Cinco lições deixadas pela Euro 2016

  • por Lucas Sousa
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A Euro 2016 chegou ao fim. A expectativa por grandes jogos, até pelo que vimos na última Copa do Mundo, não foi correspondida (e tivemos algumas partidas bem chatas, pra falar a verdade), mas nem por isso o torneio continental deixou de ser importante para os próximos anos do futebol europeu. Mesmo não ditando tantas tendências e lançando jogadores quanto o Mundial, não resta dúvidas que a Euro sempre traz algumas lições para o futebol. Não necessariamente inovações, mas algumas confirmações daquilo que já acontecia nos clubes e direcionamentos para o que está por vir. Abaixo, listamos cincos dessas lições deixadas pela edição 2016 da Euro:

Existem várias formas de jogar futebol

Foto: UEFA - Com futebol pragmático e apenas uma vitória nos 90 minutos, Portugal conquistou sua primeira Euro

Foto: UEFA – Com futebol pragmático e apenas uma vitória nos 90 minutos, Portugal conquistou sua primeira Euro

É claro que é sempre muito legal ver uma equipe ofensiva, dominante e que faz muito gols, mas nem sempre isso é possível. Ou melhor, é raro. Podemos contar nos dedos de uma mão quem consegue fazer isso no futebol de hoje. A gigantesca maioria dos times/seleções precisam encontrar outros meios para a vitória, como fez Portugal. Jogou com o regulamento desde a fase de grupos e levou a taça pra casa vencendo apenas um jogo nos 90 minutos. Se defendeu muito bem e não teve vergonha de travar o jogo de seus adversários, mesmo que isso significasse não atacar muito. Jogou de forma pragmática, com inteligência, organização e dedicação. Depois de dois anos de domínio espanhol e do futebol ofensivo, é bom ver os lusos ganhando e nos lembrando que o futebol permite essa pluralidade.

O futebol que vimos na Euro é o futebol do futuro

Foto: UEFA - Muitos jogadores em pouco campo, o futebol do futuro é o jogo da ocupação de espaços

Foto: UEFA – Muitos jogadores em pouco campo, o futebol do futuro é o jogo da ocupação de espaços

Soa contraditório dizer que aquilo que já vimos é o futuro, mas pode acreditar que é verdade. A Euro 2016 mostrou as tendências do que veremos dentro das quatros linhas nos próximos anos. Defendendo, todos se posicionam atrás da bola e diminuem ao máximo o campo de jogo, forçando o adversário a criar espaços para jogar. Por sua vez, quem ataca precisa saber onde, como e quando criar/utilizar esses espaços. Por isso tivemos tantos jogos parados, como aquele Portugal x Croácia. A maior parte das seleções sabia se defender bem, mas poucas sabiam atacar. Esse jogo de disputa de espaços é o que veremos do futebol daqui pra frente. Mas fique tranquilo, isso não quer dizer que aqueles jogos movimentados estão com os dias contados. É preciso levar em conta que a Euro é um contexto diferente em relação aos clubes. Uma derrota pode significar o fim de todo o trabalho, o que faz os treinadores não se arriscarem tanto. Além disso, o tempo para treinar é curto, o que exige um projeto a longo prazo para implantar um modelo de jogo ofensivo. Ou você acha que é só coincidência Alemanha e Espanha terem os mesmos treinadores há tanto tempo?

Um bom técnico é tão importante quanto bons jogadores

Foto: UEFA - Mesmo com ótimos jogadores, Marc Wilmots não fez a Bélgica jogar

Foto: UEFA – Mesmo com ótimos jogadores, Marc Wilmots não fez a Bélgica jogar

Se o futebol é cada vez mais disputado taticamente, é fundamental ter um treinador que entenda muito do jogo. Não estamos mais nos anos 50 ou 60 quando muitos técnicos só definiam as posições dos jogadores e o resto era improviso dentro do campo. No futebol de alto nível hoje, cada movimentação é treinada e coordenada visando um objetivo. Bom, isso é o que os grandes treinadores fazem, ainda têm muitos que apenas soltam seus atletas e grita para motivá-los. Pouco adianta ter bons jogadores se quem os comanda não sabe bem como fazer. Talvez a Bélgica seja o melhor exemplo disso. A trupe de Hazard e De Bruyne tem muita qualidade, só que Marc Wilmots não está no mesmo nível.

O time cedia espaços na hora de defender e, mesmo com tantos bons nomes do meio pra frente, não conseguia criar oportunidades de gol quando encontrava o adversário postado atrás. “Ah, mas a Bélgica meteu três na Irlanda do Norte e quatro na Hungria”. Isso é verdade, agora reveja esses sete gols: dois em jogadas de bola parada e cinco de contra-ataque. Com Carrasco, De Bruyne, Hazard, Lukaku e Mertens a Bélgica tinha muita velocidade para jogar com transições rápidas (e fazia isso muito bem), só que faltou organização defensiva para conter o adversário, roubar a bola e sair em velocidade. Muito menos tinha alternativas quando precisava atacar um adversário que não dava espaços, como foi contra a Itália. Nisso entra o dedo do treinador.

O futebol coletivo traz resultados surpreendentes

Foto: UEFA - Entrosada dentro e fora do campo, a Islândia fez história na Euro

Foto: UEFA – Entrosada dentro e fora do campo, a Islândia fez história na Euro

Nenhum esporte no mundo da tantas oportunidades para os mais fracos tecnicamente quanto o futebol. E esses times “ruins” conseguem êxito quando jogam de forma coletiva, com muita organização e entrega dentro das quatro linhas. Isso ajudar a explicar o feito da Islândia. Fora a motivação de fazer uma das histórias mais bonitas da história da Euro (e do futebol), os islandeses são um grande exemplo da força do futebol coletivo, onde todos trabalham em prol do time, sem estrelismo ou individualidades. É claro que o treinador tem uma contribuição imensa nesse tipo de jogo. Lars Lagerback e Heimir Hallgrímsson, o dentista que continuará o trabalho a frente da seleção de seu país, merecem tanto crédito quanto os jogadores. Sabendo que estão num nível técnico inferior, trataram de construir uma equipe que se defendia muito bem, com os onze jogadores participando ativamente. E quando tinha a bola, minimizava as deficiências técnicas aproximando os jogadores. O futebol islandês deixou a lição de que um modelo de jogo bem treinado faz maravilhas, mesmo que os jogadores não sejam os melhores.

A seleção italiana é uma das coisas mais legais que o futebol já produziu

Foto: UEFA - A comemoração de Buffon após vitória italiana

Foto: UEFA – A comemoração de Buffon após vitória italiana

Ok, não é de hoje que sabemos dessa mística que cerca a Itália. Nós, brasileiros, conhecemos desde a Copa de 82, pelo menos. Mas nunca é demais afirmar, reafirmar e afirmar de novo o quanto é legal a seleção italiana. Porquê nós sabemos de toda a história, de tudo que a Azurra já fez, mas sempre ficamos com um pé atrás, achando que será um fiasco. De fato foi nas Copas de 2010 e 2014, porém, nas últimas duas Euros (com times bem modestos) a Itália foi surpreendente e se não fossem os pênaltis bisonhos cobrados por Zaza e Pellè, sabe-se lá onde iria parar essa seleção limitada que tinha Parolo entre os onze. Fora todo esse peso da camisa, é difícil não torcer por um time com o vibrante Antonio Conte a beira do gramado, o treinador que tenta escalar o banco de reservas na comemoração, e principalmente, não torcer para aquele que talvez seja o maior goleiro da história do futebol: Gianluigi Buffon. O arqueiro que comemora com uma intensidade de garoto mesmo aos 38 anos, que chora após a eliminação mesmo já sendo um ídolo consagrado no seu país, que abraça os torcedores que foram prestigiar a seleção. Com certeza Gigi faz muitos brasileiros serem italianos, mesmo que apenas por 90 minutos.

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Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.

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