Como tornar o ranking da FIFA mais “justo”?

A FIFA divulgou nesta quinta-feira seu ranking de julho, sem qualquer alteração de posição entre os cinco primeiros, que continuam sendo, nessa ordem, Argentina, Bélgica, Colômbia, Alemanha e Chile. Espanhóis e portugueses trocaram de posição, com os campeões da Euro saltando da oitava para a sexta posição. Entre eles, a França avançou 10 posições. Fechando o top 10, estão o Brasil (que caiu duas posições) e a Itália (que ganhou duas).

Vices de novo, argentinos são os líderes do ranking da FIFA. (Foto: afa.com)

Vices de novo, argentinos são os líderes do ranking da FIFA. (Foto: afa.com)

O destaque do mês foi Gales, que ganhou 15 posições, subindo para a décima primeira. Ainda no top 30, Croácia (27ª para 15ª), Polônia (27ª para 16ª, sim, elas estavam empatadas) e Islândia (34ª para 22ª) foram os destaques. Devido às péssimas Euro que fizeram, a Áustria caiu do top 10 para fora do top 20 (10ª para 31ª), enquanto a Ucrânia foi de 19ª para 30ª. Holanda (14ª para 26ª) e Bósnia (20ª para 29ª) saíram do top 20 devido à ausência na competição.

O salto maior (no top 50), porém, foi dado pela Venezuela, que, com uma boa Copa América, saltou 31 posições e agora é a 46ª melhor equipe do mundo, segundo a FIFA.

Nessa matéria discutiremos um pouco sobre como funciona o ranking da FIFA, que distorções suas regras podem causar e como tentar mudar isso. A matéria é longa, porque não teria como ser menor considerando tudo o que contemplaremos, então respire fundo e boa leitura!!!

Como funciona?

O ranking da FIFA funciona da seguinte forma:

– Os pontos em uma partida são calculados pela fórmula  P = M x I x T x C, onde:

  • M é a pontuação da partida, 3 pontos por vitória e 1 por empate. Em caso de partidas decididas nos pênaltis, o vencedor ganha 2 pontos e o perdedor 1.
  • I é o peso da competição, com a Copa do Mundo valendo 4,0, Copa das Confederações e Continentais valem 3,0, Eliminatórias dessas competições valem 2,5 e amistosos e pequenas competições amistosas valem 1,0.
  • T se relaciona com a força da equipe enfrentada. Vencer o primeiro do ranking dá 200 pontos e vencer a equipe 150 (ou abaixo) dá 50 pontos. Em outras palavras, seria uma fórmula do tipo T = (200-(posição-1)), que vale para adversários até a 150ª posição no ranking.
  • C se refere à força das confederações envolvidas na partida, calculada com base no número de vitórias da confederação nas últimas 3 Copas. Então, enfrentamentos entre equipes da Conmebol faz tal multiplicador ser 1,0, da UEFA 0,99 e das demais confederações 0,85 (valor mínimo possível). Ou seja, cada partida tem um valor médio para C, que depende dos valores individuais desse multiplicador para cada uma das confederações envolvidas. Se jogam UEFA e AFC, por exemplo, o multiplicador é de 0,92, médio entre 0,99 e 0,85.

– A pontuação no ranking das seleções nos últimos 12 meses é dada pela média dos pontos ganhos nas partidas realizadas naquele período. Porém, isso só vale se a equipe tiver jogado cinco partidas ou mais. Para 4 partidas, sua pontuação anual será apenas 80% da média, para 3 partidas, 60%, para 2 partidas, 40% e para uma partida, 20%.

O ranking total é definido como a soma da pontuação alcançada nos últimos 48 meses, com pesos de 100% para as partidas realizadas nos últimos 12 meses, 50% para as partidas realizadas entre 12 e 24 meses, 30% para as partidas realizadas de 24 a 36 meses atrás e 20% para as demais partidas realizadas.

Quais as distorções?

O ranking da FIFA é criticadíssimo por apresentar várias distorções, equipes que estão bem melhores ou bem piores na tabela que na “vida real”. Hoje, muito se fala da Bélgica estar na frente da Alemanha, e no próximo tópico compararemos as duas seleções exatamente para mostrar algumas “bizarrices” do sistema implantado pela FIFA.

Em um primeiro momento, porém, só olhando para a fórmula do ranking, já é possível ver algumas situações que acabam distorcendo pontuações, a saber:

  • O coeficiente C não faz sentido nenhum

Qual o sentido de se implantar o coeficiente C, até porque ele envolve a própria equipe vencedora da partida. Em outras palavras, Samoa Ocidental vencer o Brasil, para o ranking, vale menos que a Alemanha vencer o Brasil, já que no primeiro caso C será de 0,925 e no segundo de 0,995. Ora, se já existe um fator que leva em conta o peso do adversário, porque implantar o C, e, pior que isso, porque ele não depende só do adversário, mas das duas equipes…

Ainda sobre o C, ele atribui uma pontuação maior para quem enfrenta, por exemplo, San Marino, que para quem enfrenta o México ou Gana. faz sentido???

  • O peso da Copa das Nações da Oceania não pode ser igual ao da Eurocopa. E as Eliminatórias não podem ser tão valiosas assim.

Se a Copa do Mundo tem um peso de 4 pontos, uma Copa das Nações da Oceania não pode valer 3,0. Aí sim, o peso expresso por C poderia servir para definir os pesos de cada competição regional. Se a Euro e a Copa América valessem 3 pontos, a Copa das Nações da Oceania valeria metade disso e as da África e Ásia um percentual de, talvez, 66%. O que não pode é todas as competições regionais terem o mesmo peso, porque elas não têm.

Além disso, jogos inexpressivos contra Andorra, San Marino ou Samoa Ocidental terem peso de 62,5% de uma partida de Copa do Mundo talvez não seja a melhor solução. Claro, partidas contra esses adversários valem menos pontos pelo coeficiente T, relacionado à força da equipe enfrentada, mas ainda assim talvez tenha que ser revisto, já que um Itália x Espanha pelas Eliminatórias, por exemplo, não podem valer mais de 80% do valor do mesmo confronto pela Eurocopa.

  • O peso de uma grande competição não pode cair de forma abrupta de um mês para o outro.
Apenas 30% dos pontos alemães da Copa valem atualmente. (Foto: fifa.com)

Apenas 30% dos pontos alemães da Copa valem atualmente. (Foto: fifa.com)

No ranking do mês passado, a Alemanha tinha computado, com 50% de desconto, a sua pontuação da Copa do Mundo. Nesse mês, a Copa caiu para o terceiro período (de 24 a 36 meses). Assim, o peso da Copa, que era de 50%, abruptamente caiu para 30%, ou seja, com relação apenas à essa questão, um amistoso disputado apenas um mês depois da Copa valeria mais (claro, apenas em relação a esse aspecto, não aos outros, pois a Copa tem peso 4x maior que amistosos), pois 50% de seus pontos seriam mantidos, contra 30% dos resultados da Copa. Fica claro, portanto, que a solução seria uma curva mais suave de perda de valor dos pontos com o tempo.

  • Médias anuais são bizarras

Temos que levar em conta que o ranking da FIFA considera a média de resultados em períodos de 12 meses. Assim, vamos supor que uma seleção somou 6.000 pontos em um torneio, em 4 partidas. Esses 10.000 pontos eram somados a outros 8 resultados durante o “ano”. Assim que ele passa a valer para outro “ano”, vamos supor que ele junte com outros 20 jogos que a equipe fez em tal ano. Ora, o peso desses 10.000 pontos agora ficará bem menor, principalmente se parte desses resultados vierem de derrotas ou amistosos.

Além disso, tem-se a questão que será levantada no próximo tópico: há partidas em que não adianta ganhar, pois a pontuação descerá. O motivo pelo qual isso acontece é exatamente a questão das médias.

Um outro ponto é prejudicial ao considerar médias: não há sentido em tirar médias de partidas de competições com valor máximo diferente. Situações como essa sempre causarão distorções.

  • Não jogar dá mais pontos em boa parte das vezes

Considere um time como a Alemanha, que apresenta, hoje, uma média de 707,55 pontos conquistados por partida nos últimos 12 meses. Qualquer amistoso poderia apenas abaixar essa média, já que a equipe ganharia, no máximo, 594 pontos, se vencesse a Argentina (3 x 1 x 200 x 0,995).

Considerando as Eliminatórias da Copa, com peso maior, sua pontuação só aumentaria se vencesse um adversário de ranking 105 ou menor. Assim, partidas contra 14 seleções europeias só dariam “prejuízo” aos germânicos.

Esse é um dos motivos pelos quais a seleção sede de um grande campeonato, por não disputar as Eliminatórias, acaba caindo muito no ranking. Quando sediou a Copa, em 2006, a Alemanha, por exemplo, caiu da quinta posição (ranking de agosto de 2002) para a 19ª (junho de 2006, último ranking antes da Copa), chegando a ocupar a 22ª posição. Da mesma forma, o Brasil, terceiro após a Copa de 2010, chegou a ocupar a mesma 22ª posição, em 2013, antes de vencer a Copa das Confederações.

  • Alguns campeonatos continentais pesam mais que os outros, a cada período

Em 2016, coincidiu de ter Copa América e Eurocopa no mesmo ano, assim como a Copa das Nações da Oceania. Porém, a Copa da África de 2015 já não tem o mesmo peso dessas competições, assim como a Copa da Ásia, e a Copa Ouro perderá 50% do seu valor no mês que vem. Dessa forma, equipes que disputaram seus campeonatos continentais durante os últimos 12 meses são favorecidas em relação àquelas que jogaram anteriormente, que, claro, anteriormente eram as favorecidas. Não há, portanto, nunca, um ranking unânime, nos quais os pontos de todas as grandes competições mundiais ou continentais tenham o mesmo peso.

Não à toa, hoje se tem nove equipes da Conmebol entre as 50 primeiras do mundo, incluindo a Venezuela, que subiu 31 posições neste último mês. Nos últimos 13 meses, elas tiveram duas grandes competições para contabilizar. Antes da Copa América de 2015, eram apenas seis. Após a final da Copa da África de 2015, eram 12 seleções dentre as 50 melhores do mundo, incluindo Cabo Verde, Guiné, RD Congo, Congo e Guiné Equatorial, claramente outra distorção. Hoje, são 6.

Argélia é a melhor africana no ranking. (Foto:cafonline.com)

Argélia é a melhor africana no ranking. (Foto:cafonline.com)

  • A FIFA não cumpre os próprios critérios

Está bem claro que as competições continentais tem um fator I igual, de 3,0. Mas não é o que acontece na prática. Se entrar no site da FIFA e visualizar as partidas finais da Copa das Nações da Oceania, disputadas no mês passado, o leitor verificará que foi atribuído um I = 2,5 para todos os jogos.Sim, a Copa das Nações da Oceania é qualificatória para a Copa do Mundo (I = 2,5), mas também é a própria competição continental (I = 3,0). É de se esperar, portanto, que seja atribuído à ela o peso de uma competição continental.

Uma comparação que mostra algumas bizarrices!!!

Hoje, a principal reclamação, ao olhar os primeiros colocados, diz respeito à Bélgica na segunda colocação e a Alemanha na quarta do ranking da FIFA, da seguinte forma:

FIFA Julho

A situação é, portanto, parecida àquela da tabela anterior, divulgada em 02 de junho.
FIFA Junho

A Bélgica somou, em julho, 5.136,1 pontos, uma média de 733,7 pontos por partida, enquanto a Alemanha somou 6.905,3 pontos, uma média de 986,5 por partida. No acumulado dos últimos 12 meses, a Alemanha somou quase 300 pontos a mais no mês, indo à 707,55, enquanto os belgas foram a 704,28, um acréscimo de pouco mais de 115 pontos ao que já tinham. Na pontuação total do ranking, porém, os alemães somaram apenas 9 pontos, enquanto os belgas somaram 17. Afinal, por que isso?

A resposta está na coluna de 2014 no ranking atual, que engloba os resultados da Copa do Mundo e no ranking de junho eram considerados na coluna de 2015. A coluna de 2014 significa não o ano de 2014, mas os pontos conquistados entre julho de 2013 e o final da Copa do Mundo de 2014. Esses resultados, que até o mês passado contabilizavam 50% do seu total no ranking total, agora contabilizam apenas 30%. Assim, os alemães perderam mais de 200 pontos, contra uma perda menor dos belgas, suficiente para se manter à frente.

Resumindo, embora nos últimos 24 meses a pontuação de belgas e alemães sejam praticamente as mesmas, as Eliminatórias da Euro de 2015  colocam os belgas a frente dos alemães.

Os belgas caíram nas quartas pela segunda grande competição consecutiva. (Foto: euro2016.com)

Os belgas caíram nas quartas pela segunda grande competição consecutiva. (Foto: euro2016.com)

Curiosamente, se os alemães tivessem perdido, e não vencido os italianos nos pênaltis, eles teriam uma pontuação maior que hoje. A partida contra a Itália daria a eles 558,36 pontos, ao invés dos 1.116,72, mas toda a sua pontuação do acumulado anual seria dividida por 14, e não 15 resultados, chegando a 718,21 pontos, o que os levaria a um total de 1330,1 pontos, praticamente os mesmos dos colombianos.

Ainda sobre a questão dos belgas, o interessante é que, com os dados do site da FIFA, não é possível replicar os resultados do último ano. Somando as pontuações apresentadas jogo a jogo, teríamos 9.997,52 pontos, a serem divididos por 15 jogos, média de 666,5 pontos por partida, e não 704,28. Com os alemães, porém, os 10.613,29 pontos apresentados nos mesmos 15 jogos levam a uma média de 707,55 pontos por partida, exatamente o que a tabela da FIFA apresenta.

Uma curiosidade sobre os alemães é que as partidas contra Gibraltar, válidas pelas Eliminatórias da Euro, NÃO FORAM VÁLIDAS para o ranking da FIFA, uma vantagem, já que, por exemplo, uma vitória sobre Andorra (que na teoria teria um ranking melhor) valeu apenas 371,25 pontos para os belgas, bem menos que sua média por partida.

Como aprimorar o ranking?

O ranking da FIFA tem um aspecto claro: é um ranking atual, que leva em conta os resultados atuais. Mas não deveria ser só isso…

Por ser utilizado em chaveamentos de grandes competições, ele deve realmente ser atual e em nada deve pesar, hoje, o título da Grécia de 2004, se perderam duas vezes para as Ilhas Faroe nos últimos meses. Porém, é importante que avanços em competições importantes também sejam levados em conta, além de perdas menos abruptas de pontos anteriores e uma uniformização de pontuação para as equipes de todos continentes. Assim, as seguintes sugestões são válidas para aprimorar bastante o ranking atual, tornando-o mais condizente com a realidade futebolística mundial.

  • Fim do coeficiente C

Esse ponto já foi discutido anteriormente. Não faz sentido você ter uma pontuação maior por enfrentar San Marino que por enfrentar México ou Gana. Não faz sentido, também, a Alemanha ganhar mais pontos por uma vitória sobre o Brasil que Samoa Ocidental pelo mesmo feito.

  • Fim da redução da média para equipes com menos de 5 partidas anuais

Esse multiplicador que reduz a média para equipes com menos de cinco partidas anuais também não faz sentido. Alguém lá dentro deve ter pensado: e se Comores vencer a Argentina e nunca mais jogar uma partida…. só pode ter sido. Esse fator é justificável em rankings provisórios de diversas modalidades, mas nesse caso específico equipes com menos jogos tendem a já ter pontuações menores, em sua maioria até derrotas, então não tem porque diminuir mais ainda a média.

  • Pontuação positiva ou negativa por partida e fim da pontuação média

Um ranking alternativo muito interessante é o Elo Ratings aplicado ao futebol (http://www.eloratings.net/world.html). Nesse tipo de ranking, normalmente utilizado no xadrez, a nova pontuação de uma equipe, após a disputa de uma partida, será composta da pontuação anterior e fatores que levam em conta o resultado do jogo, incluindo a diferença de gols, o resultado esperado do jogo e a força da competição.

Aí, existem duas ideias principais a serem consideradas para aprimorar o ranking da FIFA. A primeira, e mais fácil, é a mudança da fórmula de tal forma que possa ser atribuídos pontos positivos e negativos às duas equipes envolvidas em determinada partida. Um empate da Argentina contra o Tadjiquistão não pode dar pontos aos argentinos, mas deve dar, e muito, aos asiáticos. A segunda ideia, mais difícil de se introduzir, é que diferenças de gols também podem ser levadas em consideração. Assim, um 7 x 1 tem que pesar, e muito, tanto para os vitoriosos quanto para os derrotados. Aliás, não é por isso que tantos acham que o time quase eliminado pela Argélia deve ser, disparadíssimo, o líder de qualquer ranking futebolístico interplanetário?

Com essas ideias, temos a seguinte situação: a equipe sempre ganhará pontos se fizer o que se espera dela. Uma partida qualquer bem vencida não pode atrapalhar o ranking da vencedora, como acontece hoje. Na pior das situações, o ganho será pouco. Repetindo: hoje, se a Alemanha fizer 50 x 0 na Letônia em uma partida eliminatória de Copa, ela perderá pontos no ranking.

No ranking da FIFA, 7 x 1 é igual a 1 x 0.

No ranking da FIFA, 7 x 1 é igual a 1 x 0.

  • Necessidade de revisão de pesos dos torneios

Um outro aspecto a ser levado em conta é: será que o fator é condizente com a realidade das competições? Um jogo da Copa da Oceania vale o mesmo que uma da Euro? Claro que não!

  • Atribuição de pontuação extra para fases avançadas e títulos

O caso de Alemanha x Itália retrata um ponto que deve ser considerado. Para o ranking da FIFA, o melhor para os alemães seria a derrota nos pênaltis (considerando que perderiam na rodada seguinte). Não faz qualquer sentido. Portugal ganhou a Eurocopa conquistando bem menos pontos no ranking que outras equipes. Até que ponto isso é justo? Até que ponto não é? Pontos extras a cada rodada ultrapassada e por títulos têm que fazer parte de qualquer ranking. Aliás, ranking de outros esportes coletivos só levam em consideração isso em sua maioria (não que sejam ideais também).

Assim, o ideal seria mesclar pontos das partidas com pontos das classificações conseguidas nos torneios.

  • Curva mais suave de descarte dos pontos passados

Esse ponto é bem fácil de mudar. Ao invés de se perder 50% quando um resultado passa do 12º para o 13º mês, o que, na prática, não significa nada (o time não deixa de ser bom porque sua maior vitória agora data de um mês anterior), as perdas deveriam ser graduais, mês a mês. Claro, o início do descarte de parte da pontuação também não seria, necessariamente, no primeiro mês após aquele resultado, afinal, não faz sentido descartar “x” % dos pontos da Euro no próximo ranking se não haverá jogos até lá.

Poder-se-ia, portanto, ser fixado um limite, como hoje, de as perdas de pontos só começarem a partir do 13º mês, de forma gradual. Assim, entre o 13º e o 48º mês, haveria ponderações de forma gradual nos pontos conquistados. Em uma proporção direta, a partir do 13º mês, a perda seria de 2,8% dos pontos daquele mês, 5,6% dos pontos do mês anterior, 8,3% dos pontos do mês anterior, e, assim, de forma subsequente até que, no 48º mês, a perda fosse de 100% dos pontos conquistados até ali.

Assim, para o exemplo acima, os pontos da Alemanha, que ontem valiam 50%, hoje não valeriam os 30% que valem. Em um exercício matemático simples, variariam de 66,7% para 63,9%.  Depois de mais 12 meses, ainda valeriam 30,6%, até cair a 0 depois de mais 11 meses. Não é algo complicado a se implantar.

Quais os outros pontos que valem a pena ser discutidos?

Há ainda alguns pontos que merecem ser destacados, não necessariamente como erros dos critérios adotados pelo ranking, mas como pontos de discussão:

  • Base mensal faz sentido para atualização, mas não para contabilização de pontos?

Esse ponto é controverso. Quando que um ranking deve ser atualizado? Mais que isso, a partir de quando uma equipe tem x ou y pontos? No ranking da FIFA, a força do oponente é considerada pelo seu ranking, enquanto no ranking Elo citado seria pela sua pontuação.

Assim, no ranking Elo, assim que Portugal vence Gales, sua pontuação muda e os franceses tem um oponente com pontuação maior do que aquela que eles (os portugueses) começaram o torneio. No ranking da FIFA, todos os adversários de Portugal sempre poderão ganhar o mesmo número de pontos em caso de empate ou vitória. Então, islandeses e húngaros ganharam os mesmos 570,24 pontos quando empataram com Portugal.

Esse ponto não é especificamente uma sugestão de mudança, mas de debate, vale lembrar a confusão que deu quando a FIFA divulgou um ranking provisório no dia 07 de junho, 5 dias depois de seu ranking mensal, para incluir as partidas das Eliminatórias da Copa Africana realizadas nesse ínterim. A Associação de Futebol Egípcia reclamou e um novo ranking provisório, de 21 de junho, foi utilizado para definir os cabeças de chave, entre eles os egípcios. Antes do sorteio do dia 24, porém, o Comitê da FIFA reverteu a decisão e os egípcios, que seriam cabeças de chave se FIFA e CAF considerassem quaisquer dos rankings mensais entre abril e julho, não o foram, caindo no pote 2.

Confusão marcou definição dos cabeças da chave na África.

Confusão marcou definição dos cabeças da chave na África.

  • Como uniformizar a chance das nações de alcançarem posições melhores?

Claro, em qualquer ranking, aqueles que jogam mais estarão na frente. Então, no futebol, temos as Eliminatórias e a competição principal, com os campeões ainda sendo premiados com a participação na Copa das Confederações. Porém, há de se ter um padrão, um ponderador que pelo menos uniformize a chance das seleções dos diferentes continentes terem pontuações semelhantes, se tiverem também resultados semelhantes.

Sim, parece complicado, mas o ponto a ser discutido é o seguinte: os torneios continentais possuem número de partidas (ou seja, de chances de pontuação com ponderadores maiores) diferentes. Então, como garantir que todas as equipes possam ter a mesma chance de alavancarem posições no ranking?

Na prática, podemos ver que a Euro acontece há cada 4 anos, enquanto a Copa América, modificada para intervalos de 4 anos apenas neste século, teve uma edição especial neste ano. Vantagem dos times da CONMEBOL. Porém, a CONMEBOL é a única confederação sem Eliminatórias para sua competição regional, mas ao mesmo tempo é aquela com Eliminatórias para a Copa do Mundo mais longa. A equação é clara: mais eliminatórias e mais competições continentais = mais pontos no ranking, assim, equipes que disputam Eliminatórias maiores tendem a ganhar mais pontos também (mesmo que percam mais partidas, uma vitória compensa vários resultados bons em amistosos).

O que dizer então da Copa das Nações da Oceania, que acontece a cada 4 anos e ainda serve como Eliminatórias para a Copa, em suas fases preliminares? Assim, Samoa Americana, Ilhas Cook, Tonga e Vanuatu jogarão (no caso, já jogaram) apenas quatro partidas oficiais, com ponderador maior, nesse ciclo de 4 anos que vai até 2018, não apenas por seus deméritos, mas porque o próprio regulamento já causaria isso. É o caso também das nações da África e Ásia que, a cada 2 anos, disputam uma primeira fase eliminatória, de competição continental ou da Copa, podendo ser eliminadas logo de cara, diferente de europeus e sul-americanos, que terão dezenas de partidas já garantidas em suas Eliminatórias.

Conclusão

O assunto é longo e, mesmo tentando ser sucintos, o texto ainda ficou bem longo. O ranking da FIFA não é horrível, mas tem algumas falhas graves em seus critérios, que possibilitam, por exemplo, uma seleção que foi apenas quadrifinalista na Copa do Mundo se tornar líder (Bélgica), sem contar outras colocações quase que inexplicáveis, como uma Noruega como a segunda melhor do mundo ou uma Irlanda entre as 10 melhores.

Claro, outras muitas distorções já aconteceram na história ou alguém imagina em alguns desses países sua melhor posição, no âmbito mundial, que o número dentro dos parênteses mostra, e que já aconteceu no ranking: Israel (15), Eslovênia (15), Montenegro (16), Honduras (20), Albânia (22), Guiné (22), Mali (23), Kuwait (24), Trinidad (25), Jamaica (27), Cabo Verde (27), Armênia (30), Finlândia (33), Belarus (36), Lituânia (37), Moldávia (37), Jordânia (37), Burkina Faso (37), Haiti (38), Zimbábue (40), Geórgia (42), Congo (42), Chipre (43), Tailândia (43), Letônia (45), Cuba (46), Macedônia (46), Estônia (47), El Salvador (49), Guiné Equatorial (49), Rep. Centro Africana (49), Guatemala (50), Serra Leoa (50)

Cabe à FIFA rever alguns critérios ou abolir o uso do ranking para a definição de cabeças de chave, caso não consiga entregar um produto que apresente de forma mais exata, para um leigo, a correta distribuição de forças do futebol mundial.

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Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.

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