Afinal, por que os gols secaram nas grandes finais?

A cada dois anos, o mundo do futebol pára e as grandes seleções se enfrentam, seja na Copa do Mundo ou nas competições continentais. A ideia é que, quando os melhores se enfrentam, os jogos se tornam envolventes, mas, com raríssimas exceções, como a primeira fase da Copa do Mundo de 2014, isso não está ocorrendo.

As partidas das fases eliminatórias dessas competições têm sido, em sua maioria, marcada por muito estudo e pouca coragem. Assim, seleções com menos jogadores técnicos e com uma tática mais voltada para o contra ataque têm conseguido segurar bem as partidas e ir longe nas competições, como foi o caso de Costa Rica na Copa e de Portugal na Euro.

A final de uma competição é um momento mágico do futebol, é aquele momento em que craques se consagram e surgem heróis. Cada vez mais, porém, esses heróis têm sido aquele goleiro que defende o pênalti decisivo ou fecha o gol ou aquele zagueiro que impede um gol no último minuto da partida. Cada vez mais, surgem os vilões, como Higuaín, que acabam desperdiçando as pouquíssimas chances que são criadas nessas partidas.

Vem então a constatação: nas últimas oito finais continentais ou mundiais, nos últimos 2 anos, em sete houve prorrogação, e SEIS delas acabaram em 0 x 0 no tempo normal.

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Os jogos finais dessas competições, porém, estão sendo marcados pelo futebol covarde e jogos sem gols estão sendo cada vez mais comuns. Basta lembrar que as últimas quatro grandes finais (Copa de 2014, Copa América de 2015 e 2016 e Euro de 2016) acabaram sem gols no tempo normal. Mas, afinal, por qual motivo, as finais de grandes competições, teoricamente o encontro das melhores seleções, estão carente de gols?

Motivo 1: A falta de entrosamento

Qualquer pessoa que já jogou uma pelada de final de semana sabe: quanto mais conhecemos a maneira de jogar dos nossos colegas de time, mais fácil fazer o famoso “1-2” e lançar bolas em profundidade, pois na hora que o meio-campista tocar na bola o atacante já saberá para onde correr. Ora, no futebol profissional ocorre o mesmo. Os atletas treinam juntos centenas de dia durante o ano e, por mais que hajam alterações na equipe padrão, já se conhecem, o que permite que façam mais jogadas entre eles. Não basta uma seleção ter os 11 melhores atletas do mundo, individualmente, se eles nunca tiverem jogado juntos. Eles precisam de um entrosamento mínimo para formarem uma equipe competitiva, pois o individualismo pode resolver apenas parte dos jogos.

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Basta comparar os passes de Lionel Messi no Barcelona, que sempre encontram um atleta de sua equipe, com os da seleção, que em boa parte das vezes não é entendido pelos seus companheiros de ataque. A equação, portanto, é clara: menos entrosamento = menor quantidade de gols, e assim sempre será.

 

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Motivo 2: Técnicos que carecem de idéias novas

A seguinte afirmação é um fato: os melhores técnicos do mundo treinam os clubes. José Mourinho, Pep Guardiola, Jurgen Klopp e outros que frequentam qualquer lista de melhor técnico do mundo nunca treinaram e, em sua, maioria, não pensam em treinar grandes seleções, exatamente porque o trabalho nas seleções não é algo que possa ser realizado de forma frequente.

Assim, o comando técnico das seleções, inclusive das grandes, com raras exceções, acaba ficando na mão de treinadores não tão brilhantes, às vezes obsoletos em suas maneiras de trabalhar. Pegue o exemplo do Chile com Jorge Sampaoli e podemos ver o que pode fazer um grande técnico, com ideias novas, em uma seleção com jogadores bons.

Se não se tem técnicos brilhantes e também não se tem tempo para treinar, dificilmente virá o entrosamento, como discutimos no motivo 1, e dificilmente, então, teremos algo novo, um esquema novo que surpreenda a todos ou uma maneira de jogar de forma compacta que aprimore as habilidades individuais de cada jogador em uma grande partida.

Temos então mais um item para nossa equação: seleções comandadas por técnicos que carecem de ideias novas = menor quantidade de gols.

Fernando Santos tinha fracassado com a Grécia em 2014 (Foto: fifa.com)

Fernando Santos tinha fracassado com a Grécia em 2014 (Foto: fifa.com)

 

Motivo 3: O cansaço

Toda a preparação física dos atletas de futebol é feita obedecendo a ciclos. Espera-se que eles estejam voando em determinada época da temporada, e que a forma máxima se mantenha até determinada época, na qual os jogos mais decisivos das competições de clubes serão realizados. Se eles atingem seu auge antes, correm o risco de chegar nas partidas finais “quebrados”, se atingirem depois, correm o risco de sequer se classificarem para tais partidas.

Ora, os preparadores físicos visam os melhores para os seus clubes, lógico, então é de se esperar que, quando vão jogar as grandes competições de seleções, realizadas no final das temporadas, os atletas já estejam esgotados, rendendo bem menos que renderiam, por exemplo, no meio da temporada ou em sua fase mais aguda. Quando se considera, então, que normalmente tais competições levam a uma maratona de jogos em apenas 3 ou 4 semanas, mesmo aqueles que renderam bem nas primeiras partidas tendem a estar mais esgotados fisicamente perto da decisão, por mais que seja uma partida mais importante.

Assim, jogadores cansados = menor quantidade de gols

Motivo 4: O conhecimento das equipes

Vamos supor que uma equipe contrariou os motivos 1 e 2, chegando às fases decisivas de uma grande competição praticando um futebol com inovações táticas nas mãos de um treinador diferenciado. Ela vai ter muito mais dificuldade em aplicar, nas fases decisivas, as mesmas jogadas que obtiveram sucesso nas primeiras fases, já que será uma equipe mais estudada pelos adversários, que terão mais dados para dissecá-la.

Isso é um dos fatos que explica porque normalmente o “deadline” das grandes surpresas são a semifinal das grandes competições: conforme as fases vão passando, suas táticas de jogo (ou de anti-jogo) ficam mais conhecidas e mais fáceis de serem anuladas. Esse foi o caso da Costa Rica na Copa (embora tenha merecido vencer a Holanda) e de equipes como a Croácia ou a Turquia em Copas passadas.

Temos então o quarto item de nossa equação, equipes mais estudadas fazem menos gols.

Motivo 5: O medo

Um volante que em seu clube costuma fazer 20 gols por temporada está representando o seu país em uma grande final. Seu time está melhor em campo mas a partida ainda está empatada. O que ele faz então? NADA. Ele não vai ao ataque, com medo de tomar bola nas costas. No fundo, ele sabe que se não tentar nada ele não será o herói, mas, mais importante, não será o vilão.

Não adianta, o medo de fazer algo diferente, seja do técnico ou dos jogadores, permeia grandes finais. Todos eles sabem que um erro na defesa pode (e vai) fazer o atleta ser lembrado para sempre como o vilão, como o Toninho Cerezo da vez. Assim, laterais e volantes “fazem o fácil” e deixam os meio-campistas e atacantes decidirem sozinhos. Às vezes eles conseguem, como Éder, que lutou sozinho na jogada do gol da Euro.

E Gonzalo Higuaín? Bem, esse sempre será o vilão, porque apareceu em três momentos decisivos de três grandes finais em que sua equipe perdeu muito devido aos gols que ele perdeu. Mas e o craque Agüero, do milionário Manchester City, quantas chances criou nas três finais? É, os vilões, em sua maioria, também serão aqueles que tentaram mais.

https://www.youtube.com/watch?v=JYsXVQrl5Aw

A frase é conhecida: o medo de perder tira a vontade de ganhar”.

Sem vontade de ganhar, realmente não há como se marcar gols, pelo menos de forma consciente.

Temos então a nossa “equação”:

Falta de entrosamento + Técnicos obsoletos + Cansaço + Equipes bem estudadas + Medo = Finais sem gols

Como mudar isso?

É complicado tentar mudar um futebol que, atualmente, é feito pelos clubes e para os clubes, deixando o futebol entre seleções como uma pequena lembrança do que já foi outrora. Ora, os clubes pagam milhões, às vezes bilhões por temporada, para que seus jogadores lá rendam. Os melhores técnicos estão nesses clubes, para que seu trabalho possa ser feito de forma contínua. Como então tornar o futebol de seleções mais atraente?

Essa é uma pergunta que a FIFA, a UEFA, a CONMEBOL e as demais confederações regionais devem responder. Uma sugestão, para mim, seria a de condensar mais jogos das chamadas “data FIFA”. Ao invés dessas “datas” durarem uma semana, durariam 2 semanas ou 3 semanas para que as equipes pudessem treinar por mais uma semana. Ou até mais que isso, por exemplo, se as Eliminatórias Europeias previssem 10 partidas para cada equipe, elas seriam disputadas em duas “sessões” de cinco partidas cada, durando, quem sabe, um mês cada, e as demais “data FIFA” durante a temporada seriam excluídas. Como compensar os prejuízos dos clubes, readaptando seus calendários, seria algo para as confederações pensarem.

Outra ideia seria a de mudar a data das grandes competições. Elas, porém, também não poderiam ser realizadas no início do ano, devido ao forte calor no hemisfério sul e no inverno no hemisfério norte. Uma data na primavera ou outono poderia propiciar a presença de atletas em melhores condições para representar suas seleções, mas também seria maléfico para os clubes.

Enfim, é difícil conciliar o futebol entre seleções com futebol interclubes, mas, se as coisas continuarem como estão, cada vez mais as grandes competições entre seleções estarão fadadas a serem decididas em jogos chatos, monótonos e com nível técnico e tático baixo, apesar de envolverem grandes jogadores. Aos clubes e às federações nacionais, cabem estudar soluções para o problema, que, sim, existe, embora alguns possam achar que é só uma “coincidência passageira”

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Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.

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