Como o efeito Bielsa poderia ter mudado a Lazio

  • por Lucas Martins
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Pode ser verdade que de gênio e louco todo mundo tem um pouco. Uns mais, outros muito menos. A alguns falta coragem para explorar esses dois lados do ser humano, no fim das contas. Mas pouquíssimas pessoas neste planeta conseguem unir tamanha genialidade e “loucura” quanto Marcelo Bielsa – no futebol, é possível dizer que ninguém. Bielsa transcende o esporte, é praticamente um estilo de vida.

Sua chegada é um marco social, tudo que está ao redor se transforma. Oficializado como treinador da Lazio nesta quarta-feira (6), não daria para esperar outra coisa na capital italiana. Marcelo deveria mudar o Derby di Roma, a Serie A, o jogo praticado na Bota e, principalmente, o clube que o contratou.

Mas preferiu romper antes de treinar a equipe, de forma juvenil.

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Foto: OM.net

Marketing bielsista

Como excêntrico no mundo do futebol que é, o treinador argentino simplesmente atrai atenção. Quem gosta de detalhes táticos descomunais seguiria a Lazio, mas os que adoram divertir-se com 22 homens correndo atrás de uma bola também. Bielsa recolocaria a agremiação biancoceleste no mapa, gente de todo o globo marcaria as partidas azuis na agenda.

Sentir esse efeito é um deleite para o amante do esporte bretão, estar em contato com o bielsismo é mergulhar de cabeça em uma causa contra tudo e todos. Somente por isso, tê-lo no banco de reservas já valeria muito para os laziali.

Como o clube iria administrar tal visibilidade, algo único neste século, é outra história. Porém, o técnico mais badalado dos 116 anos de Lazio – ao lado do multicampeão e ídolo Sven-Göran Eriksson – estava para aterrissar em Roma no dia 9 de julho a fim de mudar as bases da entidade.

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Torcida do Olympique festejando Bielsa (Foto: OM.net)

Na mesma direção, o contestado presidente Claudio Lotito pretendia reconquistar a esgotada torcida. Se os homens são fisgados pelo estômago, os torcedores são ganhos a partir do bom futebol. É bom lembrar que, antes de Bielsa, os capitolinos quase fecharam com Jorge Sampaoli. A intenção, de verdade, era a supracitada.

A Lazio não tem média de ao menos 40 mil pessoas no estádio Olímpico desde 2004 – teve 21 mil na última. A popularidade de Lotito é baixíssima entre os fãs e continua despencando, o que pode ser visto na venda de carnês para a temporada. Vários protestos acontecem desde 2013, o povo não está com ele. Para mudar isso, a figura de Bielsa surgia imponente ao horizonte.

Dando sequência, também há a questão de chamar jogadores. Competir contra o dinheiro da Inglaterra é impossível, bater a Espanha de Messi e Cristiano também não parece simples; assim como derrotar a organizada Alemanha. Neste cenário, o trunfo romano seria ter Bielsa. Que já desenvolveu vários jogadores, como mais recentemente o francês Dimitri Payet. Além disso, o comandante possui uma vasta pasta de informação a respeito de jovens talentos sul-americanos e faria a Lazio largar na frente nessa corrida.

Impacto nos garotos

Faz parte da filosofia dos aquilotti apostar em promessas, muito pelo baixo valor de tais negócios. Atualmente Hoedt, De Vrij, Patric Gabarrón, Milinkovic-Savic, Cataldi, Onazi, Felipe Anderson, Kishna e Keita Baldé são alguns nesta lista. Com pesos no grupo e idades diferentes, todos têm pontos claros a evoluir.

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A escolha por Marcelo Bielsa também atravessava tal terreno, pois está absolutamente claro que o hermano sabe melhorar e lidar com bons talentos. Pode ser cansativo para o atleta, o método pode parecer esquisito, mas existe didática em cada ação.

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Foto: OM.net

Dois dos que mais deveriam receber com a chegada de Bielsa são Keita e Felipe Anderson, além de Ricardo Kishna e Danilo Caltadi. A primeira dupla já mostrou muito, ambos são capazes de atingir feitos incríveis. Todavia seguem inconstantes, até pela irregularidade e fragilidade coletiva. Já Cataldi e Kishna, dueto de 21 anos, poderiam mostrar o potencial de forma mais fluida. No somatório geral, faltaram chances e confiança nesses garotos.

Ganho de competitividade

Sendo o estado de ânimo fundamental no esporte, seria difícil imaginar a Lazio de Bielsa pouco competitiva. Marcelo tem essa coisa diferente, domina a arte de dominar seus homens. Seus times são 100% intensos, convictos no modelo de futebol do técnico. Pode até ser que no final nenhum título seja alcançado, detalhe até corriqueiro na trajetória de El Loco, mas a derrotas serão negociadas bravamente.

No cenário italiano – mais calmo, tranquilo e conservador -, o estilo de jogo bielsista chegaria como um choque cultural. É aí que os biancocelesti seriam capazes de surpreender.

Muita pressão pelo campo inteiro, marcação individual também por todo o gramado, passes rápidos, mobilidade geral, triangulações verticais, linha de defesa subindo bastante, o esquema 3-3-3-1, ataque frequente aos espaços vazios: Bielsa adora tais características, várias delas inexistentes no dicionário do Belpaese.

POSICIONAMENTO 1

Como poderia ser a Lazio de Bielsa | Clique e amplie

Na Itália, ninguém se aproxima disso. Para voltar a perfilar pelo menos duas temporadas em altíssimo nível, os azuis da capital jogavam tudo na genialidade do maestro argentino. Tanto que o clube gastou cerca de 100 mil euros em novos equipamentos, a pedido dele.

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Como nem tudo são flores, a personalidade de Bielsa sempre tendeu a preocupar. É um profissional que odeia ser contrariado, que não admite certos comportamentos e raramente hesita em abandonar o barco. Em oposição a isso, o presidente da Lazio é um perfeito destruidor de sonhos. No sentido de que não faz loucuras, tenta sempre equilibrar o financeiro antes de melhorar o esportivo. Uma relação com cara de bomba relógio. Que, no fim, explode antes do previsto.

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Foto: OM.net

De qualquer maneira, o efeito Bielsa já estava começando a ser sentido pelos lados da Cidade Eterna. Vivê-lo é uma sensação única, a possibilidade de legado era muito grande (a seleção chilena que nos diga). Enfim, sob vários pontos de vista, o fato é que Marcelo Bielsa poderia realmente mudar a Lazio. Mas, por decisão dele, não acontecerá.

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2000. Um doente por futebol que busca insistentemente entender esse jogo magnífico de forma completa - claro, sem sucesso.

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