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Os caminhos para a taça: prévia tática da final da Libertadores 2016

Atlético Nacional e Independiente Del Valle vão duelar pela taça mais cobiçada do continente em 2016. De um lado o melhor time da primeira fase, dono do melhor ataque e com um título da Libertadores no seu currículo; do outro o “futuro campeão do Equador”, a maior surpresa da competição e que quer continuar fazendo história. Em campo, duas equipes bem diferentes. O Nacional que trabalha a bola e chega com muitos jogadores no ataque. E o Del Valle que aposta no jogo vertical e na bola aérea. Quem vai levar a melhor?

Dissecamos as duas equipes e projetamos a final da Libertadores 2016 apontando os caminhos que podem levar Atlético Nacional ou Idependiente Del Valle ao topo da América.

ODD Shark

As escalações

Arte: Doentes por Futebol

Arte: Doentes por Futebol

Ao menos que os treinadores aprontem uma inovação de última hora, as Del Valle e Nacional não devem ter grandes surpresas. Os equatorianos tem apenas uma dúvida para o primeiro jogo: Ayala ou Núñez na lateral esquerda? O primeiro é o titular da posição, mas foi substituído por lesão na partida da Bombonera e pode ficar fora do primeiro encontro. Pelo lado verde e branco, o capitão Mejía, suspenso, é ausência certa no duelo em solo equatoriano. Ao que tudo indica o recém-chegado Blanco será seu substituto na volância.

A verdadeira dúvida de Reinaldo Rueda mora mais a frente, no trio de meias. Guerra está de volta ao time e será titular, assim como Marlos Morenos. Sobra uma vaga para Macnelly Torres ou Berrío. A opção de Rueda passa pelo que ele pretende para seu time: se quiser controle, cadência e mais posse de bola, a escolha é por Mac Torres. Se quiser mais velocidade e verticalidade para agredir o adversário, vai de Berrío.

A força equatoriana pelos lados

O jogo do Independiente Del Valle acontece pelos lados. Pablo Repetto treina seu time para atacar o adversário pelas beiradas e tem uma forma bastante definida de se fazer isso. Logo na saída de bola, os zagueiros ou volantes definem o lado da jogada e entregam a bola para o lateral (em alguns casos, diretamente para o ponta). Esse lateral tem total liberdade para se mandar ao ataque e tabelar com o ponta, enquanto o lateral do lado posto fica recuado, próximo aos zagueiros.

Com a bola no flanco, o volante do setor aproxima para ser opção de passe mais atrás, caso seja preciso recuar a bola ou mudar ela de setor. Orejuela se destaca bastante nesse trabalho. O camisa 18 está sempre a disposição para ser a opção de retorno, sabe circular a redonda com qualidade e inverter o lado da jogada. Já o meia, o atacante e o outro ponta ficam na região central, nas costas dos volantes adversários.

Foto: Reprodução/Fox Sports - Assim ataca o Del Valle: lateral (Tellechea) e ponta (Cabezas) abertos, um volante (Orejuela) dando opção de passe atrás, meia (Sornoza) e atacante (José Angulo) buscando espaço nas costas do volantes e o ponta do lado oposto (Julio Angulo) centralizando

Foto: Reprodução/Fox Sports – Assim ataca o Del Valle: lateral (Tellechea) e ponta (Cabezas) abertos, um volante (Orejuela) dando opção de passe atrás, meia (Sornoza) e atacante (José Angulo) buscando espaço nas costas do volantes e o ponta do lado oposto (Julio Angulo) centralizando

Nesse posicionamento ofensivo, o Del Valle é forte pelo lado esquerdo. O ponta Cabezas é muito veloz e quase sempre busca (e consegue) bater o adversário em velocidade e chegar à linha de fundo para cruzar. Por esse setor Sornoza também aparece para jogar. O meia se movimenta do centro para a esquerda e costuma se aproximar do lateral e do ponta a fim de realizar tabelas. O grande problema é que quando o camisa 10 não aparece, a jogada pela esquerda só tem um caminho: a linha de fundo. Apesar de ser perigoso na bola aérea, o ataque acaba previsível.

Essa previsibilidade se torna preocupante após ver o que o Atlético Nacional fez contra o São Paulo. O tricolor também gosta de levantar bola na área para Calleri e, sem Ganso, era evidente que os cruzamentos seriam frequentes. Sabendo disso, Rueda fechou os lados do campo sempre criando superioridade numérica. Veja como o time paulista ataca de forma semelhante ao equatoriano, como apenas dois jogadores pelos lados e três na faixa central.

Foto: Reprodução/Fox Sports - São Paulo ataca com dois jogadores pela beirada e o Atlético Nacional encosta três marcadores para ter superioridade numérica

Foto: Reprodução/Fox Sports – São Paulo ataca com dois jogadores pela beirada e o Atlético Nacional encosta três marcadores para ter superioridade numérica

E quando o São Paulo tentava fugir dessa superioridade invertendo o lado da jogada, lá estavam os jogadores verdolagas em vantagem de novo. O balanço defensivo colombiano na partida do Morumbi foi muito bom, negando espaços por fora e tirando a vantagem do adversário. É importante que isso se repita contra os equatorianos para anular a principal via de ataque do oponente, que precisará inverter o lado da jogada com velocidade, ou ficará preso na armadilha de Rueda.

No vídeo abaixo é possível ver um pouco desse trabalho defensivo do Atlético Nacional:

Como último recurso, sempre sobra a jogada individual. E é preciso que o Nacional tome muito cuidado com Cabezas, jogador bastante rápido e que não tem medo de ir pra cima do marcador. O jovem equatoriano leva ampla vantagem sobre o lateral Bocanegra quando o assunto é velocidade, então Sánchez ou Pérez têm que ajudar na cobertura.

A segunda arma de Repetto

Reinaldo Rueda pode (e deve) trancar os lados do campo e dificultar a vida do Del Valle, mas isso não quer dizer que a surpresa da Libertadores ficará inofensiva. Pablo Repetto tem uma segunda arma preparada, sempre pronta para ser utilizada: a ligação direta. Ligação direta é muito diferente de chutão. Chutão é um bico pra frente, que os jogadores fazem sem olhar e, muito menos, sem treinar. Ligação direta é um recurso treinado para levar a bola rapidamente ao ataque. E o Independiente faz isso muito bem. O centroavante José Angulo recua e faz a famosa “casquinha” para o trio de meias que infiltra.

Foto: Reprodução/Fox Sports - Angulo disputa pelo alto com os volantes enquanto Cabezas, Sornoza e Julio Angulo (circulados) se posicionam para a segunda bola

Foto: Reprodução/Fox Sports – Angulo disputa pelo alto com os volantes enquanto Cabezas, Sornoza e Julio Angulo (circulados) se posicionam para a segunda bola

A grande vantagem é que Angulo, além de ser muito bom no jogo aéreo, disputa a bola com os volantes adversários, geralmente mais baixos que seu 1,81 m. A dupla titular do Atlético Nacional, Mejía (1,78 m) e Pérez (1,76 m), é menor que o equatoriano. Até por isso o treinador Rueda deve optar por Blanco (1,79 m), que acabou de chegar ao clube, ao invés de Arias (1,70 m), reserva imediato da posição ao longo da Libertadores, para substituir Mejía na primeira partida. A ideia é manter uma estatura razoável no centro para dificultar o jogo direto do Del Valle.

Caso o Atlético Nacional trave o jogo pelas beiradas ou pressione a saída de bola equatoriana, pode se preparar para ver muitos lançamentos em direção na direção de Angulo e o trio de meias disputando a segunda bola.

Jogando por dentro

O Atlético Nacional também tem uma forma bem característica de atacar. Os dois laterais avançam ao mesmo tempo, alargando o campo de jogo; Pérez deixa a linha de volantes e se adianta; e os dois pontas centralizam. Dessa forma o time colombiano coloca cinco jogadores por dentro e provoca um verdadeiro caos por ali, com muita movimentação, troca de passes e infiltração.

Foto: Reprodução/Fox Sports - Laterais (circulados) dão amplitude enquanto cinco jogadores ocupam o centro do campo

Foto: Reprodução/Fox Sports – Laterais (circulados) dão amplitude enquanto cinco jogadores ocupam o centro do campo

Essa constante movimentação pode causar problemas ao Del Valle. Isso porque o time equatoriano faz marcações individuais dentro do setor, ou seja, os jogadores perseguem os adversários que estão próximos a bola. Sendo assim, movimentações coordenadas do ataque podem desmontar a defesa e abrir espaços importantes. Na semifinal, o Boca Juniors anotou um gol fazendo exatamente isso, utilizando um jogador para abrir espaço para o homem da bola.

Enfrentar o Nacional vai exigir muita concentração e intensidade por parte dos equatorianos para não ceder esses espaços na entrada da área. Será preciso ter muita pressão nos encaixes de marcação e inteligência nas coberturas, para cobrir eventuais buracos. Nesse ponto, Mina será fundamental. O zagueiro tem velocidade para se recuperar em jogadas de profundidade e vai muito bem nas coberturas.

A maior virtude do Atlético Nacional

O Atlético Nacional não tem o melhor ataque da Libertadores por acaso. O time tem ótimos jogadores, é bem treinado e sabe o que fazer dentro de campo. Os colombianos conseguem trabalhar muito bem a bola, seja para construir ataques ou para esfriar o jogo. Tudo isso graças à formação de triângulos no campo. Formar triângulos nada mais é do que oferecer duas opções de passe próximas ao portador da bola, assim fica fácil reter a posse e circular a redonda.

Observe como os jogadores sempre têm para quem passar e atravessam o campo todo com a bola no chão, trocando passes:

Esse jogo apoiado verdolaga é sua maior virtude, e a maior preocupação para os adversários. Sem dúvidas Pablo Repetto está gastando boas sessões de treinamento buscando mecanismos para conter a troca de passes colombiana, ciente de que sua vitória passa em ter sucesso nesse trabalho defensivo.

O jogo nas transições

Muitas vezes um jogo de futebol é decidido nos detalhes. E as transições defensivas e ofensivas são um “grande detalhe” que muitas vezes passa despercebido. Os dois times tem jogadores que podem ser importantes nessa fase do jogo, o principal deles é Cabezas. O equatoriano é do tipo de jogador que manda a bola pra frente e dispara com muita velocidade, não à toa é o principal alvo das transições ofensivas do Del Valle. Sempre que possível o time aciona ele para sair rápido. Como o Atlético Nacional joga com seus laterais bastante adiantados, pode ser um caminho muito útil para o time equatoriano (e um foco de atenção para os colombianos).

Marlos Moreno é esse tipo de jogador no lado colombiano. Mais técnico, ele tem o drible curto como qualidade para superar seu marcador. No entanto, o cenário para ele é menos favorável. O Del Valle não solta os dois laterais ao mesmo tempo e os volantes guardam posição, ou seja, sempre tem ao menos três jogadores postados para matar o contra-ataque adversário.

A ausência de Mejía no primeiro jogo também pesa muito nesse quesito. O volante é um leão nas coberturas e no controle das transições ofensivas do oponente. Ele sempre está próximo de alguma opção de passe, pronto para atacá-la e recuperar a posse. Quando não consegue o desarme, cerca o homem da bola e atrasa do contra-ataque, permitindo que seus companheiros voltem para a defesa. Sem ele, Sornoza pode ter mais espaço para puxar as transições ofensivas e levar a bola ao ataque com rapidez.

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Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.