Dez anos da tragédia de 2006

  • por Alexandre Reis
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Dois anos depois da derrota histórica do Brasil por 7 a 1, contra a Alemanha, na última Copa do Mundo, a atual situação da Seleção Brasileira, antes que Tite mostre seu trabalho, é desanimadora. Do futebol brasileiro, como um todo, é um pouco pior. São dois fatos incansavelmente discorridos tanto pela imprensa local quanto pelos amantes do futebol. Os argumentos já são conhecidos, os culpados igualmente definidos, mas o efeito central de toda a crítica parece nem surtir efeito, nem ter poder de mudança.

A própria Alemanha não nos deixa mentir. Depois de ter perdido a final em 2002 para o Brasil, se reestruturou nos anos seguintes – tanto no futebol local quanto na Seleção – e por duas vezes seguidas (2006 e 2010) conquistou o terceiro lugar, até chegar ao tetracampeonato em 2014. Mais do que isso: viu de perto a Seleção Brasileira de Ronaldinho, Ronaldo, Kaká e Adriano ser ultrapassada aos poucos pela evolução do futebol e do conceito de tática, tão difundido no passado por Carlos Alberto Parreira e tão caído por terra frente a Zinedine Zidane.

Entender a história nos ajuda a não cometer os mesmos equívocos de outrora. Ainda que os erros tenham se repetido, em 2010, com Dunga, e em 2014, com Felipão. O fiasco na Copa do Mundo da Alemanha, mundial em que o Brasil foi, pela última vez, principal favorito, tornou-se o pontapé inicial para que o futebol brasileiro perdesse um pouco em todos os aspectos: respeito, dominância, credibilidade, prestígio e, principalmente, chances do Hexa. E, entender o porquê, dez anos depois, talvez possa ajudar a criar caminhos menos ilusórios para o brasileiro doente por futebol.

“Miragem” da Copa das Confederações de 2005:

Engana-se quem carrega consigo a lembrança de que o Brasil foi espetacular um ano antes, durante toda a Copa das Confederações. Na fase de grupos, venceu apenas a enfraquecida Grécia por 3 a 0 – já não era a mesma depois do título da Eurocopa e nem foi à Copa no ano seguinte.

Depois, a Seleção Brasileira perdeu para o México por 1 a 0 e só se classificou na última rodada (pelo saldo de gols), após empatar com o Japão, em 2 a 2.

Eliminou a Alemanha na semifinal, em dia inspirado de Adriano e, excepcionalmente na final, humilhou: venceu a Argentina por 4 a 1. Tudo isso sem Ronaldo, dispensado da Seleção. À época, nas palavras de Parreira, Ronaldo “alegou problemas particulares que o impediram de se dedicar à Seleção Brasileira no momento”.

Nomes de peso no papel, porém, sem rendimento no campo de jogo:

Os Ronaldos foram casos a parte no elenco do Brasil que disputou a Copa em 2006.

Caricatura de Humberto Pessoa.

Caricatura de Humberto Pessoa.

Além de não ter jogado a Copa das Confederações, R9 também não atuava desde abril de 2006 pelo Real Madrid, devido a uma lesão na perna direita. No último teste antes da estreia no Mundial, contra a Nova Zelândia, o Fenômeno alegou dores nos pés por causa de bolhas e, segundo Moraci Santana, preparador físico do Brasil, Ronaldo se apresentou com 94,7kg e 1,83m na primeira parada da Seleção. Estava longe de ser o melhor Ronaldo da Canarinho.

O melhor Ronaldo, do elenco brasileiro e do mundo, ganhou a Liga dos Campeões em 2005/06 e os bicampeonatos de La Liga, em 2004/05-2005/06, e da Supercopa da Espanha, em 2005 e 2006. Entre outras palavras, colocou sua carreira e o Barcelona no topo do planeta. Chegou à Alemanha como o melhor jogador do mundo e principal estrela da Copa. Saiu dela como a pior, sem ter feito um gol, muito em função do esquema tático montado por Parreira, e viu seu rendimento mais declinar do que decolar. Do Milan ao Fluminense, com a justa exceção no Atlético-MG.

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Desde 1982, em Barcelona, a Seleção Brasileira não contava com um escrete tão qualificado para a disputa do Mundial. Há quem diga que, no papel, foi o melhor Brasil da história. Dos 23 convocados, apenas Rogério Ceni, Mineiro e Ricardinho atuavam no futebol brasileiro. Dida, Juan, Kaká, Ronaldinho, Robinho e Adriano estavam no auge de suas carreiras e outras peças, como Júlio César, Luisão, Cris, Cicinho, Juninho Pernambucano e Fred, despontavam como coadjuvantes de luxo. Isso sob os olhares experientes de Cafú, Roberto Carlos, Gilberto Silva e Ronaldo, já mundialmente consagrados e reconhecidos. Era a união “perfeita” de experiência e renovação.

O 4-2-2-2 previsível de Parreira

O 4-2-2-2 previsível de Parreira

Foi quando o Brasil, de uma vez por todas, deixou de ganhar Copas exclusivamente na base do talento individual e do ditado “toca em mim que eu resolvo”. Na parte tática, Parreira e Zagallo montaram um 4-2-2-2 parecido com o de 1994, mas totalmente incoerente com as características dos jogadores julgados titulares. Adriano e Ronaldo, estagnados no ataque como dois centroavantes, em nada agregaram na recomposição defensiva do time e jogaram por terra uma característica fundamental no futebol, muito estudada e discutida nos últimos anos: a boa e velha compactação, com preenchimento de espaços vazios. Abertos pelo meio, Ronaldinho e Kaká, ficavam, ao mesmo tempo, longe do gol e da defesa: do gol por causa de Ronaldo e Adriano; da defesa pelas características ofensivas de Cafú e Roberto Carlos.

Sonhos do Hexa e Pesadelos com a bola rolando:

Os problemas já ficaram evidentes logo na primeira partida, contra a Croácia, vencida pelo Brasil por 1 a 0, gol de Kaká, de fora da área. Sem ritmo, Ronaldo se arrastou em campo. Sem apoio, Adriano pouco produziu. Ronaldinho não foi o mesmo no Barcelona: jogou a Copa inteira mais recuado e não como atacante. O que não justifica totalmente seu rendimento, ou a falta dele. Os croatas foram melhores durante grande parte do segundo tempo, mas não tiveram força ofensiva suficiente para furar a defesa brasileira.

Flagra 1 - O buraco no meio-campo brasileiro

Flagra 1 – O buraco no meio-campo brasileiro

 

Flagra 2 - Adriano e Ronaldo ficaram isolados na frente. Pelo meio, Ronaldinho e Kaká pouco povoavam pelo centro

Flagra 2 – Adriano e Ronaldo ficaram isolados na frente. Pelo meio, Ronaldinho e Kaká pouco povoavam pelo centro

 

No segundo jogo, contra a Austrália de Guus Hiddink, uma reprise da estreia. Mesmo com o triunfo brasileiro por 2 a 0, o adversário se mostrou mais organizado taticamente, principalmente no segundo tempo. Os gols só saíram no fim dos dois tempos. Ronaldo ainda sofria com o peso e a falta de entrosamento, Ronaldinho era apenas um jogador comum na marcação australiana e o selecionado brasileiro escancarava para o mundo a tônica do Brasil de 2006, a seleção de dois blocos: o do que só atacava e o do que só defendia.

Flagra 1 - O Brasil em círculo

Flagra 1 – O Brasil em círculo

 

Flagra 2 - A seleção dos dois blocos e a péssima compactação

Flagra 2 – A seleção dos dois blocos e a péssima compactação

 

Flagra 3 - 7 minutos depois, nova falha na compactação

Flagra 3 – 7 minutos depois, nova falha na compactação

 

Após a vitória e a classificação do Brasil para as oitavas, Parreira saiu em defesa de Ronaldo: “A situação dele é diferente, ele precisa de ritmo de jogo. O Ronaldo teve uma melhora sensível, mas é claro que ele precisa jogar mais vezes. Aos pouquinhos vai retomando o ritmo. Degrau por degrau”. Guus Hiddink foi um dos primeiros a apontar defeitos na Seleção Brasileira:

No segundo tempo vimos uma Austrália dominando um campeão do mundo. Os brasileiros ainda não têm pinta de campeão, mas podem crescer. O Brasil não teve um bom sistema e enfrentou muitas dificuldades”.

Já garantido nas oitavas, o misto do Brasil goleou o Japão por 4 a 1. Novamente sem empolgar, apesar de ter feito sua melhor partida até então.

Começou atrás no marcador, empatou com Ronaldo ainda no primeiro tempo e virou a partida na etapa final. Mas, como mostram as imagens, os gols não esconderam os buracos deixados no meio do campo, frutos de uma mentalidade prestes a ser superada. O fato de Zé Roberto ter sido o melhor jogador do Brasil na Copa não foi obra do acaso. Era o único a ter em mente a consciência de compactar o time. Emerson fez um Mundial mediano e Gilberto Silva só foi titular nas quartas, contra a França.

Flagra 1 - O mesmo erro, repetido diversas vezes

Flagra 1 – O mesmo erro, repetido diversas vezes

 

Flagra 2 - O Brasil seguia vencendo e errando

Flagra 2 – O Brasil seguia vencendo e errando

 

De destacável contra Gana, já no mata-mata do Mundial, só o ex-recorde de gols de Ronaldo em Copas do Mundo.

O Brasil fez 2 a 0 no primeiro tempo, mas em nenhum momento convenceu.

Antes do intervalo, Gana poderia ter empatado e até virado, não fosse o preciosismo de Amoah e Gyan. Parreira recuou Ronaldinho e o fez jogar mais perto de Emerson e Zé Roberto. Foi um desastre. Errou diversos passes e prejudicou ainda mais a armação da Seleção Brasileira, já defeituosa pela falta de movimentação de Ronaldo e Adriano. No fim do jogo, com os africanos já entregues, Zé Roberto fez o terceiro. Daria no mesmo se fosse o quarto ou o quinto. Nas imagens, flagrantes dos mesmíssimos problemas.

Flagra 1

Flagra 1

 

Flagra 2 - Ronaldo e Adriano foram dois a menos na recomposição

Flagra 2 – Ronaldo e Adriano foram dois a menos na recomposição

 

Depois da eliminação ganesa, Johan Cruyff se posicionou sobre o Brasil:

Os únicos que tentam criar, a seu modo, são Alemanha e Argentina. É uma ironia, então, que eles tenham de se enfrentar nas quartas. Brasil, França, Itália, Ucrânia, Portugal e Inglaterra só se sentem confortáveis jogando atrás. Eles queimam a bola”.

Era verdade. Sem articulação e repertório na armação de jogadas, restava ao Brasil tentar se organizar da defesa. Em alguns momentos, com ou sem a bola, Emerson chegou a ser líbero entre Juan e Lúcio. Zé Roberto carregou cinco pianos, um em cada jogo, com a missão de ser tudo ao mesmo tempo.

Fim do sonho contra a França e (duras) lições do maestro Zidane:

Antes da partida contra a França, pelas quartas, Ronaldinho disse ao “Mundo Deportivo”: Contra Gana, mostramos que sabemos vencer os jogos. Este é um Brasil maduro. Sabemos como jogar as partidas e marcar os gols quando precisamos. Muitos destes jogos equilibrados são decididos com base na camisa e na tradição. Muitas vezes é mais importante ter um jogador experiente e vencedor do que outros fatores. Contra a França, o Brasil teve 11 jogadores experientes e vencedores.

Do outro lado, bastou a genialidade de Zidane, que decidiu de todos os jeitos possíveis: pelo chão, pelo alto, com e sem a bola. Desfilou no meio-campo brasileiro, modificado com as presenças de Juninho e Gilberto Silva nos lugares de Adriano e Emerson. Na frente, Ronaldinho foi escalado próximo a Ronaldo, uma sacada de Parreira a fim de recuperar alguma coisa do que R10 fez no Barcelona. Mas lhe faltava a arrancada, o drible. E os gols. O último jogo da Seleção Brasileira com gol de Ronaldinho havia sido há mais de um ano, contra a Argentina, na final da Copa das Confederações.

No primeiro tempo, um show de organização dos franceses. Kaká se perdeu em meio a tanta função. Com a bola, precisava abrir à direita. Sem ela, devia compactar pelo meio, à frente dos três volantes. Não fez nem um, nem outro e foi um a menos no setor de armação, já prejudicado pelo deslocamento de Ronaldinho. Com o meio teoricamente mais povoado, Cafú e Roberto Carlos ganharam mais liberdade, mas ficaram dependentes de uma troca de passes com os armadores e fizeram péssimo jogo. Em contrapartida, a França montou uma defesa sólida com Thuram, Gallas, Makelele e Vieira, e não havia possibilidade de não se compactar bem com Zidane, Henry e o promissor Ribery em campo. Barthez foi para o intervalo sem suar a camisa.

Flagra 1 - O banho tático da França: seis jogadores franceses neutralizado todo o time brasileiro

Flagra 1 (primeiro tempo) – O banho tático da França: seis jogadores franceses neutralizado todo o time brasileiro

 

Só foi sujá-la depois que Zinedine Zidane e Thierry Henry construíram a jogada do tento que classificou os franceses para a semifinal.

Aos 12 minutos, Zidane cobrou falta perigosa, uma das muitas que o Brasil cedeu, e colocou nos pés de Henry. O atacante do Arsenal não perdoou nem a Seleção Brasileira, nem a filosofia de Carlos Alberto Parreira: a de (tentar!) marcar por setor e de preencher os espaços.

Flagra 2 (segundo tempo) - Lá estão os seis franceses

Flagra 2 (segundo tempo) – Lá estão os seis franceses

 

CBF e sua “renovação”. Ou a geração é “luxo” ou é “lixo”:

O Brasil, tido como favorito quase absoluto ao título, estava eliminado. Superado. Ultrapassado, pela mentalidade tática, de Parreira e Zagallo, e gerencial, dos cartolas. Ronaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos, Cafu, Dida, Rogério Ceni e Ricardinho se despediram dos Mundiais com a lembrança do que fizeram no Penta, em 2002. Adriano tinha futebol para, se quisesse, ser convocado em 2010 e em 2014. O auge na Internazionale havia terminado. Ficou fora das duas Copas e, posteriormente, da profissão de jogador. Das superestrelas, sobrou apenas Kaká para 2010. Ou pelo menos parte dele. Com problemas de lesão, o camisa 10 de Dunga na África do Sul conseguiu ser ainda pior do que o 8 de Parreira na Alemanha. Estava decretado o fim de uma geração de ouro que não conquistou nem o bronze.

Oito anos depois, passada a Copa do Mundo no Brasil, destaca-se: tirando Fred, nenhum jogador brasileiro atuou nos Mundiais de 2006 e 2014. Não houve continuidade. Júlio César estava nos dois elencos, mas, quando estava no primeiro, não entrou em campo. Considere o exemplo da Alemanha, terceiro lugar em 2006, 2010 e campeã em 2014:

alemanha 2006

Créditos: footballwallpapers.com

Repetiu cinco atletas (Schweinsteiger, Podolski, Lahm, Klose e Mertesacker), além de ter revelado Müller, Kroos e Özil em 2010. A exceção de Mertesacker, que entrou no segundo tempo, e de Podolski, todos foram TITULARES no Mineirão, naquele 8 de julho de 2014.

alemanha 7x1

Müller fez um gol, Kroos anotou dois e Klose também deixou o dele, na partida e na história da artilharia geral da Copa do Mundo. Özil deu a assistência para o quinto gol, Lahm assistiu Schürrle no sexto e de Müller serviu no sétimo.

Gol da Alemanha.

7 X 1 ARTE

Estudante de Jornalismo, apaixonado por futebol. Seja a final da Copa do Mundo, as semifinais de uma Copa Rural, um jogo da Liga dos Campeões ou eliminatória da 4° divisão de algum campeonato amador do interior.

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