relevância até como décimo-segundo jogador. Löw, pelo contrário, confia em Götze. O quer em seu time titular. Mas o quer justamente como falso nove, porque Müller, pela direita, e Özil, por dentro, são figuras intocáveis.

Löw não pode contar mais com o eterno Miroslav Klose, camisa 9 prático, que dava sentido ao estilo germânico. Mesmo na Copa de 2014, o técnico mostrara a tentativa de ter um time sem centroavante: até o simbólico jogo contra a Argélia, pelas oitavas de finais, o onze inicial era formado Müller, Götze e Özil revezando na posição. Klose tinha uma energia especial que contagiava toda a equipe. Sobretudo Müller, figura apagada na Euro até o confronto contra a Irlanda do Norte. Os movimentos de Klose eram uma bênção para Thomas, porque o centroavante da Lazio sabia se deslocar aos flancos de uma maneira que deixava um espaço para Müller romper em diagonal e aproveitar. Talvez por isso Löw insiste tanto em Götze. Teoricamente, ter um meia-atacante ágil como 9 favorece os homens de lados. Acontece que, na Eurocopa de 2016, não está sendo assim.

Foto: Site Oficial da Uefa | A experiência de Mario Gómez, seu veneno frente a frente ao arqueiro e a contribuição na bola parada começam a pesar na Alemanha

Foto: Site Oficial da Uefa | A experiência de Mario Gómez, seu veneno frente a frente ao arqueiro e a contribuição na bola parada começam a pesar na Alemanha

A experiência de Mario Gómez, seu veneno frente a frente ao arqueiro e a contribuição na bola parada começam a pesar, especialmente pelo último fator. Por mais que tenha mudado o estilo de jogo nos últimos dez anos, a Alemanha ainda não descartou totalmente os cruzamentos à área. Abrir o jogo, atacar pelas pontas, levar a bola à linha de fundo e ter um “poste” para rematar de cabeça marcou o maior time alemão do século XXI, o Bayern de 2013 de Jupp Heynckes. Em sua última temporada, Guardiola também elevou ao máximo esse aspecto, com Douglas Costa cruzando sempre para Lewandowski. Ademais de um jogador mais fixado na área, a seleção tetra-campeã do mundo também ganha em profundidade, já que não há obrigação de Draxler, Müller e Özil podem se preocupar mais com suas funções iniciais de meio-campistas.

Cabe reiterar que a Alemanha com Götze de falso nove joga bom futebol. Estava evoluindo na Eurocopa. Mas perde essência. O Mario “falso” dá à sua equipe domínio, associação com Özil e agilidade em curto espaço. Mas o Super Mário “verdadeiro” respeita a genética germânica e ativa o melhor de Müller, o mais alemão de todos os alemães. Isso porque Müller clama por um membro que distraia a marcação no miolo de zaga e saiba se mover em espaços curtos. Contra a Irlanda, Gómez teve 45 minutos impecáveis, qualificando os remates e promovendo as chegadas de Thomas desde trás. Foi 1 a 0, mas poderia ser uns 4 a 0 com hat-trick de Müller.

Foto: Site Oficial da FIFA | Alemanha com Götze de falso nove joga bom futebol. Mas perde essência

Foto: Site Oficial da FIFA | Alemanha com Götze de falso nove joga bom futebol. Mas perde essência

É por isso que, por mais que a grande fase de Mario Gómez já tenha passado, não dá para descartá-lo de momento, especialmente pelo fato de Klose ter se aposentado da seleção. Löw tem opções diferentes para se adaptar a contexto. Nas oitavas-de-finais, vem aí a Eslováquia de Marek Hamsik. Não dá para imaginar outra coisa a não ser um time se comportando de maneira defensiva, fechando os espaços atrás e saindo em ataques direto, um cenário que a Alemanha já encontrou, quando empatou por 0 a 0 contra a Polônia. O Mário de verdade pode ser a solução.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.