Enfim, o reconhecimento de Leonardo Bonucci

  • por Lucas Martins
  • 1 year atrás

“Bonucci é um dos meus jogadores preferidos na história”.

Esta frase já seria significativa vindo de qualquer um, pois citações do tipo sempre serão impactantes. Entretanto, quem soltou as sábias palavras foi simplesmente Josep Guardiola.

sorriso guardiola

O maior treinador do século XXI, possivelmente o mais completo da história. Um homem que trabalhou com Messi, Xavi, Puyol, Robben, Xabi Alonso, Piqué e companhia, vê em Leonardo Bonucci algo de muito especial. Tanto que tenta levá-lo ao seu novo Manchester City por valores absurdos. Mas seria Bonu um fenômeno do futebol nascido do dia para a noite? Por que raios a Inter o tratou como moeda de troca? Por que o mundo precisou esperar essa Eurocopa estrondosa para exaltá-lo? A verdade é que, silenciosamente (ou não), sem fazer alarde, ele sempre esteve ali. À espera do reconhecimento global, que agora chega de forma avassaladora.

INTER

Bonucci pela Inter

Leonardo cresceu em Viterbo, cidade colada em Roma, na região do Lácio. Se destacou pelo clube local, Viterbese, iniciando como meio-campista para virar zagueiro pouco antes de chegar a Inter – o que ajuda a explicar a essência deste defensor que constrói tão facilmente.

Em Milão aos 18 anos, Bonucci foi emprestado com sucesso a Treviso e Pisa até deixar os nerazzurri para pertencer ao Genoa. O negócio envolveu Diego Milito e Thiago Motta, então mesmo hoje fica difícil criticar a ação milanesa. Mas se tivesse que voltar no tempo, a Internazionale certamente teria mudado algo nisso. Tendo metade dos direitos cedidos ao Bari, que comprou o restante depois, Leo nunca chegaria a atuar pelos genoveses.

Brilho no Bari e “boom” na Itália

Sem mais delongas, o Bari da temporada 2009/10 surpreendeu a Itália. Recém-promovido da Serie B, o clube biancorosso quebrou previsões para fazer sua melhor campanha na história da 1ª divisão italiana. Boa parte disso se deve a Bonucci, que disputou todas as 39 partidas (38 pela Serie A, uma pela Copa Itália) oficiais da equipe na temporada – participando de todos os minutos possíveis. O comando era de Giampiero Ventura, velho conhecido de Bonu da época no Pisa e hoje treinador da Azzurra. Aquele divertido Bari tirou pontos de Inter, Juventus, Milan e da bela Sampdoria sem pensar duas vezes, consagrando a jovem dupla formada por Ranocchia e Leonardo Bonucci.

 

O 4-4-2 de Ventura tinha cara de 4-2-4, era mortal nas saídas rápidas ao ataque e prezava pela solidez na linha de defesa. Dentro dessa engrenagem, onde a meia-cancha ficava por vezes esvaziada e os zagueiros tinham de dar soluções na saída de bola, a Bota conheceu um tal garoto de 1,90m. Que tinha tranquilidade, qualidade e personalidade para encontrar lançamentos de 50 ou 60 metros.

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Que oferecia controle sobre a pelota, que fazia pensar um conjunto de frequente aceleração. Com erros e precipitações naturais aos oscilantes 22 anos, mas nada capaz de fazer Leo se intimidar. Já nesse período existia este estilo de Bonucci que conhecemos, contudo ainda incompleto e algo ofuscado pelo colega Ranocchia – o tempo realmente mostrou quem era o melhor daquele dueto.

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Em contraste a seu poder criativo, havia um jogador lento, cheio de dificuldades longe da área e com uma evidente falta de timing para antecipar ou desarmar. Bonu se “acorrentava” próximo ao goleiro e dali só saía por forças maiores. Seu poder defensivo estava concentrado por cima. Apesar disso, as fragilidades eram insuficientes para diminuir o campeonato de ouro feito por ele, atingindo a seleção italiana ainda em 2010. E a partir do Mundial da África, sua casa seria uma Juventus em reconstrução; com a transferência girando na casa dos 15 milhões de euros.

Confirmação na Juventus, “inferno” com Delneri e evolução junto a Conte

Leonardo Bonucci começou o processo de evolução com Antonio Conte, mas sua melhor faceta se deve a Massimiliano Allegri. Antes de ambos, porém, houve a fase nebulosa de Luigi Delneri. Antes do Juventus Stadium, quando Pirlo ainda era do Milan e Felipe Melo titular bianconero. Bonucci não demorou a conquistar seu espaço no 4-4-2 juventino, o grande problema era como funcionava a mecânica do conjunto. Vindo de uma equipe onde o risco defensivo beirava o mínimo para os zagueiros, Leo passou a jogar no oposto disso. A Juve de Delneri colocava a linha de defesa bastante adiantada para os padrões italianos da época. Não bastasse isso, era quase um queijo suíço na ocupação de espaços e mantinha a pesada dupla Bonu-Chiellini em situações desastrosas. Nosso herói chegou a frisar tal fato no período:

“No Bari esperávamos dentro da área. Delneri já quer que o zagueiro pressione”.

Longe de suas características, agora sempre correndo atrás dos atacantes, Bonucci levou seu único cartão vermelho direto – em toda sua trajetória pela Juventus – nessa temporada. Com a queda de rendimento vieram as críticas, minando a confiança do zagueiro e transformando-o num poço de insegurança. Isso perduraria até Antonio Conte aterrissar no Piemonte.

O começo com Conte também não foi maravilhoso, ainda numa defesa de quatro homens. O futebolista do Lácio seguia incomodado, continuava obrigado a atuar fora do seu normal e já despertava fúria nos torcedores. Foi quando nasceu o trio BBC, com a adição de Barzagli aos titulares. Primeiro com Chiellini na lateral, depois compondo o bloco de três zagueiros. Assim seria possível aproveitar todos ao máximo, era o sonho se fazendo real. Leo estava protegido por dois defensores, já não era tão necessário avançar para antever as jogadas ou tirar a bola dos pés adversários. Bonu passou a cobrir ambos, ocupando os espaços certos e se consagrando pelo alto. Mesmo que ainda visto como o elo fraco da trinca, como um substituível irregular, ele se manteve firme e melhor a cada confronto.

Com a redonda dominada foi mais do mesmo, mas agora com novas parcerias que o tornaram superior. Entre Pirlo, Vidal e Marchisio, mais tarde somando Pogba e Tévez, Leonardo Bonucci intensificou sua relação amorosa com a saída de bola. Eram muitas e belas opções de passe à frente, seja para o curto ou visando lançamentos às costas da defesa. Conte chegou a dar peso total ao zagueiro nisso, a ponto de utilizar Andrea Pirlo como um simples soldado com a missão de facilitar a criatividade do general Bonucci. Os erros grotescos e perigosos, comuns no início deste projeto do treinador, foram aos poucos sumindo. Parecia aquela a versão mais imponentemente completa do camisa 19, um rei nas mãos certas. Contudo, Allegri provou o quanto este pensamento estava equivocado.

Explosão às ordens de Allegri, reconhecimento na Euro 2016

A própria escolha por Massimiliano Allegri para o pós-Conte foi banhada por críticas duríssimas. Logo, não se esperava uma Juve soberana como o tempo acabou por indicar. Allegri preservou coisas de Conte, porém foi alterando outras: maximizou a influência de Pogba, tirou peso de um Pirlo em decadência, deu opção a Arturo Vidal e trabalhou alternativas para os três zagueiros, por exemplo. Todavia, o mais importante foi ter feito a Juventus voltar a competir de verdade na Champions League. Algo conquistado muito a partir do jogo de memória criado, no qual todos praticamente sabiam o que fazer em cada situação. Bonucci entra na história aí, pois a Vecchia Signora deu inúmeros shows defensivos em 2014/15.

Ele, Chiellini e Barzagli passaram a se falar por telepatia, era quase impossível achar uma falha. O italiano havia virado um defensor ainda melhor, pois foi capaz de evoluir no que já era ótimo e melhorar as habilidades no que era pior: passou a antecipar com qualidade, ganhou um grande timing, cresceu no um contra um, etc. Aliado a isso, só finalizou coisas como o domínio da área para transpor a barreira dos comuns e entrar na história dos grandes.

BONUCCI

As maiores noites europeias viram um colosso juventino na temporada 2015/16, dominando qualquer ser vivo que se aproximasse. Prova disso foi a atuação contra o Bayern em Munique, no duelo que eliminou a Juventus da Champions. Ou a vitória por 3 a 0 sobre a Inter, pela Copa Itália, que também presenciou este fenômeno em nível brutal. Realmente impressionante, dito isso, foi a extrema regularidade durante o pentacampeonato bianconero.

A Eurocopa de 2016 foi o ápice da carreira, a união de tudo. Novamente sob a batuta de Conte, Leonardo voltou a reeditar sua parceria com Pirlo no caminho para a competição. Apesar disso, o cenário da Nazionale era muito mais negativo, esfacelado. Andrea nem chegaria a jogar a Euro, então coube totalmente a Bonucci ser o organizador italiano desde trás.

Até porque, Verratti e Marchisio estavam fora por lesão. Uma estreia monumental ante a Bélgica deixou claro que o fardo, de liderar toda uma Itália, era leve para ele. Foi uma exibição mágica, defendendo como Fabio Cannavaro e criando como Roberto Baggio – ou simplesmente emulando o mestre Gaetano Scirea. O lançamento para o gol de Giaccherini lembrou Gérson, Didi. Lembrou Leonardo Bonucci.

A sequência de partidas apenas carimbou uma Euro fantástica, acrescentando um jogo quase perfeito contra a Espanha e outros seríssimos frente Alemanha e Suécia. Era o necessário para comprar uma cadeira perto das lendas. Aos olhos de meio mundo, o menino de Viterbo protagonizou o épico. Se encerasse a carreira ali, já seria suficiente para acabar nos braços do povo.

Bonucci é um caso clássico de talento moldado a partir do tempo. Por que aquele zagueiro trocado pela Inter não tinha alma de gigante, tampouco o destaque do Bari apontava para um defensor tão completo. Assim como o homem sob comando de Delneri realmente parecia inseguro. Dizem que todos têm um gênio dentro de si, a questão é que alguns vão morrer sem saber disso. Leo sempre foi o que é hoje, sempre manteve trancafiado este jogador esplêndido. Mas foi preciso tempo, confiança, sacrifício e instrução para liberá-lo. Depois de tamanha paciência, o resultado é um auge aos 29 anos.

Ou será que o melhor, uma vez mais, ainda está por vir?

Comentários

2000. Um doente por futebol que busca insistentemente entender esse jogo magnífico de forma completa - claro, sem sucesso.