A força de Pepe

  • por Victor Mendes Xavier
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Foto: Site Oficial da UEFA | Pepe chegou ao Real como o "homem de 30 milhões de euros". A desconfiança foi alta.

Foto: Site Oficial da UEFA | Pepe chegou ao Real como o “homem de 30 milhões de euros”. A desconfiança foi alta.

Real contrata desconhecido zagueiro do Porto por desnecessários 30 milhões de euros, exclamava a capa do AS no dia em que o Real Madrid oficializou a contratação de Kepler Laveran Ferreira Lima, o famoso Pepe, alagoano naturalizado português. Sob esse cartel inquisitivo, o defensor aterrizou na Espanha logo depois do clube de Chamartin conseguir interromper a sequência de títulos espanhóis do rival Barcelona e quebrar um incômodo jejum de três temporadas sem levantar nenhuma taça. “Pepe nem nome de futebolista é!”, reclamavam uns; “pagar tudo isso por um jogador que o Brasil não fez questão de ter é um desleixo“, diziam outros; “quem é, afinal, Pepe?”, perguntava a maioria.

A desconfiança no entorno era enorme, já que o custo da transferência para o mercado de 2007-2008, de fato, foi muito alto. E, realmente, Pepe era anônimo para o grande público, especialmente na elite. Para completar o desespero, o início do luso-brasileiro não foi o mais desejável. Nos dois primeiros jogos oficiais, o Real caiu por 6 a 3 para o Sevilla na Supercopa da Espanha. No Bernabéu (vídeo acima), Pepe viu seu primeiro cartão vermelho com o uniforme blanco. Mas, como passa com os melhores, cedo ou tarde a qualidade interna aflora. Pepe colocou a cabeça no lugar, acalmou os nervos e… boom! Impactou de maneira surpreendente o sistema de jogo de Bernd Schuster. Para aquele Real Madrid, que prezava por ter a posse de bola, jogar a partir do passe e com um estilo de jogo de certa forma até “suicida”, o alagoano tornou-se ideal pelo ar fresco, físico, de cotas de roubo e antecipação veemente.

Todas as dúvidas foram dissolvidas em um 23 de dezembro de 2007, data que certamente o nosso protagonista nunca irá esquecer. Ante o mais adequado dos rivais, no mais adequado dos estádios, o futebol espanhol deu boas vindas a Pepe. No Camp Nou, contra o Barcelona e enfrentando um grande Samuel Eto’o e Ronaldinho Gaúcho, o zagueiro deixou uma atuação para a recordação. 90 minutos de um nível defensivo que todavia ninguém poderia imaginar. Uma autêntica exibição. Tudo mudou para o gajo naquela noite. Ali, tomamos consciência do poderio do central, das armas que ele poderia usar, ainda que sob risco de cometer imprudências que o negativizavam (e aconteciam com frequência, diga-se de passagem). Pepe já era determinante.

Pepe estava na estrada para o inferno, mas começou a percorrer o destino rumo ao céu:

Até a chegada de Mourinho em 2010, poucas coisas mudaram em Pepe. Seguia fazendo lances que ratificavam uma capacidade defensiva fora do normal, mas também mostrava os conhecidos erros por excesso de ímpeto. A última temporada pré-Mou foi complicada. Uma grave lesão nos ligamentos do joelho o tirou dos gramados por seis meses, deixando como objetivo único chegar em boas condições à Copa do Mundo de 2010. Pepe era uma esperança de consistência para a seleção de Carlos Queiroz. Dois anos antes, na Euro de 2008, Felipão, em sua última competição pelo time lusitano, encontrou em Pepe uma outra figura a quem se “agarrar”, além do melhor de Cristiano Ronaldo (até aquele momento).

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Na estreia contra a Turquia, o defensor anotou um golaço que demostrou que estávamos diante de um futebolista diferente. No entanto, Portugal caiu nas quartas-de-finais (injustamente) para a Alemanha e viu a euforia ser deslocada para o seu país vizinho, a Espanha, que viria a ser a campeã. Pepe conseguiu se recuperar a tempo do Mundial na África. Fez parte do onze inicial português, dessa vez como volante, posição que Carlos Queiroz escalou durante todo torneio. Teve um rendimento correto, mas nada de muito significativo.

Foto: Site Oficial da Uefa | A chegada de José Mourinho ao Real Madrid significou a explosão de Pepe como jogador

Foto: Site Oficial da Uefa | A chegada de José Mourinho ao Real Madrid significou a explosão de Pepe como jogador

A explosão veio com José Mourinho, e, em 2011/2012, alcançou seu melhor nível. A principal mudança no sistema defensivo de Mourinho foi deslocar Ramos da lateral para a zaga. Com o espanhol e o português como dupla de zaga, o comandante elevou à máxima potência o conceito de intensidade defensiva. Isso porque o técnico pôde adiantar em quase 20 metros a linha defensiva, situando-a quase no círculo central, com a bola. Assim, quando o Real perdia a bola, tinha dois defensores antecipadores e velozes para tentar recuperá-la rapidamente ou correr atrás na recomposição. Mourinho criou e Portugal aproveitou.

2012 viu o Pepe mais descomunal fisicamente. Plenamente adaptado a um Real Madrid frenético, o zagueiro ofereceu sua versão mais espetacular. Aos 29 anos, a plenitude física batia à porta. A Euro de 2012 foi de um tardio, mas decisivo Cristiano Ronaldo e de um Pepe que comandou a resistência lusa. O conjunto treinado por Paulo Bento era baseado na consistência defensiva, pouca posse e ataques diretos. Portugal era muito atacado e seus zagueiros eram obrigados a atuar constantemente, justamente o que Pepe era capaz de tolerar. Diante da Espanha, na semifinal, mostrou sua melhor forma. Os lusos foram eliminados nos pênaltis ficando a poucos passos da sonhada final, que poucos mereciam tanto quanto a besta de Maceió.


A última evolução de Pepe esteve condicionada ao fato de Carlo Ancelotti ter substituído Mourinho no comando técnico madridista. Graças ao estilo de jogo mais lento e analítico do Real de Carleto, o zagueiro foi obrigado a pensar mais o jogo: chegou a hora de trocar os décimos de velocidade por segundos de reflexão. E ele aprendeu a lição como um original maestro. No ano em que enfim conquistou a sonhada e perseguida La Décima, o Real Madrid viu, mais uma vez, um imperial Pepe.

Foto: Site Oficial do Real Madrid | Carlo Ancelotti e Pepe: técnico italiano foi importante para a última evolução do luso-brasileiro

Foto: Site Oficial do Real Madrid | Carlo Ancelotti e Pepe: técnico italiano foi importante para a última evolução do luso-brasileiro

Doze meses depois de sofrer uma lição de Lewandovski numa semifinal de UCL, quando o Real foi derrotado por 4 a 1 para o Borussia, Pepe cravou sua volta por cima quando mostrou-se um verdadeiro muro diante do Bayern de Munich de Guardiola. Os bávaros, por natureza, encurralaram os merengues dentro de seu próprio campo e a saída para Ancelotti foi formada uma defesa de área, com linhas em blocos baixos. A aplicação tática para abnegar espaços para Robben, Ribery e Müller de Carvajal, Sergio Ramos, Fabio Coentrão, Xabi Alonso e Pepe foi histórico. Em 180 minutos de eliminatórias, a meta de Casillas passou em branco. Resultado: Real Madrid classificado à final de Lisboa com um impiedoso e memorável 5 a 0. Pepe já estava na história do madridismo.

O CANTO DO CISNE

A temporada 2015/2016 foi complicada para Pepe. O Real Madrid atravessou por um autêntico inferno esportivo sob o comando de Rafael Benítez. Seus jogadores perderam confiança e o time parecia anti-competitivo. A chegada de Zidane serviu para resgatar o espírito anímico do elenco. Regularmente, o luso-brasileiro certamente não fez seu melhor ano, mas a liderança e a garra exibida nas maiores noites não podem ser deixadas de lado. Quando o Real Madrid mais precisou, eis que Pepe mostrou por que vai completar dez temporadas como titular no Santiago Bernabéu. As partidas contra Manchester City e Atlético de Madrid (semi e final da Liga dos Campeões) desenterraram um zagueiro que parecia fadado ao declínio. O Real abocanhou mais uma Orelhuda e Pepe mais uma vez estava no topo. Mas o melhor estava por vir.

Foto: Site Oficial do Real Madrid | Em 2015, o Real conquistou seu décimo-primeiro título de Liga dos Campeões. Na final contra o Atlético, Pepe mostrou por que vai completar dez temporadas como titular do Real

Foto: Site Oficial do Real Madrid | Em 2015, o Real conquistou seu décimo-primeiro título de Liga dos Campeões. Na final contra o Atlético, Pepe mostrou por que vai completar dez temporadas como titular do Real

A Eurocopa tinha uma dívida histórica com o zagueiro. Brasileiro de origem, sente Portugal como sua verdadeira nação, a que acolheu no momento em que mais precisava. É por isso que cada partida com a camisa lusitana é motivo de seriedade extra. E depois de ser considerado vilão pela eliminação precoce na Copa do Mundo do Brasil (graças à desastrada expulsão contra a Alemanha que prejudicou Portugal na continuidade do torneio), Pepe sabia que tinha a obrigação de terminar a competição na França gerando mais elogios do que críticas negativas.

Bingo. Aos 33 anos, três anos depois da exuberância física com Mourinho, Pepe mostrou em sete jogos que continua sendo um central que condiciona partidas, domina rivais e (sim) decide títulos.

A fase de grupos foi complicada em termos gerais porque Portugal “não foi” Portugal. Fernando Santos montou um time baseado em seu meio-campo. Era a Portugal de Andre Gomes, Guerreiro, João Moutinho e Nani. Jogou bonito, mostrando bom manejo com a bola. Mas o dna futebolístico que está implantado no sangue do futebol português é outro. Para competir no mata-mata, Santos recuperou a identidade de Felipão e Paulo Bento, da equipe auto-suficiente, paciente, dura de enfrentar, que mentaliza a destruição do rival. O 4-3-1-2/4-3-3 passou a ser um 4-4-2 passivo. Portugal não avançava mais as linhas, e sim fixava-as em seu território. Portugal voltou a ser de Pepe. E Pepe voltou a ser de Portugal. Foi o que vimos contra a Croácia, nas oitavas, e Polônia, nas quartas.

Essa final é a partida mais importante da minha vida, disse às vésperas do duelo contra a França, legitimando o amor e carinho por Portugal. E a prova de caráter desse magnífico zagueiro ficou mais visível na prorrogação da decisão de Paris. Do minuto 1 do tempo extra até o gol de Éder, Portugal colecionou uma ocasião, um chute no travessão, 55% de posse de bola e segurança na retaguarda que só foi possível porque Pepe, mesmo cansado, jogou pelo seu povo. Não poderia desistir. Depois que tirou o zero do marcador, Portugal, naturalmente, foi forçado a recuar porque a França viria para cima por inércia. No penúltimo minuto, Martial poderia ter levado a final para os pênaltis, não fosse pelo bloqueio do imponente defensor.

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Tecnicamente, a verdade é que Pepe esteve um pouco impreciso nos 90 minutos (o que é totalmente válido, visto que não jogara a semi por uma lesão muscular). Mas a supremacia nos 30 minutos finais serviram para certificar o simbólico prêmio de Melhor em Campo em Saint Denis e definir o top 3 dos melhores jogadores da competição junto a Gareth Bale e Antoine Griezmann. Para este que vos escreve, Pepe foi, à sua maneira, o mais dominante homem da Eurocopa de 2016. Se a importância de Cristiano Ronaldo esteve ligada mais à liderança exercida como capitão, Pepe foi o melhor dos 23 guerreiros portugueses dentro de campo.

Foto: Site Oficial da Uefa | A fera e o craque: na Eurocopa de 2016, os papéis se inverteram. Pepe foi o melhor português no torneio

Foto: Site Oficial da Uefa | A fera e o craque: na Eurocopa de 2016, os papéis se inverteram. Pepe foi o melhor português no torneio

Os deuses do futebol, aqueles mesmos que vez ou outra não são 100% justos com nosso protagonista, enfim foram benevolentes. No futebol, nada é tarde. Portugal e Pepe caçavam a inédita taça há mais de uma década. Quando ninguém esperava, ela chegou. A impressão que o defensor passou foi de que nada o tiraria aquela Euro. Pepe não estava marcando adversários ou defendendo zonas: estava defendendo uma equipe inteira. Quem ousasse pisar em sua área de proteção, seria repelido.

Às armas!

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.

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